Barroso: IA exige regulação, mas alerta para inibir pesquisa e desenvolvimento

Luís Roberto Barroso, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), enfatizou a imprescindível necessidade de regulamentação da Inteligência Artificial (IA), ao mesmo tempo em que alertou contra o risco de que tais regras inibam a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico no país. A declaração foi feita durante sua participação no evento South Summit Brazil, em março de 2026.
Barroso destacou que o impacto da IA na vida das pessoas e das empresas será maior do que o de todas as grandes invenções da história, citando a velocidade com que o ChatGPT atingiu 100 milhões de usuários em apenas dois meses, um marco que levou 75 anos para o telefone fixo e 16 anos para o celular.
O Desafio da Velocidade e a Necessidade de Princípios Gerais
O principal desafio apontado pelo ex-ministro é a velocidade vertiginosa da evolução da tecnologia, o que torna a criação de normas detalhadas extremamente complexa. Ele comparou a situação à necessidade de “regular com o trem em movimento” ou “consertar um avião no ar”.
Diante dessa dificuldade, Barroso defendeu que a abordagem regulatória deve se concentrar na criação de princípios gerais. Essas diretrizes devem focar em:
- Proteger os valores democráticos.
- Assegurar a transparência da tecnologia.
- Evitar a regulação excessiva que possa resultar em reserva de mercado para atores já estabelecidos.
O ex-ministro ressaltou que, apesar de todas as modernidades, os valores tradicionais como o bem, a justiça e a dignidade humana devem guiar a regulamentação.
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Riscos Estruturais Impulsionados pela IA
Barroso elencou quatro áreas principais onde o impacto da IA será direto e significativo, exigindo atenção regulatória:
1. Mercado de Trabalho
O impacto no emprego é um risco iminente. Barroso mencionou a possibilidade do desaparecimento de muitas funções, exemplificando que o desafio será “transformar os motoristas de Uber em programadores”, indicando a necessidade de adaptação profissional em massa.
2. Desinformação e Ataques à Democracia
A IA facilita a massificação de desinformação e fake news, representando uma ameaça direta aos princípios democráticos. A regulação deve buscar a inteligibilidade mínima das informações para as pessoas.
3. Uso Bélico
O uso da tecnologia para fins militares, especialmente no desenvolvimento de armas letais autônomas capazes de tomar decisões de ataque, gera imensos problemas éticos.
4. Singularidade e Transferência de Capacidades
O ex-ministro mencionou a possibilidade da singularidade, o ponto hipotético em que a IA superaria a inteligência humana. Mais imediatamente, ele destacou a “transferência de capacidades humanas a máquinas”, envolvendo a tomada de decisões.
Big Techs e Soberania Digital
Além da tecnologia em si, Barroso apontou a necessidade de revisar as regras que governam as grandes empresas de tecnologia (Big Techs). Ele observa que essas companhias atingiram um porte comparável ao PIB de grandes países, tornando-se monopólios em setores cruciais como buscas, redes sociais e marketplaces. Esse domínio crescente sobre o espaço público levanta uma questão de soberania digital para o Brasil.
Desdobramentos e o Papel do Congresso
Embora Barroso tenha defendido a regulação, ele reconheceu a complexidade do processo legislativo. O tema da regulamentação da IA já tramita no Congresso, com o Senado tendo aprovado um texto, que aguarda análise da Câmara dos Deputados. O ex-ministro, que anteriormente já havia defendido que a IA não substituirá o juiz, mas o modificará, reforça a urgência de se criar um arcabouço legal que proteja direitos fundamentais — como privacidade, liberdade cognitiva e igualdade, evitando a discriminação algorítmica — sem sufocar a inovação.
