IA Desvenda Segredo de Pedra Romana: Jogo de Tabuleiro Desconhecido é Recriado

A arqueologia ganhou um novo aliado na busca por desvendar mistérios do passado: a inteligência artificial. Pesquisadores holandeses anunciaram que, com o auxílio de uma IA especializada, conseguiram decifrar as regras de um antigo jogo de tabuleiro da era romana, gravado em uma peça de pedra calcária que permaneceu indecifrável por décadas em um museu.
O artefato, uma pedra lisa e branca com cerca de 20 centímetros de diâmetro e marcada por linhas geométricas, foi descoberto no sítio romano de Coriovallum, na cidade de Heerlen, na Holanda, no final do século XIX ou início do século XX. A peça estava guardada no acervo do Museu Romano de Heerlen, mas seu propósito exato permaneceu um enigma até recentemente.
Análise Física e a Descoberta do Desgaste
O ponto de partida para a investigação moderna foi a análise detalhada da própria pedra. O arqueólogo Walter Crist, da Universidade de Leiden e especialista em jogos antigos, notou que o objeto havia sido deliberadamente moldado e que o padrão geométrico em sua face superior sugeria um tabuleiro.
Utilizando imagens em 3D, os cientistas identificaram que algumas das linhas gravadas eram visivelmente mais profundas do que outras. Essa variação na profundidade levou à hipótese de que as peças do jogo se moviam ao longo dessas linhas, com algumas rotas sendo usadas com mais frequência.
“Podemos observar o desgaste ao longo das linhas da pedra, exatamente onde uma peça deslizava”, afirmou Crist, indicando que a abrasão microscópica irregular fornecia pistas cruciais sobre a mecânica do jogo.
O Papel Revolucionário da Inteligência Artificial
Para ir além da observação física e reconstruir as regras perdidas, a equipe recorreu à tecnologia de ponta. Pesquisadores da Universidade de Maastricht, liderados por Dennis Soemers, aplicaram um programa de inteligência artificial chamado Ludii.
O Ludii foi treinado com as regras de aproximadamente cem jogos antigos da mesma região da pedra romana, fornecendo uma base de conhecimento histórico para a IA. O sistema então simulou milhares de partidas entre dois jogadores virtuais, testando as diferentes configurações de peças e movimentos possíveis.
Dennis Soemers explicou o processo: “O computador produziu dezenas de possíveis conjuntos de regras. Depois se autoavaliava e identificou algumas variantes que eram agradáveis para os humanos”.
Veja também:
As Regras Reconstruídas e o Tipo de Jogo
Após cruzar os resultados das simulações da IA com os padrões de desgaste reais na pedra, os pesquisadores chegaram ao conjunto de regras mais provável para o que foi provisoriamente chamado de Ludus Coriovalli, ou o “Jogo de Coriovallum”.
A principal conclusão é que se tratava de um jogo de bloqueio, onde o objetivo principal não é capturar as peças do adversário, mas sim cercá-las e imobilizá-las, deixando-as sem movimentos possíveis.
As regras reconstruídas sugerem uma dinâmica assimétrica:
- O jogo envolvia dois jogadores, um com quatro peças e outro com apenas duas peças.
- Os jogadores se revezavam deslizando uma peça para um espaço vazio.
- O jogador com quatro peças tentava encurralar as duas peças adversárias até que ficassem presas.
- O objetivo final era que o jogador com duas peças sobrevivesse o maior tempo possível sem ser bloqueado, ou que o jogador com quatro peças conseguisse prender as duas.
Esta descoberta é significativa porque jogos de bloqueio desse tipo, embora conhecidos na Europa, só eram documentados a partir da Idade Média. A pesquisa sugere que essa mecânica de jogo já era praticada na Europa entre 1.500 e 1.700 anos atrás, durante o período romano.
Contexto e Ressalvas da Pesquisa
A pesquisa, publicada na revista Antiquity, não só revelou um jogo, mas também ofereceu um vislumbre da vida social romana. A pedra calcária utilizada no tabuleiro era, na verdade, material importado da França, o que indica que já havia comércio e movimentação cultural de objetos de lazer pela Europa na época.
Apesar do sucesso, os cientistas envolvidos, como Dennis Soemers, mantêm uma postura cautelosa em relação à precisão absoluta das regras. Soemers ressaltou que, como a IA sempre encontrará um conjunto de regras para um padrão de linhas, “não podemos ter certeza de que os romanos o jogavam exatamente dessa maneira”.
Contudo, a combinação das evidências físicas (desgaste) com as simulações da IA tornou este o conjunto de regras mais plausível. A técnica é considerada “inovadora” e pode ser aplicada para investigar outros artefatos e “jogos perdidos” no futuro.
A comunidade acadêmica vê o estudo como um marco, pois a IA não apenas ajudou a identificar o objeto, mas também a resgatar uma experiência cotidiana da civilização romana que estava perdida no tempo.
