Celular de Vorcaro: O que a PF já extraiu e o que ainda é segredo no Caso Master

A investigação sobre as supostas fraudes no Banco Master, conduzida pela Polícia Federal (PF) sob a relatoria do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), tem um foco central nos dados contidos no celular do controlador da instituição, Daniel Vorcaro. O acesso ao conteúdo deste aparelho é visto como crucial para definir o futuro do inquérito, que apura desde a concessão de créditos falsos até a tentativa de compra da instituição financeira.
O ponto de maior tensão na apuração recente reside na recusa de Vorcaro em fornecer a senha do seu aparelho durante o depoimento prestado à PF e à Procuradoria-Geral da República (PGR) em dezembro de 2025. O banqueiro, que foi ouvido no STF, alegou que o celular continha “relações pessoais e privadas” que ele desejava preservar, apesar da solicitação formal da delegada Janaina Palazzo.
A Extração de Dados e a Recusa do Banqueiro
Apesar da negativa de Vorcaro em colaborar com a liberação da senha, a Polícia Federal informou que possui ferramentas especializadas capazes de tentar romper bloqueios digitais. Relatos indicam que a PF avançou na análise do conteúdo digital de celulares apreendidos na Operação Compliance Zero, que investiga as irregularidades no Master.
- A extração dos dados foi realizada em uma sala de acesso restrito no Instituto Nacional de Criminalística (INC), em Brasília.
- O material digital extraído, incluindo o conteúdo do aparelho de Vorcaro, de familiares e ex-sócios, já foi encaminhado à PGR para análise.
- Os procedimentos adotados visaram a preservação do conteúdo, tratando o celular como uma “cena do crime” para manter a cadeia de custódia.
A recusa em entregar a senha, segundo analistas, não impede tecnicamente o acesso da PF, mas a falta de cooperação pode pesar negativamente para o executivo no desdobramento do caso. Investigadores acreditam que uma colaboração mais ampla, como a liberação de dados em nuvem, poderia ser um fator favorável a Vorcaro.
A Disputa sobre o Foro e o Destino da Investigação
A controvérsia em torno do acesso ao material digital e o sigilo das informações sensíveis é um fator determinante no inquérito. O caso Master, que já envolve a citação de um deputado federal, está sob a jurisdição do STF, conforme decisão do ministro Dias Toffoli, relator do caso. Contudo, a natureza das provas digitais e a possibilidade de desdobramentos em instâncias inferiores geram incerteza sobre a continuidade da competência.
O conteúdo dos aparelhos é considerado fundamental para esclarecer a teia de transações que levou à liquidação do Banco Master. Vorcaro, em seu depoimento, negou a existência das fraudes e afirmou que a liquidação foi indevida, expressando o desejo de “restabelecer a verdade”.
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Contexto: As Investigações Envolvendo o Banco Master
A Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025, é a continuação de investigações que remontam a operações anteriores, como a Operação Fundo Fake de 2020. O cerne da apuração atual gira em torno da concessão de créditos falsos e o uso de uma rede complexa de fundos financeiros para ocultar e transferir recursos da instituição.
Operações com o BRB e Ocultação de Titularidade
Um desdobramento significativo da apuração, baseado em uma auditoria independente contratada pelo Banco de Brasília (BRB), é a suspeita de que Daniel Vorcaro, juntamente com seu ex-sócio Maurício Quadrado e o ex-presidente do conselho da Reag Investimentos, João Carlos Mansur, teriam ocultado a real titularidade de ações do BRB.
A suspeita recai sobre a aquisição de ações do BRB por meio de uma cadeia de fundos administrados pela Reag Investimentos. O objetivo seria mascarar a aquisição feita por pessoas físicas ligadas a Vorcaro, Quadrado e Mansur, atropelando regras de transparência em aumentos de capital do BRB. Esta ciranda financeira estaria ligada à compra de carteiras de crédito consignado fraudulentas pelo Master.
A Preocupação com Relações Políticas
O sigilo do celular de Vorcaro também ganha relevância devido a possíveis conexões políticas. Listas de contatos extraídas do aparelho, em momentos anteriores à recusa da senha, já teriam revelado nomes de alto escalão, incluindo pelo menos três ministros do STF, cinco senadores, cerca de 20 deputados e um governador. Além disso, o caso tocou em uma questão sensível envolvendo o escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes, que teria um contrato com o Master prevendo pagamentos vultosos.
A investigação da PF busca entender como o esquema de desvio de recursos no Master utilizava esses mecanismos financeiros para ocultar patrimônio e beneficiar pessoas ligadas aos investigados. A complexidade do esquema e o envolvimento de figuras proeminentes em diversos setores — financeiro, empresarial e político — tornam o conteúdo do celular um elemento potencialmente explosivo para o futuro do inquérito no STF.
Em suma, enquanto a PF trabalha na análise técnica do material já apreendido, a expectativa do mercado e dos investigadores recai sobre o que mais as mensagens no celular de Vorcaro podem revelar sobre a estrutura de poder e as transações ilícitas que culminaram na crise do Banco Master.
