IA Brasileira Detecta Depressão em Voz com 91% de Acerto

Pesquisadores brasileiros desenvolveram uma ferramenta de inteligência artificial (IA) capaz de identificar sinais de depressão analisando apenas as características acústicas da voz humana, alcançando uma acurácia impressionante de até 91% em mulheres. O avanço, liderado por cientistas da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP), promete revolucionar o rastreamento e o monitoramento da saúde mental no país, oferecendo um método de triagem de baixo custo e fácil acesso, inclusive via aplicativos de mensagens como o WhatsApp.
Detalhes do Estudo e Metodologia Inovadora
O estudo inovador, que teve seus resultados publicados na renomada revista científica PLOS Mental Health, focou estritamente em como as pessoas falam, e não no conteúdo do que é dito. Os modelos de aprendizado de máquina foram treinados para reconhecer padrões vocais sutis, que muitas vezes escapam à percepção humana, mas que estão associados a quadros depressivos.
A metodologia utilizada foi notavelmente prática e acessível. Os pesquisadores utilizaram áudios curtos de voz enviados por meio do WhatsApp, nos quais os participantes eram solicitados a realizar tarefas simples do cotidiano, como relatar as atividades da semana anterior ou contar de um a dez. Essa abordagem visa simular um ambiente de coleta de dados de baixo esforço, crucial para a implementação em larga escala.
Padrões Acústicos Analisados
As ferramentas de IA foram programadas para analisar diversos aspectos acústicos da fala, incluindo:
- Ritmo: A tendência da fala em indivíduos com depressão é ser mais lenta.
- Entonação: A voz pode se tornar mais monótona ou com menos variação melódica.
- Intensidade e Energia: Variações no volume e na força da projeção vocal.
- Variações Espectrais: Mudanças na frequência e distribuição de energia sonora da voz.
O estudo envolveu um total de 160 participantes brasileiros, divididos entre indivíduos com diagnóstico clínico de Transtorno Depressivo Maior e um grupo de controle sem o transtorno. Sete modelos diferentes de IA foram treinados com essas gravações reais.
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Resultados e Diferença de Gênero
Os resultados demonstraram uma eficácia significativa, embora com uma disparidade notável entre os gêneros. Nos testes realizados com tarefas mais naturalistas, como a descrição semanal, os modelos de IA alcançaram uma acurácia superior a 91% na identificação de traços depressivos em mulheres. Já entre os participantes do sexo masculino, o índice de acerto foi de aproximadamente 75%.
Os próprios autores do estudo, encabeçados pelo psiquiatra Ricardo Uchida, professor da FCMSCSP, apontam hipóteses para essa diferença de desempenho. Entre elas, destacam-se o número menor de participantes homens na amostra e o fato biológico de que as mulheres têm uma prevalência maior de diagnóstico de depressão ao longo da vida, o que pode ter influenciado o treinamento dos modelos.
Apesar da diferença, os índices alcançados são considerados comparáveis aos de instrumentos de triagem amplamente utilizados na prática clínica atual, reforçando o potencial da tecnologia como um aliado poderoso na área da saúde mental.
Contexto da Saúde Mental no Brasil
O desenvolvimento dessa tecnologia surge em um momento de crescente demanda por soluções de saúde mental no Brasil. Dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) indicam um aumento de 33% nos diagnósticos de depressão no país entre 2020 e 2024, com a prevalência subindo de 10,9% para 14,5% no período, afetando mais as mulheres.
Neste cenário, a IA brasileira se posiciona como uma ferramenta essencial para a democratização do rastreamento. Ela pode ser fundamental para identificar precocemente indivíduos em risco, especialmente em regiões com escassez de especialistas, facilitando o encaminhamento rápido para o acompanhamento médico adequado.
Implicações e Próximos Passos
É fundamental ressaltar que os pesquisadores enfatizam que a ferramenta de IA não substitui o diagnóstico médico formal. Seu papel é atuar como um marcador digital acessível, de baixo custo e que exige pouco esforço do usuário, visando apoiar estratégias de triagem precoce e monitoramento contínuo, o que é particularmente valioso no contexto da telemedicina.
A parceria para o desenvolvimento incluiu a empresa internacional de Digital Health Infinity Doctors (EUA). O próximo passo planejado pela equipe é a ampliação da base de participantes, buscando incluir perfis mais diversos e diferentes idiomas. O objetivo é equilibrar o modelo de IA, reduzindo vieses e aumentando a precisão da ferramenta para todos os grupos populacionais.
