Escassez de Chips: IDC Prevê Colapso na Produção de Celulares em 2026

A indústria global de smartphones enfrenta um cenário sombrio para 2026, conforme um novo relatório da consultoria International Data Corporation (IDC). A grave escassez de componentes, impulsionada pela demanda insaciável por memória para centros de dados de Inteligência Artificial (IA), está forçando uma redução drástica na produção de telefones, com previsões de contração que chegam a quase 13% em relação ao ano anterior.
Este novo choque na cadeia de suprimentos é descrito por analistas como uma crise sem precedentes, superior até mesmo aos impactos sentidos durante a pandemia ou crises logísticas anteriores. A consequência direta é uma restrição na oferta de memória DRAM e NAND/SSD, componentes cruciais para o funcionamento dos dispositivos móveis, o que limita a capacidade de produção das fabricantes.
A Causa Raiz: A Corrida pela Memória de IA
O cerne da crise atual não reside em gargalos logísticos tradicionais, mas sim no redirecionamento maciço da produção de semicondutores para atender à corrida da Inteligência Artificial. Os grandes fabricantes de memória, como Samsung, SK Hynix e Micron Technology, estão priorizando a produção de memórias de alta largura de banda (HBM), essenciais para aceleradores de IA utilizados por gigantes da tecnologia como Google, Meta e Amazon.
Esta priorização cria um efeito de crowding-out, onde cada wafer de silício destinado a um chip de IA é um wafer negado a um módulo de memória LPDDR5X usado em smartphones de médio alcance ou SSDs de consumo. A demanda explosiva por esses componentes de IA absorve uma fatia muito maior da capacidade de produção, levando a um aumento acentuado nos preços e à escassez de memória padrão.
Impacto nos Custos e Preços Finais
O aumento nos custos dos insumos está se refletindo diretamente na etiqueta de preço dos dispositivos. Segundo dados analisados, o custo da memória, que antes representava entre 10% e 15% do custo total de materiais de um smartphone, pode agora ocupar entre 30% e 40% desse total.
- Aumento de Preços Médios: A IDC projeta que o preço médio de venda (ASP) dos smartphones subirá significativamente em 2026, com estimativas variando entre 8% e 14% de alta em relação ao ano anterior, atingindo um recorde de preço.
- Fim dos Modelos de Entrada: A pressão de custos torna insustentável a produção de aparelhos muito baratos. Estima-se que fabricantes não conseguirão mais produzir telefones abaixo de US$ 100, forçando a eliminação ou encarecimento dos modelos de entrada.
- Repercussão em Marcas: Fabricantes com margens de lucro apertadas, especialmente as que focam no sistema operacional Android e nos segmentos de entrada e intermediário, sofrerão o impacto mais severo, sendo forçadas a repassar os custos aos consumidores. Algumas marcas, como a Xiaomi, já confirmaram que seus aparelhos ficarão mais caros.
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Previsão de Produção: Queda para Nível de Uma Década
O relatório da IDC aponta para uma retração acentuada no volume de remessas globais de celulares em 2026.
- Contração Anual: A previsão mais recente indica uma queda de 12,9% nas remessas globais, totalizando aproximadamente 1,1 bilhão de unidades, o que representaria o nível mais baixo em mais de uma década.
- Revisão Negativa: Essa projeção é uma revisão para baixo, considerando que o mercado havia tido um crescimento modesto em 2025, revertendo uma tendência de alta.
A consultoria também prevê que a receita total do mercado de smartphones pode ter um declínio modesto, de cerca de 0,5%, apesar do aumento do preço médio.
Vencedores e Perdedores na Crise de Componentes
A natureza assimétrica da crise cria um ambiente competitivo alterado, favorecendo empresas com maior resiliência na cadeia de suprimentos e poder de negociação.
Vantagem para Gigantes
Marcas como Apple e Samsung são consideradas mais estruturalmente protegidas. Elas possuem maior poder de compra, contratos de fornecimento de longo prazo e reservas de caixa robustas, o que lhes permite navegar com mais facilidade pela turbulência de preços. Para estas empresas, a crise pode significar uma oportunidade de aumentar sua fatia de mercado à medida que concorrentes menores recuam.
Desafios para Fabricantes de Baixa Margem
Para os fabricantes dependentes de margens finas, a situação é crítica. A incapacidade de absorver o aumento dos custos de memória pode forçá-los a reduzir especificações, eliminar linhas de produtos ou, em um cenário extremo, ameaçar sua sobrevivência no mercado. A IDC sugere que a era de melhorias contínuas de especificações a preços baixos acabou, e os consumidores terão que optar por manter seus aparelhos por mais tempo ou migrar para o mercado de usados, a menos que migrem para modelos premium.
Perspectiva de Longo Prazo
A expectativa da indústria é que a situação de restrição de oferta de memória não se resolva rapidamente. Analistas indicam que não se espera um alívio significativo na escassez até, pelo menos, meados de 2027, dado o tempo necessário para a construção e entrada em operação de novas capacidades de fabricação de chips.
Em resumo, o relatório da IDC sinaliza que a produção de telefones em 2026 será marcada por uma crise de suprimentos de memória, ditada pela IA, resultando em menos aparelhos produzidos, preços médios mais altos e uma consolidação do mercado em favor dos grandes players.
