Big Techs Ocultam US$ 3 Trilhões em Investimentos de IA

Um levantamento recente revelou que nove das maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos acumulam cerca de US$ 3 trilhões em compromissos financeiros “invisíveis”, grande parte destinada a projetos de Inteligência Artificial (IA). Essa cifra, que não aparece de imediato nos balanços patrimoniais tradicionais, levanta preocupações sobre a real alavancagem e a saúde financeira dessas gigantes tecnológicas, de acordo com uma análise do The Wall Street Journal, repercutida pelo NeoFeed e outras mídias.
Os investimentos ocultos superam em cinco vezes os gastos de capital (capex) tradicionais reportados por essas companhias em 2025, que somaram aproximadamente US$ 600 bilhões. O montante também é cerca de três vezes maior do que o total acumulado em contratos de arrendamento e empréstimos de longo prazo que são visíveis para o mercado.
A Natureza dos Investimentos “Invisíveis”
A “invisibilidade” desses US$ 3 trilhões se deve à forma como as normas contábeis permitem que as empresas registrem certas obrigações. Muitos desses compromissos são estruturados como acordos de longo prazo para a compra de chips, energia e a construção de infraestrutura massiva, como centros de dados, que só são contabilizados nos balanços quando os serviços são efetivamente entregues ou os arrendamentos se iniciam.
Entre as empresas analisadas pelo The Wall Street Journal, que incluem Alphabet, Amazon, Meta, Microsoft, Nvidia, Broadcom, SpaceX, Oracle e AMD, os valores reservados para contratos de arrendamento ainda não iniciados totalizaram US$ 1,2 trilhão. Esse volume representa um aumento de cerca de quatro vezes em relação ao ano anterior. Além disso, há US$ 1,9 trilhão em compromissos de compra de chips e energia.
Casos Emblemáticos de Investimentos Ocultos
Um exemplo notável é o projeto Hyperion da Meta, um gigantesco centro de dados na Louisiana avaliado em US$ 27 bilhões. Devido a arranjos financeiros complexos, este projeto não figura no balanço da empresa, embora a Meta tenha um compromisso inicial de aproximadamente US$ 12,3 bilhões em pagamentos de aluguel relacionados a ele. A empresa reportou um total de US$ 347 bilhões em obrigações totais referentes a arrendamentos ainda não vigentes em junho, incluindo o montante do Hyperion.
A Alphabet, controladora do Google, também possui uma linha significativa de compromissos fora do balanço. Essa linha alcançou US$ 811 bilhões entre abril e junho, um aumento considerável em comparação com os US$ 332 bilhões de três meses antes. A empresa afirmou que o montante se refere, principalmente, à “infraestrutura técnica e estoque”, além de “acordos para garantir energia em data centers”, com obrigações que se estendem até 2054.
A Nvidia, por sua vez, comprometeu-se a fazer aportes de US$ 27 bilhões em ações entre abril de 2026 e janeiro de 2027, quando se encerra seu ano fiscal. A Oracle, outra gigante tecnológica, viu sua “dívida oculta” atingir US$ 273,3 bilhões no final de maio, um aumento superior a 30 vezes nos últimos quatro anos, impulsionado por projetos como o Stargate, uma rede de data centers de alta capacidade em parceria com a OpenAI.
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Implicações para o Mercado e Investidores
A crescente escalada desses números é um sinal preocupante para o mercado financeiro. Analistas alertam que a complexidade e o volume desses compromissos fora do balanço dificultam a avaliação da alavancagem potencial total das empresas por parte dos investidores. Um relatório do Morgan Stanley, de abril, destacou que se torna cada vez mais difícil para os investidores avaliarem a real exposição dessas companhias.
A XP Investimentos, em relatório assinado por Raphael Figueiredo e Maria Irene Jordão, aponta que parte da deterioração dos indicadores de retorno das big techs é um efeito temporal. Os ativos ainda em construção pressionam esses indicadores, enquanto contratos futuros sinalizam demanda para parte da nova capacidade. A Microsoft, por exemplo, informou US$ 678 bilhões em receita programada para os próximos anos, e a Alphabet divulgou US$ 519 bilhões em compromissos futuros, o que, para a XP, indica potencial de demanda suficiente para cobrir os investimentos.
Essas empresas estão fazendo apostas massivas com base em suposições sobre a futura demanda por IA e a infraestrutura necessária para acompanhá-la. A esperança é que a receita futura gerada pelo boom da IA permita cumprir facilmente todos esses compromissos.
Desdobramentos e Perspectivas Futuras
A corrida pela IA tem levado a um aumento significativo nos gastos de capital das big techs. Quatro gigantes de tecnologia (Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft) projetam investimentos combinados de cerca de US$ 650 bilhões em 2026, um salto de 60% em relação ao ano anterior, direcionados à construção de data centers e infraestrutura. Cerca de 75% desse montante, aproximadamente US$ 450 bilhões, será destinado diretamente à infraestrutura física de IA, como edifícios, chips, cabos e sistemas de refrigeração.
Apesar dos gastos bilionários, os resultados nem sempre são lineares, e o ritmo das ações nem sempre reflete o otimismo dos executivos, indicando que nem todo crescimento tecnológico garante lucros consistentes no curto prazo. A Moody’s Ratings estima que a IA pode elevar a produtividade do trabalho em cerca de 1,5% ao ano ao longo de uma década, com ganhos mais expressivos em economias avançadas.
Apesar dos riscos, a aposta na IA é vista como crucial para o futuro. O chairman da OpenAI, Bret Taylor, alertou para o perigo do “turismo de IA”, onde empresas implementam iniciativas que criam a aparência de transformação sem entregar impacto operacional ou financeiro real. Ele enfatiza a necessidade de aplicar a IA a processos inteiros e não apenas a departamentos isolados.
A demanda por chips de alto desempenho, essenciais para a IA, tem impulsionado empresas como a Nvidia, que reportou um lucro líquido de US$ 14,8 bilhões no primeiro trimestre de 2024, um aumento de 628% em comparação com o ano anterior, demonstrando o impacto direto da tecnologia em seus balanços.
O cenário atual indica uma fase de desenvolvimento de infraestrutura de IA intensiva em capital, com 2026 sendo um ponto de inflexão onde os investimentos devem se traduzir em crescimento sustentável da receita e liderança de mercado entre as gigantes de tecnologia.
