Atenção em Foco: Jogos Perdem Espaço para IAs e Vídeos Curtos

A indústria de videogames, que por décadas se apoiou na expectativa de crescimento contínuo com o amadurecimento de seu público, enfrenta um novo e complexo desafio: a perda na “guerra moderna pela atenção”. Análises recentes indicam que, embora o faturamento do setor ainda seja robusto, o tempo dedicado ativamente aos jogos como hábito cultural está em declínio em mercados-chave, sendo superado por um ecossistema de entretenimento fragmentado e instantâneo, como vídeos curtos e ferramentas de Inteligência Artificial (IA).
Fragmentação da Atenção e Novos Concorrentes
O cenário competitivo mudou drasticamente. Se antes os jogos disputavam o tempo livre primariamente com a televisão ou o cinema, hoje a concorrência é com um leque muito maior de plataformas otimizadas para o consumo imediato. Estrategistas apontam que a briga se deslocou da venda de um produto para a conquista de cada minuto disponível na rotina do consumidor.
Entre os novos competidores que absorvem o tempo dos usuários estão os vídeos curtos, que têm visto um aumento expressivo nas horas diárias consumidas, e os chats de IA, que rapidamente passaram de meras curiosidades a ferramentas de uso massivo. Além disso, serviços de assinatura de criadores e mercados de previsão (quase como apostas) também disputam a atenção.
Queda no Engajamento em Mercados Consolidados
Pesquisas focadas em oito dos maiores mercados globais – Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido, Alemanha, França, Canadá e Itália – que juntos respondem por mais de 60% dos gastos mundiais com jogos, revelam tendências preocupantes de retenção de jogadores.
- O isolamento provocado pela pandemia gerou um aumento temporário no número de jogadores, mas esse engajamento não se manteve, resultando em uma queda subsequente.
- Em países como o Canadá, houve uma perda relevante de jogadores adultos entre 2018 e 2022.
- A Coreia do Sul registrou uma queda significativa no número de pessoas que se consideram jogadores frequentes em comparação com o final da década de 2010.
- O Reino Unido viu seu crescimento pandêmico ser devolvido em grande parte posteriormente, e a Itália também demonstrou uma queda clara.
O analista Matthew Ball, da Epyllion, sugere que a camada da população nesses mercados que prioriza os games caiu entre 2,5% e 4% desde 2019. Embora França, Alemanha e Japão tenham demonstrado mais resistência, a estabilidade de jogadores não se traduziu em aumento de gastos nas plataformas de PC e console.
Em contraste, alguns dados pontuais indicam nichos de crescimento, como o aumento de 4% de jogadores autodeclarados na Alemanha e 11% no Japão desde 2019, impulsionado em parte pelo mercado de PCs.
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O Paradoxo do Consumo: Assistir vs. Jogar
Um fator crucial na perda de tempo dedicado diretamente ao gameplay é a mudança no consumo de conteúdo relacionado. Relatórios indicam que os jogadores agora gastam mais tempo assistindo a vídeos sobre jogos do que jogando ativamente.
Um estudo da MIDiA Research apontou que, em média, os gamers dedicavam 8,5 horas semanais assistindo a vídeos de jogos em plataformas como Twitch e YouTube, superando as 7,4 horas dedicadas ao ato de jogar.
Implicações para a Indústria
Essa fragmentação e a diminuição da base de jogadores frequentes impõem um problema estrutural para as empresas. Com um público menor, a pressão para atingir metas de receita recai sobre um número reduzido de consumidores.
Como consequência, o mercado tem reagido com:
- Monetização mais agressiva: Sistemas de retenção se tornam mais intensos.
- Multiplicação de Live Services: A dependência de serviços contínuos aumenta.
- Dificuldade de Absorção: O mercado encontra maior dificuldade em absorver novos títulos, já que a base de jogadores fiéis está menor ou mais dispersa.
A natureza dos concorrentes, otimizados para acesso instantâneo — notificações constantes e novidades imediatas consumidas em segundos —, contrasta com o tempo de dedicação exigido por muitos títulos de jogos.
Contexto de Mercado e Desempenho Financeiro
Apesar da queda no engajamento de tempo, os números de receita da indústria global de jogos eletrônicos em 2024 mostraram uma quase estagnação, com um crescimento tímido de apenas 0,2% em relação a 2023, atingindo US$ 184,3 bilhões.
A análise de desempenho por plataforma em 2024 revela divergências:
- Dispositivos Móveis: Lideraram com 50% da arrecadação (US$ 92,5 bilhões), registrando um aumento de 2,8%.
- Consoles: Representaram 27% (US$ 50,3 bilhões), mas sofreram uma queda de 4%.
- PC: Correspondeu a 23% (US$ 41,5 bilhões), com uma perda de 0,2%.
No mercado de hardware de consoles nos EUA, a situação foi mais crítica em 2024, com quedas significativas nas vendas de unidades para o Nintendo Switch (38%) e Xbox Series X/S (38%), enquanto o PS5 teve uma queda menor (18%) no meio de seu ciclo de vida.
O Papel da Socialização e o Futuro
É importante notar que, em certos segmentos, especialmente entre os mais jovens, os jogos continuam a ser uma plataforma social vital. Pesquisas indicam que, para jovens de 13 a 17 anos, os videogames são a primeira escolha de entretenimento, superando mídias sociais e TV, com muitos preferindo socializar nos ambientes virtuais a sair pessoalmente.
Entretanto, a tendência geral aponta para uma competição acirrada pela atenção, onde a otimização para consumo rápido e a integração com tecnologias emergentes como a IA ditam o ritmo. Para a indústria de games, a sobrevivência e o crescimento futuro dependerão da capacidade de reverter a queda no tempo dedicado ao jogo, seja através de experiências mais envolventes ou pela integração inteligente com o ecossistema de conteúdo que hoje compete por esse tempo.
