IA e Cognição: Zumbis e Ampliados Não São Opostos, Afirma GZH

Em uma análise aprofundada sobre o impacto da Inteligência Artificial (IA) na cognição humana, o colunista Rafael Parente, em artigo publicado em GZH em 23 de julho de 2026, argumenta que as categorias de “zumbis” e “ampliados” não representam espécies opostas. A conclusão faz parte de uma série de três textos que exploraram as nuances da interação entre humanos e IA, desmistificando a ideia de que a tecnologia levaria inevitavelmente a um único desfecho. Parente defende que o resultado dessa interação — seja a dependência passiva ou o aprimoramento das capacidades humanas — é determinado fundamentalmente pelo design e pelas decisões tomadas na integração da IA aos processos de aprendizado e trabalho.
A Trilogia da Inteligência Artificial e o Debate Cognitivo
O artigo “Zumbis e ampliados não são espécies opostas” encerra uma trilogia de Rafael Parente que buscou provocar a reflexão sobre o papel da IA em nossa sociedade. A série começou com a coluna “Estamos virando zumbis?”, publicada em 18 de julho de 2026, onde Parente apresentou evidências de que a utilização desassistida da IA pode levar à perda de pensamento crítico. Um dos exemplos citados foi o caso de um juiz federal em Montes Claros, Minas Gerais, que utilizou o ChatGPT para fundamentar uma sentença com precedentes inexistentes, sem a devida verificação. Este episódio ilustrou o risco de uma dependência acrítica da ferramenta, transformando usuários em “zumbis” cognitivos, aceitando respostas prontas sem esforço de compreensão ou checagem.
No segundo texto, intitulado “Zumbis não são destino”, veiculado em 21 de julho de 2026, o colunista inverteu a perspectiva, apresentando dados que demonstram o potencial da IA para *ampliar* as capacidades humanas. Parente mostrou que, quando a IA é empregada com um desenho pedagógico adequado e orientação humana, ela pode otimizar o aprendizado e liberar tempo para tarefas que exigem julgamento e interação complexa. Este artigo trouxe exemplos de como a IA pode ser uma aliada, e não uma substituta, do intelecto humano.
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A Nuance entre Dependência e Ampliação
A síntese da trilogia, apresentada no artigo final, reside na compreensão de que a contradição aparente entre os dois primeiros textos era intencional. O objetivo era demonstrar que a Inteligência Artificial, por si só, não é inerentemente boa ou má para a cognição. O que define seu impacto é a forma como é implementada e utilizada. Parente destaca que o “zumbi” (o indivíduo que se torna passivo e dependente da IA) e o “ampliado” (aquele que tem suas capacidades potencializadas pela IA) não são estados mutuamente exclusivos ou destinos pré-determinados pela tecnologia.
A chave para evitar a “zumbificação” e promover a “ampliação” está nas decisões tomadas antes mesmo da interação inicial com a ferramenta. O autor enfatiza que o design pedagógico ou operacional é crucial. Se a IA é configurada para entregar respostas prontas, ela pode inibir o esforço cognitivo e aprofundar a dependência. Por outro lado, se a IA é programada para oferecer pistas, guiar a reflexão e preparar o terreno para a intervenção humana, ela se torna uma poderosa ferramenta de desenvolvimento.
Evidências Práticas da Ampliação Cognitiva
Para ilustrar seu ponto, Rafael Parente cita um experimento conduzido em uma escola na Turquia, publicado na revista PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences dos Estados Unidos). Neste estudo, quase mil estudantes foram divididos em grupos: um estudou sem IA, outro com um tutor de IA que fornecia soluções diretas, e um terceiro com um tutor de IA que oferecia pistas, mas retinha a resposta final.
- Durante os exercícios, o grupo com o tutor que dava respostas diretas teve um aumento de desempenho de 48%.
- O grupo com o tutor que oferecia pistas teve um salto ainda maior, de 127% no desempenho.
- No entanto, ao retirar a ferramenta e aplicar uma prova final, a turma que recebia respostas prontas caiu 17% abaixo do grupo que nunca usou IA.
- Em contraste, a turma que recebeu apenas pistas manteve seu desempenho, demonstrando retenção do aprendizado.
Este experimento demonstra que a forma como a IA é projetada para interagir com o usuário é determinante. A ferramenta que estimula o raciocínio, em vez de substituir o esforço, é a que verdadeiramente contribui para a ampliação cognitiva e a retenção do conhecimento.
Outro exemplo de ampliação positiva da IA vem do Espírito Santo, onde 178 escolas públicas implementaram uma plataforma de IA para auxiliar na correção de redações. A ferramenta fornecia uma primeira devolutiva sobre ortografia, coesão e estrutura, liberando as professoras para focar em aspectos mais complexos, como a argumentação e a conclusão dos textos. O resultado foi um aumento de 30% na produção de redações pelos alunos e um terço a mais de discussões individuais com os professores. A nota de redação subiu o equivalente a 17 pontos no Enem, e a disparidade entre escolas públicas e particulares diminuiu em cerca de 9%, mostrando que a tecnologia pode ser mais benéfica justamente para quem tem menos recursos.
A Posição do Autor e os Desdobramentos Futuros
Rafael Parente, PhD em Educação pela NYU, diretor do Instituto Salto, consultor do Instituto Jama e pesquisador de pós-doutorado focado nas consequências éticas, práticas e pedagógicas da integração da inteligência artificial na educação, declara sua posição não neutra no debate. Sua expertise na área confere peso à sua análise, que transcende a mera observação para propor um caminho consciente na adoção da IA.
A mensagem central é que a Inteligência Artificial tem o potencial tanto de automatizar o pensamento crítico, criando “zumbis” que delegam a cognição à máquina, quanto de ser um catalisador para o “pensamento ampliado”, liberando o potencial humano para desafios mais complexos e criativos. A escolha de qual caminho seguir não está na tecnologia em si, mas na forma como a sociedade, educadores, desenvolvedores e formuladores de políticas decidem integrá-la ao cotidiano. O futuro da cognição humana na era da IA dependerá da capacidade de desenhar interações que valorizem e estimulem o esforço intelectual, em vez de suprimi-lo. Esta perspectiva é crucial para moldar o desenvolvimento de sistemas de IA que verdadeiramente sirvam à ampliação humana.
