Nobel alertam: IA pode disparar desigualdade no Brasil

Os ganhadores do Prêmio Nobel de Economia de 2019, Esther Duflo e Abhijit Banerjee, emitiram um alerta contundente durante sua recente visita ao Brasil, indicando que a rápida ascensão da Inteligência Artificial (IA) tem o potencial de aumentar drasticamente a desigualdade social e prejudicar significativamente o mercado de trabalho nacional.
Em um evento realizado em São Paulo, que marcou o início da Lemann Collaborative, iniciativa focada em políticas públicas no país, os economistas destacaram que a IA deve substituir uma vasta gama de profissões, especialmente aquelas de classe média, com uma velocidade preocupante para a realidade brasileira.
O Alvo da Automação: Classe Média e Serviços
Segundo Banerjee, a IA está se tornando mais eficiente em tarefas que antes eram exclusivas de profissionais de escritório e de serviços especializados. Ele citou exemplos como contabilidade e pesquisas jurídicas, prevendo que a automação nesses setores será mais rápida do que a substituição de trabalhos braçais, embora estes últimos também estejam ameaçados.
A preocupação de Duflo se concentra na estrutura econômica do Brasil. Ela argumenta que a substituição de empregos de classe média, que historicamente servem como um trampolim para a ascensão social de indivíduos de classes mais baixas, tornará o país um lugar economicamente mais difícil.
- Substituição Rápida: Empregos de escritório, como contabilidade e jurídico, devem ser afetados primeiro e mais rapidamente pela IA.
- Barreira Social: A eliminação de empregos de serviços de classe média remove um caminho crucial de mobilidade social no Brasil.
- Desigualdade Acentuada: O cenário tende a concentrar a riqueza no topo, aprofundando o fosso social existente.
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O Contexto Global e a Necessidade de Intervenção
As preocupações de Duflo e Banerjee ecoam alertas feitos por outros laureados, como Joseph Stiglitz e Simon Johnson, que apontam o risco da IA concentrar os ganhos de produtividade nas mãos dos proprietários de capital, em vez de distribuí-los via salários.
Stiglitz comparou o momento atual à Revolução Industrial, onde a produtividade aumentou, mas os salários estagnaram por décadas, com os lucros concentrados nos detentores das máquinas.
O Papel das Instituições
A chave para mitigar esses efeitos, segundo os economistas, reside na intervenção institucional e na formulação de políticas públicas robustas. A tecnologia, por si só, não garante resultados sociais justos; ela precisa ser direcionada.
A pesquisa do casal Duflo e Banerjee, que lhes rendeu o Nobel, foca justamente em como as instituições afetam a prosperidade, reforçando a urgência de ação governamental para garantir que a IA seja uma ferramenta de amplificação humana, e não de mera substituição.
Desdobramentos e a Resposta Brasileira
A vinda dos laureados ao Brasil, coincidindo com o lançamento da Lemann Collaborative em parceria com o J-PAL (Laboratório de Ação contra a Pobreza Abdul Latif Jameel), liderado por eles, sinaliza um foco renovado na necessidade de adaptar as políticas públicas brasileiras à era tecnológica.
O desafio imediato para o Brasil é duplo: preparar a força de trabalho para as novas demandas e garantir que os benefícios da produtividade gerada pela IA não fiquem restritos a uma pequena parcela da população.
Especialistas defendem que a resposta política deve focar em:
- Requalificação em Massa: Investimento urgente em educação e treinamento focados em habilidades complementares à IA.
- Revisão Tributária: Considerar a equalização de impostos entre o custo de empregar pessoas e o custo de possuir equipamentos e algoritmos de IA, nivelando o campo de jogo.
- Foco em Inteligência Assistida: Promover o desenvolvimento e a adoção de IAs que funcionem como suporte ao trabalhador, aumentando sua capacidade produtiva, em vez de simplesmente eliminá-lo da cadeia.
A adoção da IA no Brasil, um país com grande dependência do setor de serviços e desafios estruturais de educação, pode intensificar problemas históricos de desigualdade se não houver um planejamento estratégico imediato e abrangente, conforme alertam os dois maiores nomes da economia contemporânea.
