Ascenty: Energia é o Calcanhar de Aquiles dos Data Centers no Brasil

A expansão acelerada do setor de data centers no Brasil, impulsionada pela demanda crescente por serviços em nuvem e, mais recentemente, por aplicações de Inteligência Artificial (IA), enfrenta um obstáculo crítico: a infraestrutura de energia elétrica. Segundo a Ascenty, uma das líderes brasileiras na construção dessas instalações, a conectividade e a distribuição de eletricidade representam o principal gargalo para o avanço do mercado no país.
Marcos Siqueira, Chief Revenue Officer (CRO) da Ascenty, destacou que, embora o Brasil possua uma geração de energia superior ao seu consumo total, o problema reside na capacidade de distribuição dessa eletricidade para os locais onde os grandes centros de dados estão sendo instalados. “A linha de distribuição [de eletricidade] é o grande gargalo hoje. A gente gera mais energia do que consome, mas não distribui”, afirmou Siqueira.
Otimismo com Incentivos Fiscais e a Realidade da Infraestrutura
Apesar do desafio energético, o setor recebeu um impulso significativo com a aprovação, pela Câmara dos Deputados, do Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center). Este programa visa conceder isenções e descontos em impostos federais sobre a compra de equipamentos necessários para a montagem das estruturas, com o objetivo de tornar o Brasil um polo digital mais competitivo e atrair investimentos, especialmente de big techs. A expectativa da Ascenty é que o Redata acelere a decisão de grandes contratos de montagem de data centers já no primeiro trimestre do ano.
Entretanto, a legislação tributária, que ainda precisa de aprovação no Senado, não resolve a questão da infraestrutura física. Data centers, especialmente os voltados para IA, são consumidores intensivos de energia, exigindo uma carga constante e alta disponibilidade, o que pressiona a rede elétrica existente.
A Demanda Crescente e a Pressão no Sistema Elétrico
O crescimento do setor é notável e coloca o Brasil em destaque globalmente, devido à sua matriz energética majoritariamente limpa e ao espaço físico disponível. Dados recentes indicam que os pedidos de acesso à rede elétrica feitos exclusivamente por projetos de data centers já somam impressionantes 13,2 GW, um volume comparável à capacidade de geração de uma usina do porte de Belo Monte.
As projeções de demanda futura são ainda mais expressivas. Segundo o Ministério de Minas e Energia, os data centers podem demandar mais de 13,4 GW de potência da rede básica até 2038, superando outros setores de uso intensivo de energia, como a indústria e a mineração. A capacidade instalada atual, que era de cerca de 826 MW, tem previsão de saltar para 1.746 MW até o final de 2026, triplicando para 5.312 MW entre 2027 e 2028.
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Desafios Específicos da Conexão de Data Centers
Os data centers diferem de outros grandes consumidores industriais por suas exigências específicas. Eles demandam carga constante, são extremamente sensíveis a variações de tensão e necessitam de altíssimo fator de disponibilidade e segurança energética. Isso implica a necessidade não apenas de grande volume de energia, mas também de uma infraestrutura de transmissão e distribuição de qualidade superior e redundância operacional.
Concentração Regional e Tempos de Expansão
A maior parte dessa demanda concentrada está nas regiões Sudeste e Sul do país, onde se localizam os principais polos tecnológicos e a maior parte das rotas de dados. O problema estrutural é agravado pelo tempo necessário para expandir a rede de transmissão. Enquanto um data center pode ser instalado em um período relativamente curto, a construção de novas subestações e linhas de transmissão pode levar de quatro a cinco anos, o que é o dobro do tempo de implementação do próprio centro de dados.
Especialistas apontam que a expansão da rede básica está lenta em relação ao crescimento da demanda do setor, o que exige que os projetos busquem soluções como o Ambiente de Contratação Livre (ACL) para viabilizar o fornecimento, ou até mesmo soluções de autoprodução e compra de energia renovável rastreável.
O Papel da IA e a Necessidade de Soluções Inovadoras
A ascensão dos data centers de IA, que são maiores e consomem muito mais energia para o processamento e refrigeração, intensifica a pressão. Um único projeto de IA pode demandar uma potência de milhares de megawatts, o equivalente ao consumo de milhões de residências.
Para mitigar o impacto, há sugestões de abordagens regulatórias e tarifárias inovadoras. Entre elas, estão a implementação de tarifação dinâmica, que ofereceria energia mais barata em horários de menor demanda (como pela manhã), permitindo que o consumo dos data centers se desloque, abrindo espaço na rede durante os picos residenciais.
A Ascenty, reconhecendo a importância de ter terrenos com infraestrutura já estabelecida, afirma ter antecipado a questão em alguns de seus projetos em São Paulo. Contudo, a empresa reconhece que, para novos empreendimentos, o desafio da conexão elétrica permanece como o fator decisivo que pode moldar o ritmo de crescimento do setor digital brasileiro nos próximos anos.
