China: Acelerar IA com Regras Rígidas para Dominar Tecnologia

A China está determinada a alcançar a liderança global em Inteligência Artificial (IA), mas sua estratégia é marcada por uma tensão fundamental: a necessidade de avanço tecnológico rápido para impulsionar o crescimento econômico e, simultaneamente, a imposição de um controle estatal rigoroso para garantir que a tecnologia não desestabilize a sociedade nem o domínio do Partido Comunista Chinês (PCC).
A visão do líder chinês, Xi Jinping, classificou a IA como uma revolução tecnológica de importância histórica, comparável à máquina a vapor, à eletricidade e à internet. No entanto, ele advertiu que essa nova tecnologia não pode ser autorizada a “sair do controle”, exigindo uma ação precoce e prudente para antecipar e prevenir problemas. Essa dualidade entre inovação agressiva e controle estrito define o cenário para as empresas de tecnologia chinesas no setor de IA.
A Tensão Estratégica: Inovação versus Controle
O governo chinês reconhece o potencial transformador da IA para a próxima década de crescimento econômico do país. Para isso, as empresas locais estão sendo pressionadas a competir ferozmente no cenário internacional, visando a vanguarda tecnológica. Contudo, essa corrida é supervisionada por um conjunto de regulamentações cada vez mais complexas.
Um exemplo claro dessa pressão regulatória é visto nos documentos de empresas como a Zhipu AI, uma das startups de IA mais promissoras da China. Ao buscar capital, a empresa alertou investidores sobre o peso substancial de cumprir meia dúzia ou mais de regulamentações relacionadas à IA. Entre as exigências específicas, os provedores de IA generativa são obrigados a atuar como guardiões, impedindo a disseminação de informações que contrariem os interesses do governo.
Regulamentação Focada em Valores e Segurança
A legislação chinesa para IA generativa, embora tenha sofrido abrandamentos em relação a propostas iniciais mais rígidas, mantém um foco central na conformidade ideológica e na segurança nacional. As regras exigem que o conteúdo gerado por IA reflita os “valores centrais do socialismo” e proíbe explicitamente a criação de conteúdo que incite separatismo, terrorismo, violência ou discurso de ódio étnico.
As regulamentações iniciais, que previam multas elevadas, foram flexibilizadas em certas áreas para não sufocar o desenvolvimento da indústria nascente. As restrições mais severas agora se aplicam predominantemente a programas disponíveis ao público em geral, com isenção para uso em pesquisa ou tecnologias destinadas a usuários no exterior. Essa mudança sugere um apoio governamental à competitividade da corrida pela IA, desde que sob supervisão.
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Obrigações das Plataformas de IA
As empresas que desenvolvem e oferecem serviços de IA generativa na China enfrentam obrigações detalhadas, que vão além da simples conformidade técnica. Elas são responsáveis pela integridade do conteúdo que seus algoritmos produzem.
- Análises de Segurança e Registro: Provedores de serviços de IA generativa devem conduzir análises de segurança e registrar seus algoritmos junto aos órgãos reguladores, especialmente se os serviços puderem influenciar a opinião pública.
- Transparência do Conteúdo: É obrigatório informar claramente aos usuários que um determinado conteúdo foi gerado por inteligência artificial.
- Prevenção de Discriminação: Os algoritmos devem ser desenhados para impedir a discriminação baseada em gênero, idade ou raça.
- Propriedade Intelectual e Dados: As empresas devem garantir que a busca de informações não infrinja a propriedade intelectual de terceiros e que o uso de dados pessoais exija permissão explícita dos indivíduos.
O governo chinês também tem se posicionado ativamente em fóruns internacionais, propondo a criação de um órgão global para regular a IA, com foco em ética e inclusão, o que é visto por especialistas como uma manobra para fortalecer a liderança da China na definição de padrões tecnológicos globais, em contraponto a iniciativas como a Lei Europeia de IA.
Integração Econômica e Prevenção de Competição Desordenada
O plano nacional chinês para a IA, denominado “IA+”, visa acelerar a integração dessa tecnologia em setores cruciais da economia. Isso inclui áreas de ponta como metaverso, aviação de baixa altitude, manufatura aditiva e interfaces cérebro-computador. A expectativa é que o plano impulsione a inovação de produtos, fomente novos modelos de negócios e estimule a demanda do consumidor, melhorando a qualidade de vida em serviços como entretenimento, e-commerce e cuidados com idosos.
No entanto, a agência de planejamento econômico do país, a NDRC, enfatiza a necessidade de fortalecer a coordenação entre os atores envolvidos para “evitar resolutamente a competição desordenada e o comportamento de seguir a manada”. Essa diretriz visa garantir que o desenvolvimento seja estratégico e alinhado aos objetivos nacionais, evitando o desperdício de recursos em duplicações ou em tecnologias que não se alinhem com as prioridades do Estado.
Em resumo, a estratégia chinesa para dominar a IA é um equilíbrio delicado: um motor potente de inovação é liberado, mas sempre sob a vigilância estrita do Partido para garantir que a tecnologia sirva aos seus objetivos de desenvolvimento econômico e, acima de tudo, à manutenção do controle político e social.
