Cultura Trava IA: 70% dos Gargalos de Implementação no Brasil

Apesar do avanço acelerado da Inteligência Artificial (IA) no cenário global, a adoção plena e a geração de valor em escala nas empresas brasileiras estão sendo significativamente freadas por fatores internos, com a cultura organizacional emergindo como o principal obstáculo. Uma pesquisa recente, divulgada pelo Valor Econômico e conduzida pela Newnew, apontou que 70% das dificuldades enfrentadas pelas lideranças na implementação de IA estão relacionadas a aspectos humanos e estruturais, superando os desafios puramente tecnológicos.
O estudo “Panorama de sentimento das lideranças 2026”, que ouviu 339 executivos em posições de decisão no Brasil, indica que, embora a taxa de utilização de alguma aplicação de IA já alcance 80% das companhias, a efetiva integração e governança da tecnologia ainda engatinham. A análise revela um paradoxo: a tecnologia está sendo usada, mas a capacidade da organização de absorvê-la para gerar resultados tangíveis está comprometida pela inércia cultural e pela falta de preparo estratégico.
O Desequilíbrio entre Adoção Tecnológica e Gestão Humana
Os resultados da pesquisa demonstram uma clara disparidade entre a experimentação com ferramentas de IA e a maturidade gerencial necessária para escalar essas inovações. Enquanto a adoção de IA é alta, a maturidade em governança é baixa, com 53% das empresas classificando seu estágio de governança como “inexistente ou embrionário”.
Mariana Achutti, CEO da Newnew, comentou que a discussão sobre IA migrou do campo da simples adoção para o campo da gestão. O desafio atual não é mais decidir se a IA será utilizada, mas sim como estruturar a governança, definir métricas claras e desenvolver as habilidades humanas para que a tecnologia amplifique o valor do negócio, em vez de expor fragilidades operacionais existentes.
Os Três Pilares da Barreira Cultural
A pesquisa detalha que os 70% de gargalos não-tecnológicos se concentram em três áreas principais, evidenciando que o bloqueio é essencialmente organizacional:
- Cultura Organizacional: Resistência à mudança, medo da substituição de empregos e a falta de uma cultura que incentive a experimentação e o aprendizado contínuo.
- Habilidades Críticas das Equipes: Escassez de profissionais que dominem não apenas as ferramentas técnicas (como programação), mas também as competências comportamentais necessárias para colaborar com sistemas inteligentes.
- Falta de Estratégia Clara: Ausência de um direcionamento claro por parte das lideranças sobre como a IA se encaixa na visão de longo prazo da empresa e como medir seu retorno sobre o investimento (ROI).
Em contraste, apenas 30% das dificuldades estão ligadas a aspectos técnicos, como qualidade de dados, infraestrutura ou governança de dados, o que reforça a tese de que a tecnologia, hoje, é o fator menos limitante.
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A Necessidade de Redesenho Cultural
Especialistas na área ecoam a importância da transformação cultural. Um ponto fundamental levantado é que a IA, quando percebida apenas como uma substituta de postos de trabalho, inevitavelmente gera medo e resistência passiva ou ativa por parte dos colaboradores. A superação desse impasse exige que as empresas assumam a coragem de redesenhar sua cultura, trocando o medo por um propósito claro e focando em transformar a força de trabalho em algo “super-humano”, potencializado pela tecnologia.
A adoção de IA em larga escala exige um alinhamento interdisciplinar, que vá além do departamento de Tecnologia da Informação (TI). Áreas como Marketing, Operações e Atendimento ao Cliente precisam se apropriar das ferramentas, o que só é possível se a cultura corporativa for aberta à colaboração e à adaptação de fluxos de trabalho.
Outro fator crítico apontado é a pouca clareza estratégica, que se reflete na dificuldade das empresas em definir metas comerciais mensuráveis para suas iniciativas de IA. Muitas organizações investem em projetos-piloto, mas a taxa de conversão desses pilotos para implantações em nível de produção permanece baixa, muitas vezes abaixo de 50%, justamente pela ausência de diretrizes claras sobre como a IA deve operar e gerar valor real.
Contexto e Desdobramentos
A pesquisa foi realizada com executivos majoritariamente de empresas de serviços (44%) e tecnologia (30%), com foco em departamentos de operações, inovação e recursos humanos. Os dados foram coletados entre outubro e novembro de 2025, refletindo o momento atual pós-explosão da IA Generativa.
Um dado adicional preocupante para as lideranças é que, embora a implementação de IA seja um desafio, outros fatores pressionam o trabalho executivo de forma mais imediata. A saúde mental foi citada como o principal fator de pressão (41%), seguida pela produtividade que não acompanha as demandas (31%) e o “gap” de talentos (28%). A dificuldade em implementar novas tecnologias, como a IA, aparece em um patamar ligeiramente inferior, com 22% das menções.
Para que o Brasil consiga extrair o valor prometido pelos trilhões de dólares em investimento projetados para o setor de IA nos próximos anos, a conclusão é que o foco precisa mudar da aquisição de software para a transformação organizacional. A lição central para as empresas brasileiras é que a tecnologia exponencial requer uma gestão exponencial, começando pela base cultural e pela liderança estratégica.
