BIS Alerta: IA Aumenta Risco de Divisão entre Emergentes e Ricos

Um novo estudo divulgado pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) aponta um risco significativo de que a ascensão da Inteligência Artificial (IA) amplie a disparidade econômica entre as nações emergentes e as economias avançadas no curto prazo. Segundo a avaliação do BIS, a capacidade de colher ganhos produtivos da IA varia consideravelmente entre os países, colocando os emergentes em uma posição potencialmente desfavorável se não houver preparo adequado.
Diferenças no Aproveitamento dos Ganhos de Produtividade da IA
O relatório do BIS, publicado em meados de fevereiro de 2026, indica que os efeitos da Inteligência Artificial sobre produtividade e crescimento econômico não serão uniformes globalmente. As economias avançadas, em geral, estão mais bem estruturadas para capturar os benefícios imediatos da tecnologia, enquanto os países emergentes enfrentam barreiras que podem limitar sua participação nos lucros iniciais.
A entidade ressalta que a preparação para a IA é um fator determinante para os ganhos gerais. Essa preparação engloba três pilares cruciais: infraestrutura digital, capacitação da força de trabalho (habilidades) e capacidade institucional. Onde essas áreas são fortes, os efeitos da IA na produtividade são amplificados; onde persistem lacunas, o potencial de ganho é restringido, o que é particularmente notado em muitas economias emergentes.
Impacto Imediato e Heterogeneidade
Evidências iniciais analisadas pelo BIS sugerem que a IA generativa possui o potencial de elevar a produtividade em tarefas específicas em uma faixa que varia de 10% a 65%. Setores como programação, consultoria e redação profissional são citados como áreas com avanços relevantes.
Contudo, o estudo alerta que a tradução desses ganhos específicos para a produtividade total agregada no nível macroeconômico permanece incerta. As estimativas para o impacto macroeconômico variam drasticamente, com algumas projeções indicando um modesto aumento anual de produtividade de apenas 0,07%, enquanto outras sugerem ganhos anuais entre 0,3 e 0,9 ponto percentual.
O efeito líquido final dependerá de variáveis complexas, como a velocidade de adoção da tecnologia, o grau de má alocação de capital e trabalho, e a realocação de recursos entre os diferentes setores da economia.
Veja também:
Estrutura Produtiva e Concentração de Investimentos
Uma das razões centrais para a disparidade prevista reside nas diferenças estruturais entre os dois grupos de economias. O relatório do BIS aponta que o investimento em IA está altamente concentrado nas economias avançadas.
Para as economias emergentes, a estrutura produtiva atual pode atuar como um limitador para a absorção total dos benefícios da IA. O fechamento das lacunas de preparação é visto como fundamental para apoiar a convergência de longo prazo entre os países. Ao fortalecerem sua infraestrutura, capital humano e instituições, os países emergentes poderão aproveitar a IA de maneira mais eficaz, mitigar riscos no mercado de trabalho através de requalificação e, consequentemente, reduzir as diferenças de crescimento em relação aos países mais desenvolvidos.
Contexto Mais Amplo: Desigualdade Global e IA
O alerta do BIS se soma a outras preocupações levantadas por organismos internacionais. Anteriormente, relatórios, como o do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), já haviam sinalizado o risco de uma “grande divergência” econômica, alertando que a adoção desigual da IA pode corroer ganhos históricos em renda, saúde e educação alcançados nas últimas décadas por meio do comércio e da tecnologia.
O PNUD enfatizou que, se os países mais pobres ficarem para trás, até mesmo as nações mais ricas podem sofrer com os efeitos colaterais, citando preocupações com a agenda de segurança global e o aumento da migração irregular.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) também notou que, embora a IA contribua para a economia global, ela traz consigo um risco de divergência entre nações ricas e pobres devido ao aumento do investimento na tecnologia.
Implicações para Políticas Públicas
O estudo do BIS sugere a urgência de ações políticas focadas em mitigar essa potencial ampliação da desigualdade. A chave para os países emergentes é investir ativamente nas áreas que determinam a preparação para a IA.
Embora o foco do BIS tenha sido em relatórios de estabilidade financeira e governança de IA para bancos centrais, este novo achado enfatiza a necessidade de uma abordagem mais ampla. Para colher os frutos da revolução da IA, os governos dos mercados emergentes precisam priorizar:
- Infraestrutura Digital: Investimento robusto em conectividade e capacidade de processamento.
- Capital Humano: Implementação de políticas nacionais de treinamento e requalificação para aumentar a fluência em IA da força de trabalho.
- Governança e Dados: Modernização dos sistemas de dados nacionais para garantir conjuntos de dados de alta qualidade, diversificados e acessíveis para o treinamento de modelos relevantes localmente.
A cooperação global, como sugerido por outras análises, será essencial para garantir que a IA se comporte mais como um bem público compartilhado do que como uma vantagem concentrada, evitando assim uma nova era de aprofundamento das divisões globais.
