Nova diretora da Poli-USP quer IA nacional, não só importada

A recém-empossada diretora da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), professora Anna Helena Reali Costa, estabeleceu como meta estratégica o desenvolvimento de Inteligência Artificial (IA) autônoma no Brasil, em vez de depender unicamente da aquisição de tecnologia de grandes corporações estrangeiras.
Em sua primeira grande declaração após assumir o cargo (no dia 5 de março de 2026), Reali, a segunda mulher a dirigir a instituição em 132 anos, utilizou analogias com produtos brasileiros, como o cacau e a banana, para ilustrar sua visão de que o país corre o risco de se manter como mero fornecedor de matéria-prima, agora também no campo digital.
O Brasil como Exportador de Matéria-Prima Digital
A professora Anna Reali argumenta que o Brasil, historicamente, exporta recursos naturais em seu estado bruto, sem agregar valor através da industrialização ou processamento local. Segundo ela, essa mentalidade se reflete no setor de tecnologia e dados.
- Analogia Central: Assim como o país exporta cacau, mas não o melhor chocolate, a preocupação é que o Brasil exporte dados brutos sem processá-los internamente com IA própria.
- Domínio de Dados: Reali enfatiza a importância de ter infraestrutura local, como um data center próprio, capaz de gerenciar e processar dados sensíveis, citando especificamente os dados do Sistema Único de Saúde (SUS) como um ativo de valor inestimável que não deve ser cedido passivamente.
- Projeto de Desenvolvimento: A diretora defende que a engenharia brasileira precisa urgentemente sustentar um projeto de valor agregado que vá além de simplesmente responder às demandas imediatas do mercado de trabalho.
Formação de Engenheiros para o Desenvolvimento
A visão da nova gestão da Poli-USP está intrinsecamente ligada à formação de engenheiros com um projeto de desenvolvimento claro para o país. Reali critica o modelo atual que, segundo ela, forma profissionais que acabam migrando para o setor financeiro, onde são mais valorizados por sua capacidade de liderança e resolução de problemas, em vez de permanecerem no desenvolvimento tecnológico nacional.
Para combater essa tendência, a gestão planeja:
- Promover mudanças no ensino para que os alunos apliquem habilidades de engenharia desde o primeiro ano, saindo da teoria para a prática.
- Apostar em uma agenda de aumento de diversidade e fomento à entrada feminina na área de engenharia.
- Medir o sucesso da gestão não apenas por métricas técnicas, mas pelo sentimento de pertencimento e satisfação dos estudantes.
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Experiência e Contexto da Diretora
Anna Reali Costa possui uma trajetória robusta que justifica sua postura em relação à autonomia tecnológica. Ela é professora titular do Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais (PCS) da Poli-USP e atua há décadas em Inteligência Artificial e robótica autônoma.
Sua experiência inclui:
- Liderança no Centro de Ciência de Dados (C2D), uma parceria com o Itaú-Unibanco, desde 2017.
- Pesquisadora em centros importantes como o C4AI (parceria FAPESP-USP-IBM) e o Instituto Nacional de Inteligência Artificial (IAIA).
- Experiências internacionais relevantes, incluindo passagens pela Alemanha e pela Universidade Carnegie Mellon (EUA), referência mundial na área.
- Iniciativas pioneiras, como a participação na criação da Olimpíada Brasileira de Robótica (OBR) e a liderança de equipes no mundial de futebol de robôs nos anos 90.
Desdobramentos e Cenário Atual da IA no Brasil
A declaração da diretora da Poli-USP se insere em um debate nacional mais amplo sobre soberania tecnológica e o uso estratégico de dados.
Enquanto centros de pesquisa da USP, como o Centro de Inteligência Artificial (C4AI), já trabalham em sinergia com parceiros como a IBM e a FAPESP, a fala de Reali sinaliza uma ambição de escalar essa produção para um nível de aplicação nacional e infraestrutura própria, capaz de competir com os gigantes globais que dominam o mercado de modelos de IA.
A preocupação com o domínio dos dados do SUS, em particular, reflete o reconhecimento de que grandes bases de dados de saúde são consideradas uma das matérias-primas digitais mais valiosas do século XXI. O desafio proposto pela nova diretora é transformar a Poli-USP em um polo capaz de gerar soluções de IA que sejam desenvolvidas, treinadas e mantidas com tecnologia e conhecimento brasileiros, garantindo o controle sobre a informação gerada no país.
A gestão também visa modernizar a infraestrutura física da Escola Politécnica, criticada pela diretora como tendo uma estética “deprimente”, buscando um ambiente que inspire e retenha talentos na engenharia.
