Vaticano Adota IA em Missas, Mas Novo Papa Leão XIV Exige Ética

O Vaticano demonstra uma postura de pragmatismo cauteloso em relação à Inteligência Artificial (IA), abraçando a tecnologia para iniciativas práticas, como a tradução de missas, ao mesmo tempo em que o recém-empossado Papa Leão XIV mantém fortes ressalvas sobre os riscos inerentes ao desenvolvimento acelerado da IA, especialmente no que tange à dignidade humana e aos abusos potenciais. Esta dualidade reflete a tensão entre a necessidade de modernização da comunicação da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) e a sua missão de guardiã dos valores morais em face da chamada “2.ª Revolução Industrial”.
Adoção Prática: IA a Serviço da Comunicação Litúrgica
A iniciativa mais concreta do Vaticano no uso da Inteligência Artificial foi anunciada como parte das comemorações dos 400 anos da Basílica de São Pedro, em Roma. A Santa Sé implementará um sistema de tradução instantânea em tempo real das missas, visando atender à diversidade de peregrinos e visitantes. Este recurso, acessível via web diretamente nos dispositivos móveis dos fiéis, traduzirá as cerimônias para cerca de 60 idiomas diferentes, tanto em texto quanto em áudio.
A implementação é fruto de uma parceria com a Translated, uma empresa italiana de tradução automatizada com histórico anterior ao recente *boom* das IAs generativas. A Translated utiliza a ferramenta Lara, que, segundo a companhia, é treinada com *inputs* de mais de 500 mil tradutores profissionais. O Cardeal Mauro Gambetti, arquipresbítero da basílica e presidente da Fábrica de São Pedro, destacou que a ideia é facilitar o acesso à liturgia para a grande maioria dos visitantes que não falam italiano, visto que o rito tridentino em latim é reservado para ocasiões específicas.
Contexto da Recepção da IA pela Igreja
Embora a adoção da tradução por IA seja um passo prático, ela se insere em um cenário onde a Igreja, sob a liderança anterior do Papa Francisco, já vinha emitindo alertas importantes sobre a tecnologia. Documentos anteriores, como a nota “Antiqua et Nova” (Antiga e Nova), aprovada por Francisco, classificaram a IA como potencialmente trazendo a “sombra do mal” e alertaram contra a ampliação da desigualdade e a propagação de desinformação. A posição anterior enfatizava que a tecnologia não é neutra e deve servir ao bem comum, mantendo o ser humano no controle.
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As Ressalvas do Papa Leão XIV
O novo pontífice, Leão XIV, que sucedeu Francisco, mantém a linha de vigilância ética, mas com um foco particular nos abusos e na ameaça à dignidade humana, chegando a se opor ao desenvolvimento desenfreado da IA, que não deve, idealmente, colocar pessoas em segundo plano. A preocupação do novo Papa ecoa discursos anteriores que focavam na necessidade de discernimento e responsabilidade.
Um dos pontos centrais de sua preocupação, expressa em eventos recentes, reside no impacto da IA no desenvolvimento das novas gerações. Leão XIV tem defendido que as crianças e jovens devem ser ajudados, e não prejudicados, no seu caminho para a maturidade, apelando a uma reflexão sobre o possível impacto da tecnologia no desenvolvimento intelectual e neurológico dos menores. Ele ressalta a necessidade de restaurar a confiança na capacidade humana de orientar o desenvolvimento tecnológico, combatendo a ideia de que seu avanço é inevitável.
Ética e o Uso Bélico da Tecnologia
A ética no uso da IA é um tema recorrente, especialmente no que tange à sua aplicação em conflitos. O Vaticano, sob a nova liderança, reitera a preocupação com o uso bélico, em particular os sistemas de armas autônomas e letais. Há um apelo firme para que se garanta um controle humano rigoroso sobre qualquer aplicação militar da IA, com a clara afirmação de que nenhuma máquina deve jamais decidir tirar a vida de um ser humano.
Adicionalmente, a preocupação se estende à substituição da mão de obra e à desumanização dos cuidados. Na saúde, por exemplo, embora o potencial de diagnósticos mais precisos seja reconhecido, alerta-se contra a redução de pacientes a meros dados ou estatísticas, o que compromete o cuidado médico integral.
O Desafio da Verdade na Era Digital
A velocidade e a capacidade da IA de gerar conteúdo indistinguível do produzido por humanos levantam questões críticas sobre a “crescente crise da verdade no espaço público”. O Papa Leão XIV, assim como seu antecessor, vê um risco na transformação da IA em um “oráculo” que responde a tudo, sem a devida sabedoria humana. A tecnologia, ao ser treinada com base na criatividade humana, pode replicar e até superar capacidades humanas em velocidade e competência, mas carece da profundidade moral e espiritual.
A Igreja Católica se posiciona, portanto, não como uma opositora à ciência ou à tecnologia, mas como uma defensora da dignidade humana integral. O progresso técnico deve ser sempre submetido a uma avaliação moral rigorosa, garantindo que a IA complemente a formação humana, como no campo educacional, onde a relação direta entre professor e aluno é considerada essencial, e não seja um substituto para o contato e a transcendência.
Conclusão e Perspectivas Futuras
A estratégia atual do Vaticano com a Inteligência Artificial pode ser resumida como uma adoção seletiva e controlada. A tecnologia é abraçada onde facilita a missão evangelizadora e pastoral, como no caso da tradução universal na Basílica de São Pedro. Contudo, essa abertura é firmemente temperada pelas advertências éticas do Papa Leão XIV, que exige que o desenvolvimento tecnológico caminhe lado a lado com a responsabilidade, o discernimento e o foco inabalável no bem-estar e na dignidade de cada pessoa, evitando as espirais de exclusão e autodestruição que a má aplicação da IA pode gerar.
