Sérgio Rodrigues satiriza escrita de IA com conto sobre gato

O colunista Sérgio Rodrigues, da Folha de S.Paulo, publicou recentemente um artigo intitulado “Era uma vez um gato escrito por uma IA”, no qual utiliza um trecho narrativo sobre um felino para satirizar as características estilísticas que se tornaram lugar-comum em textos gerados por inteligência artificial (IA) generativa.
A Sátira do Felino Artificial
No texto, datado de 25 de março de 2026, Rodrigues apresenta uma breve narrativa sobre um gato chamado Félix, que causou desordem com um novelo de lã. A descrição evoca um cenário calmo, mas sinistro, com o novelo parado no chão, comparado ao “cadáver sangrento de um pequeno animal”.
O ponto central da coluna, no entanto, é a revelação de que o trecho do gato não foi, de fato, escrito por uma IA, mas sim por um escritor humano com a intenção de imitar o estilo robótico. Rodrigues aponta que o texto gerado por máquinas, embora muitas vezes gramaticalmente correto, exala um “ar arrepiante de vazio e morte”, mesmo que engane à primeira vista e seja até considerado boa escrita por alguns leitores.
A Imitação Crítica da Máquina
O autor argumenta que, dado o constante mimetismo da IA, imitar seus padrões com uma intenção crítica se torna uma tática válida. Ele compara a dificuldade de satirizar a escrita robótica à tentativa de escrever distopias apocalípticas enquanto eventos reais já beiram o absurdo.
A coluna sugere que a IA generativa, ao tentar soar artística, tende a martelar os truques aprendidos com a literatura humana, reduzindo-os a uma “pasta” sem alma. A lição que o autor diz ter aprendido com a experiência fictícia de Félix é que “cada pessoa é responsável por guardar bem os objetos que lhe são caros”, uma conclusão simples que contrasta com a complexidade da produção algorítmica.
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Contexto da Produção de Conteúdo por IA
A publicação de Rodrigues insere-se em um debate mais amplo sobre a proliferação de conteúdo gerado por inteligência artificial nas plataformas digitais. O fenômeno de “histórias de gatos em IA”, frequentemente virais em redes sociais como TikTok e YouTube, utiliza narrativas melodramáticas e trilhas sonoras repetitivas, muitas vezes resultando em finais infelizes para os personagens felinos fictícios.
- Viralização e Melodrama: Vídeos de gatos criados por IA, com narrativas dramáticas e a trilha sonora “miau miau miau”, conquistaram milhões de visualizações, apelando para o apreço universal por pets.
- Qualidade Questionável: Especialistas têm rotulado esse material de baixa qualidade e repetitivo como “AI slop” (conteúdo porcaria de IA), marcando uma nova fase na internet onde o volume produzido por algoritmos inunda o espaço digital.
- Reação das Plataformas: Diante do avanço, plataformas como o YouTube começaram a reagir, bloqueando a monetização de vídeos considerados não autênticos ou excessivamente repetitivos.
Desdobramentos e a Busca por Autenticidade
O artigo de Sérgio Rodrigues funciona como um comentário sobre a “guerra aberta” que a “pasta de linguagem feita por máquinas” trava contra a alma da escrita. A preocupação não é apenas com a qualidade, mas com a autenticidade e a capacidade da IA de replicar a profundidade da experiência humana.
Enquanto a IA, como o modelo “Gato” da DeepMind (divulgado anos antes, mas relevante no contexto da IA generalista), demonstra capacidade de realizar centenas de tarefas diferentes, a crítica literária foca na ausência de consciência do ridículo e da emoção genuína nos textos gerados.
O debate jornalístico e literário atual, em 2026, segue atento aos avanços dos modelos generativos, ponderando se a eficiência algorítmica pode, de fato, substituir a intencionalidade e a subjetividade inerentes à criação artística humana. A coluna da Folha, ao simular a escrita da máquina, convida o leitor a refletir sobre o que diferencia um texto bem construído de um texto meramente bem formado.
