Microsoft Abre Data Centers de IA em SP com Alto Consumo de Água

A Microsoft iniciou a operação de seus primeiros data centers dedicados à inteligência artificial (IA) no Brasil, localizados nas cidades de Hortolândia e Sumaré, no interior de São Paulo. A novidade, no entanto, vem acompanhada de uma preocupação ambiental: as unidades utilizam uma tecnologia de resfriamento mais antiga, baseada em torres de evaporação, que consome significativamente mais água do que sistemas mais modernos e eficientes.
Documentos indicam que o consumo diário de água do complexo pode atingir até 3,24 milhões de litros, volume comparável ao uso de água de uma população de aproximadamente 15 mil pessoas. A decisão da gigante da tecnologia reacende o debate global sobre a sustentabilidade da infraestrutura de IA e o impacto no uso de recursos hídricos.
Tecnologia de Resfriamento e o Dilema da Água
Os data centers são estruturas essenciais para o funcionamento da internet e, mais recentemente, para o processamento intensivo exigido pelas aplicações de inteligência artificial, como modelos de linguagem avançados. O grande volume de cálculos gera calor considerável, que precisa ser dissipado para evitar o superaquecimento e garantir a estabilidade dos equipamentos.
No caso das unidades em São Paulo, a Microsoft optou por sistemas de resfriamento com torres de evaporação. Essa tecnologia funciona dissipando o calor através da evaporação da água, o que, por sua natureza, resulta na perda do recurso para a atmosfera. Embora seja uma solução eficaz para o resfriamento, é menos eficiente em termos hídricos se comparada a sistemas de circuito fechado, que recirculam a água e minimizam a perda por evaporação.
Especialistas apontam que, embora os sistemas de refrigeração mais recentes priorizem a economia hídrica, eles geralmente têm custos de implementação mais elevados e podem demandar maior consumo de energia elétrica para o resfriamento. Essa troca entre custo, energia e água é um desafio constante para as empresas de tecnologia na expansão de suas infraestruturas.
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Consumo Hídrico e Impacto Local
A estimativa de 3,24 milhões de litros de água por dia para o campus de data centers na região metropolitana de Campinas foi baseada em documentos de uma prefeitura no estado americano da Virgínia, referentes a um complexo com características similares. A Microsoft, em material divulgado para a comunidade local, afirmou que espera utilizar as torres de evaporação em apenas 10% do tempo de operação, especificamente quando as temperaturas ambiente excederem 29,4 graus Celsius.
Contudo, um estudo do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Unicamp revelou que, na região de Hortolândia e Sumaré, esse limite de temperatura foi superado em 44,48% dos dias nos últimos 30 anos, com uma tendência de aumento devido às mudanças climáticas. Esse dado sugere que o uso das torres de evaporação e, consequentemente, o consumo de água, pode ser substancialmente maior do que o projetado pela empresa.
Apesar das preocupações, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), responsável pelo abastecimento de água nas cidades, avaliou os projetos da Microsoft e declarou não ver risco para o abastecimento dos municípios. As prefeituras de Hortolândia e Sumaré também concederam as licenças ambientais necessárias para a construção e operação dos data centers.
O Contexto Global da Sustentabilidade da IA
A expansão da inteligência artificial tem colocado os data centers no centro de um debate global sobre sustentabilidade. Essas “cidades de servidores”, que alimentam serviços como ChatGPT e Claude, demandam quantidades significativas de energia e água para manter seus chips resfriados sob intensa carga de trabalho.
Em seu relatório de sustentabilidade de 2024, a própria Microsoft indicou que 42% de sua água era proveniente de áreas com “estresse hídrico”. A empresa tem compromissos globais de ser “água positiva” até 2030, reabastecendo mais água do que consome em suas operações globais, com foco em regiões de estresse hídrico. Para isso, a Microsoft tem investido em novas tecnologias de resfriamento que visam o consumo zero de água, com planos de pilotar esses sistemas em 2026 e expandi-los para novos sites nos próximos anos.
Apesar desses esforços e do desenvolvimento de soluções mais eficientes, a implementação de tecnologias mais antigas em novos projetos, como os de São Paulo, destaca a complexidade e os desafios práticos de equilibrar a demanda crescente por infraestrutura de IA com as metas de sustentabilidade.
Desdobramentos e Perspectivas Futuras
A Microsoft não se pronunciou oficialmente sobre o uso da tecnologia de resfriamento mais antiga nos data centers de São Paulo quando procurada pela reportagem. A discussão em torno do consumo de água por data centers de IA deve se intensificar à medida que a demanda por inteligência artificial continua a crescer exponencialmente.
O caso brasileiro ressalta a importância de um planejamento cuidadoso e da adoção de tecnologias inovadoras que minimizem o impacto ambiental, especialmente em regiões que já enfrentam desafios relacionados à gestão hídrica. A indústria de tecnologia está sob crescente escrutínio para demonstrar que o avanço digital pode ser compatível com a sustentabilidade ambiental.
