Seca no Brasil: Hidrovias do Brasil usa IA para prever rios e crescer com crise hídrica

Em um cenário de crescente crise hídrica no Brasil, que afetou severamente a navegação em 2025, a Hidrovias do Brasil, uma das gigantes do transporte aquaviário, está intensificando seus investimentos em Inteligência Artificial (IA) e tecnologias de gestão de risco climático para garantir a operação e buscar crescimento mesmo diante da escassez de água.
A companhia, que atua em corredores logísticos cruciais como a hidrovia Paraguai-Paraná e operações no Norte do país, reconhece os riscos impostos pelas estiagens, que causam a baixa dos níveis dos rios e impactam diretamente a capacidade de navegação e o transporte de commodities como grãos e minério de ferro.
Estratégia de Antecipação com Inteligência Artificial
O CEO da Hidrovias do Brasil, Décio Amaral, destacou que a estratégia atual da empresa foca na adoção de tecnologias de gestão de risco climático com o objetivo explícito de antecipar os impactos nos corredores logísticos onde a empresa opera. Este esforço visa transformar a vulnerabilidade causada pelas condições climáticas adversas em uma vantagem competitiva.
Um exemplo notável dessa aplicação tecnológica é o trabalho realizado na hidrovia Paraguai-Paraná. A empresa utiliza o Projeto Irupé, um sistema avançado que emprega Machine Learning e Analytics para analisar uma vasta gama de fatores ambientais. Este sistema processa dados como previsões de chuva, vazão dos rios, condições meteorológicas gerais e os efeitos de fenômenos como La Niña e El Niño.
Previsão de Calado e Segurança Operacional
A principal função do Projeto Irupé é gerar uma previsão detalhada para o nível do calado em pontos estratégicos da via navegável. O calado é a profundidade que a embarcação alcança na água, sendo um fator determinante para a segurança e a capacidade de carga. A capacidade de prever o nível do rio com maior precisão, que chegou a variar em média 12 centímetros, é fundamental para o planejamento das operações.
Anteriormente, a imprevisibilidade, especialmente em anos de La Niña, tornava difícil estimar o calado exato em gargalos logísticos com a antecedência necessária, como 15 dias para uma viagem de Corumbá à Argentina. Com a IA, a Hidrovias do Brasil consegue não apenas evitar encalhes, mas também otimizar a quantidade de carga transportada, aumentando a eficiência do modal hidroviário, que é naturalmente um dos mais sustentáveis.
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Medidas Preventivas e Mitigadoras Contra a Seca
A estratégia da Hidrovias do Brasil para enfrentar os riscos climáticos é estruturada em planos de ação que combinam iniciativas preventivas e mitigadoras.
- Iniciativas Preventivas: Envolvem previsões contínuas e monitoramento constante de dados hídricos e meteorológicos, permitindo ajustes logísticos antes que a crise se instale.
- Iniciativas Mitigadoras: Incluem a avaliação da possibilidade de manter a navegação mesmo em condições de águas baixas e a realização de dragagens, que são os processos de escavação para remover sedimentos e manter a profundidade necessária dos canais.
Desde 2012, a empresa já vinha investindo em Internet das Coisas (IoT), sensorizando toda a sua frota para coletar indicadores como consumo de combustível, temperatura dos motores e condições das marés, o que serviu de base para os saltos atuais em IA.
Crescimento e Sustentabilidade no Modal Hidroviário
A aposta em tecnologia visa também o crescimento da companhia em um modal que é intrinsecamente ligado à sustentabilidade. O transporte hidroviário, por natureza, possui uma pegada ambiental menor, sendo capaz de retirar milhares de caminhões das rodovias, o que reduz a emissão de gases de efeito estufa e ajuda na descarbonização do setor logístico.
A Hidrovias do Brasil está focada em aumentar a competitividade por meio da eficiência, um fator crucial na gestão de ativos. Um dos projetos de expansão recentes envolve o desenvolvimento do Supercomboio, um conjunto de embarcações que será ampliado de 35 para 50 barcaças, permitindo maior volume de carga por viagem.
Em 2026, a companhia confirmou um plano de investimentos de R$ 270 milhões, com foco em manutenção e projetos de tecnologia para aumentar a produtividade. Parte desses recursos de expansão está direcionada à conclusão do projeto do Tombador Flutuante na ETC, visando adicionar 1,5 milhão de toneladas de capacidade ao Corredor Norte.
Contexto da Crise Hídrica no Brasil
A urgência da Hidrovias do Brasil em investir em IA reflete o cenário nacional. Em 2025, o país registrou 503 municípios com seca severa ou extrema, com oito estados sob falta de chuvas em 100% do seu território em novembro. Essa situação climática exige adaptação de toda a cadeia de transporte hidroviário.
Apesar de o Brasil possuir a maior reserva de água doce do planeta, a baixa no nível dos rios ameaça a infraestrutura logística essencial para o escoamento da produção, especialmente no Arco Norte, onde a empresa opera com grãos do Mato Grosso.
Desdobramentos Futuros
Apesar dos desafios climáticos, a Hidrovias do Brasil busca se posicionar para o futuro, alinhada com a tendência de maior investimento no modal hidroviário pelo Governo Federal, que vê nele uma alternativa mais sustentável que o rodoviário. A aplicação da IA não só mitiga os riscos imediatos impostos pela seca, mas também consolida a empresa como um player que utiliza dados avançados para garantir a continuidade de um transporte de cargas essencial para a economia nacional.
