Montadoras unem forças e alertam Lula contra benefícios da BYD

Os presidentes de quatro das maiores montadoras de veículos estabelecidas no Brasil – Volkswagen, Stellantis, Toyota e General Motors – formalizaram uma oposição direta à possível prorrogação de benefícios fiscais que favoreceram a importação de kits de carros elétricos desmontados, mirando especificamente a estratégia da fabricante chinesa BYD.
A ação se materializou em uma carta enviada ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na qual os executivos buscam impedir a extensão de um regime tributário temporário que zerou o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para kits nos regimes CKD (Completely Knocked Down) e SKD (Semi Knocked Down), válido até 31 de janeiro do ano corrente.
Contexto da Disputa Tributária
O cerne da controvérsia reside na política de incentivos fiscais adotada para fomentar a eletrificação no país. O benefício em questão permitia a importação desses kits com alíquota zero, o que foi crucial para empresas recém-chegadas, como a BYD, que utiliza essa modalidade para iniciar a produção local de forma mais rápida e com custos reduzidos, enquanto suas fábricas definitivas, como a de Camaçari (BA), são finalizadas.
As montadoras tradicionais argumentam que essa política cria uma concorrência desigual e desvirtua o objetivo de fortalecer a indústria nacional. Em sua correspondência, datada de meados de janeiro de 2026, os CEOs afirmam que a medida não é um debate sobre fechar o mercado, mas sim sobre garantir a coerência entre o discurso de apoio à indústria local e os instrumentos de política pública utilizados.
O Risco para a Cadeia Produtiva e Empregos
A principal preocupação levantada pelos líderes empresariais é o impacto negativo na cadeia produtiva brasileira. O uso intensivo dos regimes SKD e CKD, que envolvem a montagem final de veículos com a maior parte dos componentes importados, resulta em menor uso de fornecedores locais e, consequentemente, menor geração de empregos no país.
As estimativas internas das montadoras apontam que a manutenção desse modelo de importação pode levar ao corte de cerca de 5.000 empregos de imediato, com um impacto potencial que poderia chegar a 50.000 postos de trabalho em toda a cadeia automotiva se a tendência se consolidar.
- CKD (Completely Knocked Down): O carro chega totalmente desmontado, exigindo mais etapas de montagem local, como soldagem e pintura.
- SKD (Semi Knocked Down): O veículo vem parcialmente montado, com blocos maiores, exigindo menos etapas produtivas locais.
A carta, assinada por Ciro Possobom (Volkswagen), Herlander Zola (Stellantis), Evandro Maggio (Toyota) e Santiago Chamorro (GM), enfatiza que o modelo atual favorece empresas que não possuem um processo industrial centralizado no Brasil, utilizando o país meramente como ponto de integração de peças.
Veja também:
Desdobramentos e Reações
O benefício fiscal em questão, que vigorou por seis meses, não foi renovado formalmente, e a alíquota zero para importações via CKD/SKD encerrou-se em 31 de janeiro. A partir de 1º de fevereiro, as tarifas voltaram a ser cobradas, com um cronograma de elevação gradual já definido pelo governo para pressionar a nacionalização de componentes.
Para o regime SKD, as taxas já variam entre 25% e 30%, com previsão de atingir 35% em julho de 2026. Para o CKD, a taxa saltará para 35% no início de 2027.
A Posição da BYD
Em contrapartida, a BYD tem defendido a manutenção dos incentivos como fundamentais para viabilizar preços competitivos para veículos elétricos e para o desenvolvimento de novas tecnologias no país. A empresa, que está instalando sua fábrica na Bahia, chegou a classificar a pressão das concorrentes como um “corporativismo da indústria do Sudeste”.
Apesar do fim do benefício temporário, o mercado observa os próximos passos da fabricante chinesa. Há expectativa sobre uma possível nova tentativa de articulação política para reverter ou mitigar o aumento das tarifas, especialmente considerando a presença de executivos ligados à empresa em reuniões ministeriais.
A discussão reflete um momento crucial para a política industrial brasileira, equilibrando a atração de novos investimentos estrangeiros, como os da BYD, com a proteção e a manutenção da base industrial e empregos das montadoras já consolidadas no território nacional.
