Programadora trans brasileira Veronyka Gimenez vence prêmio internacional com IA anti-ódio

A programadora trans brasileira Veronyka Gimenez, de 40 anos, alcançou reconhecimento internacional ao ser premiada em novembro de 2025, na Turquia, pelo desenvolvimento da TybyrIA. Este inovador modelo de inteligência artificial é pioneiro em língua portuguesa na detecção de discursos de ódio contra a comunidade LGBTQIAPN+, protegendo-a ativamente no ambiente digital e embasando ações legais contra plataformas.
A ferramenta, criada pela organização Código Não Binário, da qual Gimenez faz parte, recebeu o Du Bois Prize de “Menção Especial” durante uma conferência de IA cooperativa em Istambul. O prêmio destaca a relevância do trabalho que visa combater a transfobia, homofobia, lesbofobia, bifobia, violência e a citação ao “nome morto” no cenário online.
O Nascimento da TybyrIA: Uma Resposta à Violência Digital
A gênese da TybyrIA está diretamente ligada a uma experiência dolorosa vivida pela comunidade. Em maio de 2024, um corte do podcast “Entre Amigues”, produzido pela Código Não Binário, viralizou nas redes sociais. O conteúdo, que abordava o termo “boyceta” usado na periferia de São Paulo para se referir a pessoas transmasculinas, gerou uma onda coordenada de ataques de ódio, amplificados pelos algoritmos das plataformas digitais.
Diante da virulência dos ataques, que levaram o assunto a ser o mais comentado no X (antigo Twitter) por dois dias, a equipe da Código Não Binário, buscando preservar a saúde mental de seus membros, desenvolveu uma metodologia própria para coletar e classificar dados. Dois mil comentários foram analisados manualmente, e a partir desse material, a TybyrIA foi treinada para escalar a análise e identificar agressões como violência.
A inteligência artificial foi batizada em homenagem a Tybyra do Maranhão, reconhecida como a primeira vítima oficial de LGBTfobia durante o período colonial no Brasil. Este nome simbólico ressalta a importância histórica e a continuidade da luta contra o preconceito.
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Reconhecimento Global e Impacto Além das Fronteiras
O prêmio internacional concedido à TybyrIA em novembro de 2025 não apenas validou a inovação tecnológica, mas também conferiu visibilidade e credibilidade ao trabalho da Código Não Binário e de Veronyka Gimenez. O reconhecimento em Istambul, na Turquia, sublinha a relevância global da ferramenta em um momento em que o discurso de ódio online é uma preocupação crescente em diversas partes do mundo.
Veronyka expressou surpresa e satisfação com a premiação, destacando que o reconhecimento é fundamental para ampliar o alcance e a influência da iniciativa. A TybyrIA, operando gratuitamente pelo Radar Social LGBTQIA+, tornou-se um recurso vital para monitorar e combater a discriminação digital.
Ação Civil Pública: Confrontando Gigantes da Tecnologia
A atuação da TybyrIA transcendeu a mera detecção, servindo como base para uma importante ofensiva jurídica. Em 29 de janeiro de 2026, a Código Não Binário, com o apoio de organizações como o Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (Ibrat), o Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros (Fonatrans) e a revista AzMina, protocolou uma Ação Civil Pública (ACP) contra as gigantes de tecnologia Meta (Facebook, Instagram, WhatsApp), Google (YouTube), X e ByteDance (TikTok).
A ação denuncia a violência digital e a falha sistêmica das plataformas na moderação de conteúdo, questionando seus modelos de lucro e a seletividade na remoção de discursos de ódio. O relatório técnico “Anatomia de uma Onda de Ódio”, elaborado com os dados coletados pela TybyrIA, sistematizou evidências sobre a circulação, persistência e monetização do discurso anti-LGBTQIAPN+ nas redes.
Essa iniciativa inédita no Brasil e no mundo reflete o lema da comunidade “nada sobre nós sem nós”, levando a pauta da representatividade e da autodeterminação para o campo da inteligência artificial e da litigância estratégica. A ação foi lançada em um cenário jurídico favorável, após o Supremo Tribunal Federal (STF) reinterpretar o Marco Civil da Internet em 2024, exigindo diligência ativa e responsabilização das plataformas, e a aprovação do ECA Digital em 2025, que viabilizou a regulação de Big Techs estrangeiras no Brasil.
Desafios e Próximos Passos na Jornada de Veronyka Gimenez
Veronyka Gimenez, que aos 40 anos já passou por experiências em multinacionais de tecnologia e ativismo social desde 2008, agora direciona seus esforços para a educação. Ela está focada em promover oficinas de capacitação e produzir vídeos para combater a desinformação, utilizando a tecnologia como ferramenta para a conscientização e empoderamento.
A programadora aponta para a dificuldade de dialogar com grandes empresas do mercado digital, citando um alinhamento do setor tecnológico com um projeto colonial e conservador, que se tornou mais evidente em cenários políticos globais recentes. Essa percepção reforça a importância de iniciativas independentes e comunitárias como a Código Não Binário.
O trabalho de Veronyka e da TybyrIA é um exemplo marcante de como a tecnologia pode ser empregada para a justiça social, oferecendo uma resposta concreta à violência digital e pavimentando o caminho para um ambiente online mais seguro e inclusivo para a comunidade LGBTQIAPN+ no Brasil e globalmente. A visibilidade e credibilidade conquistadas abrem portas para futuras colaborações e para o desenvolvimento de novas estratégias de combate ao ódio.
