Estudo Revela: Mulheres Usam IA 25% Menos que Homens por Medo de Riscos

Um novo levantamento internacional aponta uma significativa disparidade de gênero na adoção de ferramentas de inteligência artificial (IA), indicando que as mulheres utilizam essas tecnologias em uma taxa consideravelmente menor do que os homens. Pesquisas recentes, que analisaram dados de milhares de participantes em diversos países, sugerem que essa hesitação feminina está ligada a uma maior percepção de risco, preocupações éticas e receios sobre o impacto no emprego.
A diferença na adoção é substancial: uma das análises mais citadas, que agregou dados de 18 estudos com mais de 140 mil participantes, estima que as mulheres adotam ferramentas de IA generativa, como o ChatGPT, em uma taxa 25% menor do que os homens, mesmo quando os benefícios potenciais são iguais para ambos os gêneros.
Fatores Chave da Hesitação Feminina em Relação à IA
A relutância feminina em incorporar a IA rotineiramente não parece estar ligada à capacidade de aprendizado, mas sim a uma combinação de fatores contextuais, de risco e reputacionais.
Aversão ao Risco e Exposição a Consequências Negativas
Um estudo recente, publicado na revista PNAS Nexus, investigou essa disparidade e concluiu que as mulheres tendem a ser mais avessas ao risco em cenários de incerteza quando comparadas aos homens. Essa aversão se manifesta na hesitação em adotar a IA, pois as mulheres percebem a tecnologia como mais arriscada e potencialmente menos benéfica.
Além disso, as consequências negativas da IA parecem afetar desproporcionalmente o público feminino. Pesquisadores apontam que as mulheres estão mais expostas a riscos econômicos e sociais advindos da tecnologia, como:
- Risco de Substituição de Emprego: Há uma preocupação maior entre as mulheres sobre a possibilidade de perderem seus empregos para a automação impulsionada pela IA.
- Exposição a Riscos Éticos e de Segurança: As mulheres relatam preocupações com a ética no uso da ferramenta para tarefas pessoais e estão mais sujeitas a efeitos nocivos, como a criação de deepfakes sexualizados.
Quando os pesquisadores removem a incerteza do cenário de avaliação, o comportamento das mulheres demonstra maior tolerância à tecnologia, reforçando a hipótese de que a aversão à incerteza é um fator determinante na baixa adoção.
Preocupações Éticas e Reputacionais no Trabalho
No ambiente profissional, a adoção da IA por mulheres pode gerar um julgamento mais severo sobre sua competência. Um experimento recente mostrou que, mesmo ao produzir um código de software de qualidade idêntica à de um colega homem, as mulheres que utilizaram IA para gerar o conteúdo foram avaliadas como significativamente menos competentes.
Os pesquisadores indicam que, enquanto para os homens o uso da IA pode ser visto como um sinal de uso estratégico de ferramentas, para as mulheres, a assistência tecnológica pode ser interpretada como uma “prova” de inadequação ou despreparo. Essa desconfiança estendida ao uso da tecnologia reforça padrões de subestimação já existentes no mercado de trabalho.
Impactos Estruturais e Setoriais
A disparidade de gênero no uso da IA ameaça a equidade no desenvolvimento tecnológico e no mercado de trabalho. Mulheres estão sobrerrepresentadas em funções administrativas e de serviços, setores que são frequentemente os mais impactados pela automação.
Por outro lado, a sub-representação feminina em áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) limita o acesso a cargos de liderança e a empregos bem remunerados ligados à própria criação e gestão da IA. Em alguns países, como o Brasil, a desigualdade de gênero no mercado de IA é alarmante, com o país liderando o pior índice de participação feminina em empregos de tecnologia avançada em rankings globais.
A falta de diversidade nas equipes que desenvolvem e utilizam a IA pode levar à criação de sistemas que perpetuam vieses de gênero, falhando em reconhecer as desigualdades enfrentadas pelas mulheres, como disparidades salariais.
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Medidas Sugeridas para Mitigar a Disparidade
Diante dos dados, estudos e especialistas sugerem que a mudança deve ser multifacetada, envolvendo tanto a tecnologia quanto políticas sociais e corporativas. Para alcançar a igualdade de gênero na adoção da IA, são necessárias ações que abordem diretamente as barreiras identificadas:
- Implementação de Políticas de Mitigação de Risco: Criação de diretrizes claras nas empresas para proteger as trabalhadoras contra a substituição de emprego e reduzir a percepção de risco associada à ferramenta.
- Combate a Estereótipos: Desconstrução de estereótipos culturais e sociais que direcionam meninas para longe de áreas técnicas desde a infância, incentivando a participação feminina em STEM e IA.
- Foco na Usabilidade e Transparência: Melhorar a clareza sobre como os dados são usados e garantir que as ferramentas sejam intuitivas, já que a dificuldade de usabilidade (necessidade de múltiplos prompts) também é uma barreira.
- Incentivo e Acesso: Garantir que o acesso e o incentivo à incorporação dessas ferramentas na rotina profissional sejam equitativos, superando a falta de hábito de uso.
A superação desta lacuna é vista como crucial não apenas para a equidade de gênero, mas também para o crescimento econômico e para garantir que o desenvolvimento da inteligência artificial seja mais justo e inclusivo para toda a sociedade.
