Brasil Rejeita Bloco de Minerais de Trump: Prioriza Processamento Interno

O Brasil recusou o convite formalizado pelo governo do ex-presidente Donald Trump para integrar um novo bloco comercial focado em minerais críticos. A iniciativa, que visa reorganizar a cadeia produtiva global e reduzir a dependência dos Estados Unidos em relação à China, foi recebida com cautela por Brasília, que optou por manter sua estratégia de buscar acordos bilaterais com foco no processamento interno dos recursos, em vez de apenas exportar a matéria-prima.
A notícia do convite, que teria sido estendido a mais de 50 países, foi inicialmente reportada pela CNN Brasil e confirmada por outras fontes. O movimento de Trump é visto como uma clara estratégia geopolítica para criar um contrapeso à hegemonia chinesa no fornecimento de insumos essenciais para a transição energética e tecnologias avançadas, como lítio, nióbio e terras raras.
Contexto da Proposta de Bloco Comercial
A proposta americana, que incluiu reuniões no Departamento de Estado dos EUA, busca estabelecer uma cooperação mais estreita entre os países parceiros, com a intenção de garantir um fornecimento estável e previsível desses materiais estratégicos. Fontes indicam que o plano americano envolvia a discussão de preços de referência e padrões de produção para os minerais dentro da zona preferencial de comércio.
A iniciativa é um desdobramento das preocupações ocidentais com a concentração da China no refino e processamento de minerais críticos. Países como Japão, União Europeia e México, que também foram convidados, firmaram acordos com Washington em formatos distintos logo após as discussões iniciais.
A Posição Brasileira: Autonomia e Valor Agregado
A decisão do governo brasileiro de não aderir formalmente ao bloco reflete uma política industrial e diplomática distinta. Enquanto os EUA buscam centralizar o comércio, o Brasil prioriza o desenvolvimento de sua capacidade de transformar os minerais extraídos em produtos de maior valor agregado dentro de seu território.
Essa postura foi sinalizada pela baixa representação do Brasil nas reuniões iniciais em Washington: o país enviou um diplomata de nível baixo, indicando que sua intenção era acompanhar as discussões e não se comprometer com os termos imediatos da aliança. A prioridade nacional é clara: garantir que os benefícios econômicos da riqueza mineral brasileira, que inclui grandes reservas de cobre, silício e nióbio, permaneçam no país através da industrialização.
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Minerais Críticos e a Geopolítica Global
Minerais críticos são a espinha dorsal da tecnologia moderna, sendo indispensáveis para a fabricação de veículos elétricos, turbinas eólicas, semicondutores e equipamentos de defesa. O Brasil detém a segunda maior reserva global desses recursos, o que lhe confere um poder de barganha significativo no cenário internacional.
- Minerais Estratégicos: O país possui reservas relevantes de lítio, nióbio, cobre e terras raras (ETRs).
- Interesses dos EUA: O bloco visa minimizar a dependência da China, que domina grande parte das cadeias de suprimento globais, inclusive através do anúncio de um projeto de reserva de US$ 12 bilhões nos EUA.
- Ameaça de Isolamento: Analistas apontam que se a iniciativa americana for bem-sucedida, o Brasil poderia se sentir pressionado a escolher um lado, o que contraria sua política externa de manter relações estratégicas com diversos atores globais, incluindo a China.
A estratégia brasileira de não se alinhar rigidamente a nenhum dos polos de poder – EUA ou China – busca maximizar as oportunidades comerciais e de investimento, sempre condicionadas ao desenvolvimento tecnológico nacional.
Alinhamento com a Índia e Acordos Bilaterais
Em consonância com sua política de não-alinhamento, o governo brasileiro planeja avançar em negociações bilaterais específicas. Está prevista uma viagem do Presidente Lula à Índia, onde as conversas sobre minerais críticos serão um ponto central. A Índia, também membro da Minerals Security Partnership (MSP), mas buscando também diversificação, é vista como um parceiro potencial para acordos que incluam o processamento local de recursos.
Especialistas econômicos destacam que a exploração adequada desses recursos pode impulsionar o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em centenas de bilhões de reais até 2050, reforçando a importância estratégica da decisão de não se atrelar unicamente aos termos de Washington.
Repercussão e Próximos Passos
A decisão de rejeitar o convite de Trump, embora cautelosa, demonstra a ambição do Brasil de não ser relegado ao papel de mero fornecedor de commodities. O governo busca ativamente parcerias que incluam a transferência de tecnologia e o estabelecimento de cadeias de valor completas no território nacional, como visto em projetos de terras raras que buscam ser fornecedores sustentáveis fora da Ásia.
Ainda que a relação diplomática entre Brasil e EUA mantenha um tom pragmático, a divergência na estratégia de minerais críticos evidencia uma disputa pelo controle do futuro da tecnologia verde. O Brasil, por ora, segue em seu próprio compasso, apostando na autonomia estratégica para transformar sua riqueza mineral em prosperidade industrial.
