David Wise: IA é Faca de Dois Gumes na Transformação dos Games

O renomado compositor britânico de trilhas sonoras para videogames, David Wise, conhecido por seu trabalho icônico em séries como Donkey Kong Country, expressou uma visão ambivalente sobre o papel da inteligência artificial (IA) na transformação da indústria de jogos. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Wise afirmou que a IA é uma ferramenta que, embora amplie oportunidades, deve ser utilizada sem substituir a criatividade e o trabalho humano, destacando a importância do estilo próprio em um cenário de criações cada vez mais genéricas.
A declaração de Wise, feita durante sua participação na Gamescom Latam 2026, reflete um debate crescente e polarizado na indústria de games, onde a adoção da IA generativa avança, mas encontra resistência significativa entre os desenvolvedores.
A Visão Ambivalente de David Wise: Criatividade Humana vs. Produção Genérica
David Wise, com mais de quatro décadas de carreira iniciada em 1985, é uma figura lendária no universo dos games, reconhecido por seu estilo musical atmosférico que mistura sons naturais com melodias marcantes e percussão. Para o compositor, a inteligência artificial representa um avanço tecnológico com potencial para otimizar processos, mas carrega o risco de diluir a essência criativa que define grandes obras.
Ele enfatiza que a verdadeira inovação e o impacto emocional nas trilhas sonoras e nos jogos vêm da sensibilidade e do toque humano. Wise acredita que apenas a composição manual é capaz de gerar algo verdadeiramente novo e interessante, e que a demanda por música feita por humanos sempre existirá. Em suas palavras, é essencial “escrever música do coração, colocar o próprio estilo nisso e não ter medo de fazer as coisas que empolgam”. Essa perspectiva contrasta com a preocupação de que a IA possa levar a uma proliferação de conteúdos padronizados e sem alma, perdendo a capacidade de surpreender e engajar o público de forma profunda.
Historicamente, Wise moldou suas composições diante das limitações técnicas, como os oito canais de áudio disponíveis no Super Nintendo, o que o forçava a focar em temas fortes para ambientar os games e comunicar emoções. Hoje, a tecnologia oferece muito mais recursos, permitindo faixas separadas para áudio ambiente, música, efeitos sonoros e vozes. No entanto, para Wise, a liberdade tecnológica não deve eclipsar a necessidade de uma visão artística singular.
Veja também:
A Realidade da IA na Indústria de Games: Divisão e Crescimento
A ambivalência de David Wise reflete o cenário atual da indústria de jogos, que se encontra dividida sobre o uso da IA generativa. Uma pesquisa anual de desenvolvedores da GDC revelou que mais de 50% dos profissionais consideram a IA prejudicial para o setor, um aumento significativo em relação a anos anteriores. A rejeição é particularmente forte entre artistas, designers, escritores e programadores, cujas funções são frequentemente apontadas como potencialmente substituíveis pela tecnologia.
Adoção e Aplicações da IA
Apesar das preocupações, a adoção da IA continua a crescer. Cerca de 33% dos desenvolvedores já utilizam alguma forma de IA generativa em seu trabalho. Notavelmente, o uso da tecnologia mostra uma divisão hierárquica dentro dos estúdios: as seções de negócios lideram a adoção com 58%, seguidas pela alta gerência (47%), enquanto funcionários de níveis inferiores apresentam um uso de 29%.
As aplicações da IA são diversas e abrangem várias etapas do desenvolvimento de jogos:
- Pesquisa e Brainstorming: 81% dos desenvolvedores usam IA para gerar ideias e conceitos.
- Tarefas Administrativas: 47% utilizam para atividades como responder e-mails.
- Auxílio em Codificação: 47% empregam IA para suporte na programação.
- Prototipagem: 35% usam para criar protótipos rápidos.
A geração direta de assets para jogos, como modelos 3D ou texturas, ainda não é o caso de uso majoritário, mas a eficiência prometida é expressiva. Consultores estimam que a IA pode aumentar a produtividade dos estúdios em até 40%, permitindo que artistas se concentrem em tarefas mais criativas. Um modelo 3D de alta qualidade, que antes custava cerca de US$ 1.000 e levava duas semanas, pode ser feito em um minuto por apenas US$ 2 com IA, segundo especialistas.
Controvérsias e Uso Oculto
O avanço da IA na indústria não está isento de controvérsias. Há um temor generalizado de cortes de pessoal e de uma pressão competitiva sobre estúdios que não adotarem a tecnologia. Além disso, a qualidade dos resultados da IA ainda é inconsistente, com objetos gerados por IA sendo descritos como “caóticos e inadequados para uso” em alguns casos. Algumas editoras, como a Hooded Horse, já decidiram não publicar jogos que utilizem recursos de IA, demonstrando um esforço para preservar os padrões tradicionais de produção.
Um aspecto notável é a relutância de muitos estúdios em admitir publicamente o uso de IA. Jack Buser, responsável global pela área de games no Google Cloud, afirmou que cerca de 90% dos estúdios confirmaram o uso de IA em etapas de desenvolvimento quando questionados em particular, embora levantamentos tradicionais apontem uma adoção menor. Ele explica que a tecnologia é amplamente usada, mas pouco admitida, especialmente quando se trata de elementos que chegam ao produto final.
Um exemplo é a Capcom, que publicamente sustenta que “nenhum elemento gerado por IA entrará na versão final de seus jogos”. Contudo, internamente, ferramentas de IA são utilizadas nas fases iniciais de criação para gerar milhares de variações de ideias, que são filtradas e refinadas por artistas humanos. Isso permite que os profissionais se concentrem em aspectos centrais do jogo, como personagens principais e momentos-chave.
Desdobramentos e o Futuro da Composição Humana
Apesar do rápido avanço e da inevitabilidade da IA, conforme alguns executivos, a visão de David Wise ressoa com a crescente preocupação de que a tecnologia não deve suplantar a criatividade individual. Ele defende que a distinção e o estilo próprio são mais importantes do que nunca em um mercado saturado por criações genéricas.
Em um movimento para inspirar e guiar a próxima geração de talentos, Wise revelou que está preparando uma série de tutoriais “profundos” sobre composição musical para games. O material será técnico e focado em conceitos complexos, abordando desde escolhas instrumentais até a psicologia por trás das emoções transmitidas pelas trilhas sonoras. Esses tutoriais visam ser uma referência para novos compositores que desejam entender como criar músicas tão memoráveis quanto as de Donkey Kong Country, reforçando a crença de Wise na perpetuidade da arte humana na indústria.
O debate sobre a IA nos games continuará a evoluir, equilibrando a busca por eficiência e inovação com a preservação da expressão artística. A perspectiva de David Wise serve como um lembrete de que, mesmo com as ferramentas mais avançadas, o coração e a mente humana permanecem insubstituíveis na criação de experiências verdadeiramente cativantes.
