Ligga: Sócio Acusa Tanure de Investir R$ 400 Mi no Falido Banco Master

A operadora de telecomunicações Ligga Telecom, antiga Copel Telecom, está no centro de uma grave controvérsia envolvendo alegações de má gestão e aplicação de recursos em um banco liquidado. Um sócio minoritário da empresa, Agnaldo Bastos Lima, por meio da sua empresa SR22 Administradora de Bens e Participações Societárias S.A., notificou extrajudicialmente a Ligga e a controladora BP Participações S.A. (de Nelson Tanure) alegando a existência de “fatos graves” que indicam uma “condução desastrosa dos negócios” da companhia. O cerne da denúncia, divulgada inicialmente pela Tribuna do Paraná, é o suposto direcionamento de cerca de R$ 400 milhões investidos pela Ligga no Banco Master, instituição que teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central (BC) em novembro de 2025.
Contexto da Acusação e Aplicações Financeiras
A notificação extrajudicial aponta que parte significativa dos recursos da Ligga, que deveriam ser aplicados em infraestrutura – finalidade que justificaria incentivos fiscais –, teria sido aplicada no Banco Master. Segundo a SR22, essas aplicações teriam beneficiado também a BP Participações, empresa de Nelson Tanure que detém a maior fatia da Ligga, com 95,87% das ações.
A Polícia Federal (PF) já investiga Nelson Tanure, controlador da Ligga, por possível ligação com o escândalo do Banco Master, que tem como pivô o banqueiro Daniel Vorcaro, investigado na Operação Compliance Zero. Documentos internos da Ligga, analisados pela PF, indicam a alocação de aproximadamente R$ 350 milhões em aplicações financeiras sem liquidez diária, o que levantou sérias suspeitas sobre a saúde financeira da operadora.
Impacto no Rating da Ligga
A falta de liquidez imediata desses ativos foi um fator determinante para que a agência de classificação de risco Moody’s rebaixasse o rating da Ligga de BBB.br para BB-.br, com perspectiva negativa. A agência de risco citou a “opacidade de informação” nos demonstrativos financeiros da empresa como um dos motivos para a deterioração da nota. A investigação da PF busca entender se estruturas societárias ligadas a Tanure foram usadas para capitalizar o Banco Master ou para absorver créditos de difícil recuperação, mascarando a real situação do banco liquidado.
Veja também:
O Escândalo do Banco Master
O Banco Master, sob o controle de Daniel Vorcaro, foi liquidado pelo Banco Central devido a “graves violações” às normas financeiras, sendo um dos maiores escândalos bancários recentes no Brasil. A instituição é suspeita de emissão de títulos sem lastro e de irregularidades contábeis que geraram perdas bilionárias, com um rombo estimado em cerca de R$ 40,6 bilhões a serem ressarcidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para alguns credores.
A crise do Master envolveu uma complexa rede de influências e alegações de gestão fraudulenta, manipulação de balanços e lavagem de dinheiro, culminando na Operação Compliance Zero da PF. O BC vetou uma tentativa de compra do Master pelo BRB (Banco de Brasília), que teria recebido carteiras de crédito inflacionadas.
Conexões e Repercussões Institucionais
O caso Master gerou uma onda de repercussões institucionais, envolvendo até mesmo figuras políticas e do judiciário, com investigações sobre tráfico de influência para evitar a intervenção. O fato de que a Ligga Telecom, adquirida por Tanure em 2020 após a privatização da Copel Telecom, teria investido parte de seus recursos no banco em crise, intensifica o escândalo no âmbito empresarial paranaense.
A Ligga Telecom, em manifestações anteriores, havia afirmado que cumpre suas obrigações e que não possui, atualmente, qualquer aplicação financeira no Banco Master, direta ou indiretamente. Contudo, a notificação do sócio minoritário, que detém 4,13% da operadora, traz à tona a necessidade de potenciais interessados na aquisição da empresa – como a Brasil Tecpar, com quem a Ligga negociava – considerarem esses passivos e responsabilidades.
Desdobramentos para a Ligga
As alegações de desvio de finalidade dos recursos, se confirmadas, podem gerar impactos significativos para investidores e credores da Ligga, além de levantar questões fiscais devido ao uso de incentivos sem a devida aplicação em infraestrutura, conforme sustentam os denunciantes. A empresa controlada por Tanure, que já havia tido seu controlador abordado pela PF, vê agora sua credibilidade e o processo de potencial venda sob intensa pressão devido às novas revelações sobre o investimento no banco falido.
