China, Rússia e Irã intensificam campanha online contra datacenters de IA dos EUA

China, Rússia e Irã estão engajados em uma coordenada campanha online para minar a expansão de datacenters de inteligência artificial (IA) dos Estados Unidos, tanto em território americano quanto no exterior. A iniciativa, que utiliza desinformação, mídias estatais e operações secretas em redes sociais, visa explorar e aprofundar divisões internas nos EUA sobre os custos e impactos da infraestrutura de IA.
A campanha foi detalhada por análises da empresa de inteligência de risco Alethea e reportada por veículos como o The New York Times e o Estadão. Desde janeiro deste ano, mídias estatais dos três países mencionaram datacenters cerca de 700 vezes, uma média de quase quatro vezes ao dia, com o objetivo de gerar desconfiança e oposição.
Táticas Coordenadas e Alvos Específicos
A campanha de influência emprega uma variedade de táticas sofisticadas, adaptadas para diferentes públicos e plataformas. Os esforços não se concentram apenas em criar novas narrativas, mas principalmente em amplificar e distorcer preocupações legítimas já existentes na sociedade americana.
Atuação da China
- Imagens de Satélite e Narrativas de Ameaça: Veículos da mídia estatal chinesa publicaram imagens de satélite de datacenters nos EUA, como um em Gainesville, Virgínia, alegando que o avanço da inteligência artificial representa uma ameaça ao bem-estar físico e financeiro dos americanos.
- Conteúdo Gerado por IA: Influenciadores chineses utilizaram ferramentas como o ChatGPT da OpenAI para criar quadrinhos que simulavam publicações de veículos de notícias de Maryland, culpando os datacenters pelo aumento exorbitante nas contas de eletricidade. Essas peças foram disseminadas em plataformas como o X (antigo Twitter).
- Foco em Custos e Meio Ambiente: As campanhas chinesas frequentemente destacam o alto consumo de energia e água dos datacenters, bem como seu impacto ambiental e na capacidade da rede elétrica local.
Estratégias da Rússia
- Descredibilização de Projetos no Exterior: Operações de influência russas circularam vídeos em redes sociais questionando a viabilidade de datacenters americanos construídos em outros países. Um exemplo notável é o direcionamento a um datacenter da empresa Firebird em construção na Armênia, alegando que a instabilidade da rede elétrica local o tornaria inútil.
- Amplificação de Críticas Internas: A mídia russa também amplifica as críticas de figuras públicas americanas, incluindo comentaristas conservadores, sobre a proliferação de datacenters, buscando reforçar a narrativa de que a expansão da IA é prejudicial.
Participação do Irã
- Vínculos com Israel e Críticas à Corrida Tecnológica: A mídia estatal iraniana focou em destacar os laços entre empresas americanas de IA e Israel, ao mesmo tempo em que criticava a corrida pelo desenvolvimento tecnológico como imprudente e perigosa.
- Aproveitamento de Temas Antiamericanos: O Irã integra a questão dos datacenters em sua mensagem antiocidental mais ampla, usando-a para fomentar desconfiança nas iniciativas tecnológicas dos EUA.
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Análise da Alethea e Reações Oficiais
A empresa de inteligência de risco Alethea foi fundamental na identificação e documentação dessas campanhas. Sua análise, que rastreou mídias estatais e sociais de janeiro a junho de 2026, revelou a escala e a natureza coordenada dos esforços. O The New York Times, citando a Alethea, descreveu como esses países estão tentando transformar a controvérsia sobre os datacenters de IA em um “ponto de fratura doméstica” nos EUA.
Em resposta às acusações, a embaixada chinesa em Washington negou as alegações, classificando-as como “calúnias completamente infundadas” e sugerindo que EUA e China deveriam cooperar no desenvolvimento e governança da IA.
Contexto de Ameaças Cibernéticas e Desinformação
Essas campanhas online se inserem em um contexto mais amplo de esforços de China, Rússia e Irã para atingir a infraestrutura crítica dos EUA e semear a discórdia. Relatórios da Office of the Director of National Intelligence (ODNI) e de outras agências de segurança dos EUA têm alertado repetidamente sobre as ameaças cibernéticas persistentes e avançadas desses atores estatais.
A exploração de debates sociais e políticos é uma tática comum em operações de influência maligna estrangeira. O objetivo é aprofundar divisões, minar a confiança pública e enfraquecer a coesão interna dos EUA, conforme alertado por especialistas em segurança e oficiais de inteligência.
O uso de IA generativa por esses atores para criar conteúdo de desinformação, como os quadrinhos chineses, demonstra a evolução das táticas de influência, tornando mais difícil distinguir entre conteúdo orgânico e fabricado.
Desdobramentos e Reação Americana
As revelações têm gerado alarme em Washington. O senador republicano Tom Cotton (Arkansas), presidente do Comitê Seleto de Inteligência do Senado, solicitou ao Departamento de Justiça uma investigação sobre os esforços de influência estrangeira que visam a infraestrutura de IA americana.
A preocupação é que, embora existam debates legítimos sobre os datacenters de IA, a interferência estrangeira busca capitalizar essas discussões para fins geopolíticos, potencialmente prejudicando o avanço tecnológico e a segurança nacional dos EUA.
Apesar dos esforços de influência, alguns pesquisadores alertam contra a desconsideração das preocupações locais genuínas sobre os datacenters, como o uso de água, a capacidade da rede e o uso da terra, que são válidas e precisam ser abordadas independentemente da interferência externa.
