Fotomontagens e Falsificações: A História das Imagens Antes da IA

A preocupação contemporânea com a desinformação gerada por Inteligência Artificial (IA) e deepfakes ignora um fato histórico fundamental: a manipulação de imagens fotográficas é uma prática que remonta ao surgimento da própria fotografia, há cerca de 187 anos. Essa constatação é o cerne de uma exposição recente no Rijksmuseum, em Amsterdã, que destaca como, muito antes do Photoshop ou das ferramentas generativas, imagens eram alteradas, modificadas e falsificadas com diversos propósitos, desde o entretenimento até a propaganda política.
A Longevidade da Imagem Manipulada
O curador da exposição, Hans Rooseboom, afirmou que assim que a fotografia foi inventada, as imagens começaram a ser alteradas. Essa prática não era incomum, ocorrendo com motivações que variavam entre o mal-intencionado, o político e, majoritariamente, o entretenimento.
A exposição, intitulada Fake! Early Photo Collages and Photomontages, reúne cerca de 50 a 52 imagens históricas datadas do período entre 1860 e 1940, retiradas da coleção do museu. O material foi originalmente publicado em diversos formatos populares na época, como cartões-postais, capas de revistas e cartazes.
Técnicas Primitivas Versus a Era Digital
As técnicas empregadas eram rudimentares se comparadas aos padrões atuais, mas eficazes para criar ilusões visuais. Entre os métodos utilizados estavam:
- Fotografia de Múltipla Exposição: Uma técnica criativa que permitia sobrepor a imagem da mesma pessoa duas vezes em uma foto, expondo diferentes áreas da placa fotográfica em etapas distintas.
- Colagem e Montagem: Envolvia combinar partes de diferentes negativos ou, em um “truque amador”, recortar, colar e fotografar o resultado novamente. Um exemplo citado é a montagem de um homem empurrando um carrinho de mão com uma cabeça desproporcionalmente grande, datada de 1900-1910.
- Retoque Manual: Correções eram feitas à mão para resolver limitações técnicas, como a dificuldade em obter exposição correta tanto do primeiro plano quanto das nuvens, como no trabalho do fotógrafo francês Gustave Le Gray no século XIX, que combinava negativos distintos para criar uma cena perfeita.
O curador destacou que, embora hoje estejamos acostumados com o Photoshop e as ferramentas de IA, as pessoas sempre tiveram a tendência de explorar as possibilidades da fotografia, seja na câmera, na sala escura ou usando “tesoura e cola de um jeito não digital”.
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O Uso Político e a Propaganda
Embora a maioria das falsificações em exposição tenha fins de entretenimento — cerca de três quartos —, o uso político da manipulação fotográfica foi historicamente significativo e serviu para moldar a imagem de líderes mundiais.
A manipulação serviu para exaltar aliados ou desacreditar inimigos, sendo uma prática comum em diversos regimes, tanto de esquerda quanto de direita.
- Regimes Totalitários: A União Soviética, sob Stalin, utilizava recortes para estrategicamente compor imagens de soldados, apagando indivíduos que caíam em desgraça e reescrevendo a história conforme a política vigente.
- Propaganda Nazista: Uma das peças em destaque na mostra é uma fotomontagem de 1934, criada pelo artista alemão John Heartfield (pseudônimo de Helmut Herzfeld), que se opunha ferozmente a Hitler. Nesta imagem, Joseph Goebbels aparece como barbeiro de Hitler, transformando-o em Karl Marx para tentar atrair o eleitorado trabalhador.
- Exaltação de Heróis: Nos Estados Unidos, fotografias foram editadas para engrandecer feitos e heróis nacionais. Um exemplo é um retrato do General Ulysses S. Grant, que na verdade é uma composição de três fotografias diferentes, onde ele não estava presente na locação final. Outro caso histórico envolve a cabeça do Presidente Abraham Lincoln sendo colocada no corpo de John C. Calhoun em um retrato.
Entretenimento e Mitologia
Um grande mercado para as imagens falsas no início do século XX era o de cartões-postais, criados por comunidades rurais, por exemplo, para atrair novos habitantes e estimular a prosperidade local, reforçando mitos utópicos sobre a região.
Um exemplo proeminente é um cartão-postal americano de 1908, criado pelo fotógrafo W.H. Martin, que exibia uma espiga de milho com o tamanho de uma carroça, sendo puxada por animais. Outras imagens visavam o surrealismo ou o entretenimento puro, como a que mostrava dois patos maiores que pessoas, de 1908.
Embora haja pouca documentação sobre a reação do público da época, o curador aponta que a exposição ao volume de imagens era muito menor. “Hoje, a cada dia vemos mais imagens ou fotografias do que uma pessoa do século 19 veria em toda a sua vida”, pontuou Rooseboom, colocando a saturação atual em perspectiva com a desconfiança histórica.
Desdobramentos: Do Analógico ao Algorítmico
A lição central da história da manipulação fotográfica, conforme sugerido pela mostra, é que a desconfiança em relação à veracidade de uma imagem não é um fenômeno novo, mas sim inerente à tecnologia fotográfica desde seu início.
Atualmente, o debate sobre falsificações, impulsionado pela IA, deve focar não apenas na capacidade técnica de falsificar — que evoluiu drasticamente —, mas também nas influências das plataformas digitais e nas motivações por trás da criação e disseminação. Historicamente, a manipulação serviu a sátiras, propaganda e entretenimento. Na era digital, artistas contemporâneos continuam a usar a edição, inclusive com IA, frequentemente para produzir declarações críticas ou sátiras, embora estas possam ser retiradas de contexto e usadas por quem está sendo criticado.
O legado da manipulação analógica reforça a necessidade de um olhar crítico contínuo, independentemente da ferramenta utilizada, pois a fotografia, desde sua gênese, sempre foi um registro construído da realidade, e não um fato absoluto.
