Brasil em Risco: Folha Alerta para Atraso na Corrida Global da IA

O Brasil corre o sério risco de ficar para trás na vertiginosa corrida global pela inteligência artificial (IA), conforme alerta a Folha de S.Paulo em recentes análises. A preocupação central reside na combinação de gargalos educacionais e de infraestrutura, que podem comprometer a capacidade do país de transformar a tecnologia em produtividade e inovação.
A inteligência artificial avança em ritmo acelerado, prometendo revolucionar mercados, governos e a economia global. No entanto, o Brasil enfrenta desafios estruturais que, se não superados, podem aprofundar um atraso já percebido por especialistas e pelo próprio mercado.
Os Gargalos Apontados pela Folha e Especialistas
As análises da Folha de S.Paulo destacam que o país convive há décadas com um sistema educacional que se mostra incapaz de formar profissionais qualificados em áreas essenciais como ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM). Essa deficiência resulta em uma escassez de talentos especializados em IA, um problema que é agravado pela “fuga de cérebros”, com profissionais qualificados buscando oportunidades mais atrativas no exterior.
Além da questão educacional, a infraestrutura brasileira apresenta fragilidades significativas. O país não oferece energia competitiva nem uma base adequada para atrair grandes investimentos em centros de processamento de dados (data centers), que são cruciais para o desenvolvimento e a operação de sistemas de IA. Atrasos na construção de data centers são reportados, impulsionados por entraves burocráticos, escassez de mão de obra e equipamentos, além de tarifas elevadas e distorções regulatórias que encarecem a eletricidade.
Mat Velloso, engenheiro brasileiro com passagens por cargos estratégicos de IA em gigantes como Microsoft, Google e Meta, expressou uma visão contundente em entrevista à Folha. Ele afirmou que o Brasil está “perdido” na corrida pela nova economia e corre o risco de “voltar para 1500” se não acelerar o ritmo. Para Velloso, o investimento em geração de eletricidade é um ponto central para atrair processamento de dados, treinamento de pessoal e dados, que ele compara ao “novo petróleo”.
Veja também:
Cenário de Investimento e Adoção no Brasil
Apesar dos desafios, o Brasil se destaca como o maior mercado de tecnologia da informação na América Latina, com investimentos totais em TI de US$ 67,8 bilhões em 2025, ocupando a décima posição mundial. O país também lidera os gastos com inteligência artificial na região, com uma estimativa de US$ 4,2 bilhões em 2026, representando 41,7% do mercado latino-americano.
Há uma rápida disseminação da IA entre empresas brasileiras, com uma visão majoritariamente positiva sobre os impactos na produtividade. Uma pesquisa recente da Loggi, em parceria com a Opinion Box, revelou que 55% dos empreendedores brasileiros pretendem investir em IA nos próximos 12 meses, expandindo o uso da tecnologia para além do marketing, alcançando gestão, vendas e análise de dados.
Contudo, um estudo realizado por brasileiros em Stanford aponta que, embora a fluência individual no uso de IA no Brasil se equipare aos EUA, há um “grande gap” na aplicação corporativa. Apenas 7% das empresas utilizam a tecnologia de forma abrangente, indicando que a barreira não é técnica, mas sim de desenho corporativo, com falta de liderança clara para a agenda de IA nas empresas.
Desafios Regulatórios e Éticos
O cenário regulatório para a IA no Brasil ainda está em desenvolvimento, o que gera incertezas para as empresas e para a sociedade. O Projeto de Lei 2338/2023, conhecido como o Marco Legal da Inteligência Artificial, tramita na Câmara dos Deputados após aprovação no Senado. Ele propõe uma estrutura regulatória inédita, baseada em transparência, avaliação de impactos (gestão de riscos) e responsabilidade sobre decisões automatizadas.
Apesar dos esforços, o arcabouço normativo caminha a passos lentos em comparação com a velocidade de transformação da IA generativa. Especialistas alertam para a necessidade de um equilíbrio entre garantir segurança jurídica e não frear a inovação. A exigência de transparência algorítmica, ou explicabilidade, é vista como crucial para construir confiança e escalabilidade no sistema.
Iniciativas Governamentais e Perspectivas
O governo brasileiro tem demonstrado movimentação para endereçar os desafios. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), lançado com um orçamento estimado em R$ 23 bilhões até 2028, visa estruturar o uso responsável da tecnologia no setor público. O plano se divide em cinco eixos: infraestrutura e desenvolvimento; formação e capacitação; IA para serviços públicos; inovação empresarial; e regulação e governança.
Recentemente, o Ministério da Gestão instituiu uma política de governança para o uso de IA na administração pública federal (Portaria nº 3.485/2026). A medida estabelece princípios e regras para o desenvolvimento, aquisição e uso de sistemas de IA, focando em conformidade legal, proteção de direitos fundamentais e transparência. Conteúdos produzidos com IA deverão ser identificados, e o uso de IA generativa será restrito a informações públicas, proibindo o compartilhamento de dados sigilosos ou pessoais sem autorização.
O PBIA prevê a criação de um Núcleo de IA do Governo para estruturar projetos e experimentar soluções com IA em políticas e serviços públicos. Além disso, há um objetivo de capacitar 115 mil servidores em IA até o final de 2026.
O setor financeiro brasileiro, com seu alto grau de digitalização e regulação robusta, é apontado como um ambiente com vantagem competitiva para lidar com os riscos e oportunidades da IA.
Desdobramentos e o Caminho à Frente
A preocupação da Folha de S.Paulo e de especialistas ressalta a urgência de ações coordenadas. Para não ficar para trás, o Brasil precisa investir massivamente em educação de qualidade em STEM, promover políticas de atração e retenção de talentos, e criar um ambiente de negócios mais favorável para a infraestrutura de IA, incluindo energia e data centers.
A regulamentação da IA, atualmente em discussão no Congresso, precisa avançar de forma a oferecer segurança jurídica sem inibir a inovação, garantindo que o país possa colher os benefícios da IA de forma ética e responsável. A colaboração entre governo, academia e setor privado será fundamental para transformar o potencial do Brasil em liderança efetiva na era da inteligência artificial.
