Drones e IA revolucionam abate de gado em confinamentos no Brasil

Pesquisadores brasileiros desenvolveram um sistema inovador que utiliza drones e inteligência artificial (IA) para monitorar bovinos em confinamento e identificar o momento ideal de abate. A tecnologia, que promete otimizar a produção, reduzir custos e melhorar o bem-estar animal, é fruto do projeto Semear Digital, uma colaboração entre a Embrapa Agricultura Digital, a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).
O estudo, cujos resultados foram publicados na renomada revista científica Computers and Electronics in Agriculture, representa um avanço significativo para a pecuária de precisão no país.
Como a Tecnologia de Drones e IA Funciona
O sistema opera com drones que realizam voos regulares a uma altitude de aproximadamente 15 metros sobre os currais de confinamento. Durante esses voos, os drones capturam imagens de alta resolução dos animais.
Essas imagens são então processadas por modelos avançados de inteligência artificial, que utilizam técnicas de deep learning. A IA é capaz de identificar individualmente os bovinos, recortar e segmentar automaticamente seus corpos, e extrair medidas corporais precisas, como comprimento e largura.
Com base nesses dados métricos, algoritmos modelam o ganho de peso de cada animal ao longo do ciclo produtivo, considerando variações não lineares. Esse monitoramento contínuo e não invasivo permite acompanhar o crescimento do lote de forma detalhada.
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Identificação do Ponto Ideal de Abate: O “Ponto de Inflexão”
Um dos principais resultados da pesquisa é a capacidade de identificar o chamado “ponto de inflexão” no ganho de peso dos animais. Este ponto representa o momento em que o bovino atinge sua máxima taxa de conversão alimentar, ou seja, quando o ganho de peso em relação ao alimento consumido é mais eficiente.
A partir desse ponto, o crescimento do animal começa a desacelerar, e a eficiência da conversão alimentar diminui. Continuar alimentando o gado após o ponto de inflexão torna-se economicamente menos vantajoso, pois o custo da alimentação supera o benefício do ganho de peso adicional.
A precisão na identificação desse momento permite aos pecuaristas tomar decisões mais assertivas sobre quando vender ou abater os animais, maximizando a rentabilidade do confinamento.
Benefícios para a Pecuária Brasileira
Redução de Estresse e Melhor Bem-Estar Animal
Os métodos tradicionais de pesagem de bovinos exigem manejo intensivo, que pode causar estresse significativo aos animais. Esse estresse não só afeta negativamente o bem-estar do gado, mas também pode impactar seu ganho de peso e a qualidade da carne. O sistema de drones e IA elimina a necessidade de pesagens frequentes e invasivas, contribuindo para um ambiente mais calmo e produtivo no confinamento.
Otimização de Custos e Aumento da Eficiência
A identificação precisa do ponto ideal de abate permite aos produtores reduzir significativamente os custos com alimentação, que representam uma parcela considerável das despesas em confinamentos. Ao abater o animal no momento economicamente mais oportuno, evita-se o prolongamento desnecessário do ciclo de engorda.
Em grandes lotes, a diferença de apenas um dia no manejo pode gerar impactos financeiros consideráveis. A tecnologia também minimiza avarias em equipamentos de pesagem e a necessidade de mão de obra para o manejo físico dos animais.
Contribuição para a Pecuária de Precisão
Este sistema é um pilar fundamental para o avanço da pecuária de precisão no Brasil, permitindo uma gestão mais proativa e baseada em dados confiáveis. A capacidade de monitorar o crescimento de forma contínua e precisa é um avanço crucial para a gestão da pecuária intensiva.
Outras Aplicações e Desdobramentos Futuros
A mesma base de dados coletada pelos drones e analisada pela IA já está sendo utilizada para desenvolver outros modelos. Pesquisadores exploram a identificação de padrões de comportamento alimentar dos animais e a detecção de anomalias, como sodomia bovina ou montas entre animais, que podem indicar estresse ou manejo inadequado no confinamento.
O projeto foi testado com sucesso em um confinamento no Mato Grosso do Sul, onde um lote de bovinos foi acompanhado por 112 dias.
Os pesquisadores pretendem adaptar o modelo para outras raças bovinas, como Angus e Brahman, e expandir a validação para uso direto em escala comercial. Embora o sistema esteja próximo de um protótipo funcional, a equipe busca parceiros para transformar a solução em um produto comercial acessível aos pecuaristas.
A expectativa é que a ampla adoção dessa tecnologia possa não apenas aumentar a rentabilidade dos produtores, mas também contribuir para a redução do preço da carne para o consumidor final, ao otimizar toda a cadeia produtiva.
