Fictor em RJ: Dívida de R$ 4,2 Bi e 13 Mil Credores Próximos da Americanas

O Grupo Fictor, que recentemente tentou adquirir o Banco Master, protocolou pedido de recuperação judicial (RJ) no Tribunal de Justiça de São Paulo, revelando uma dívida que atinge cerca de R$ 4,2 bilhões e um corpo de credores que soma pelo menos 13.041 nomes. Este número de credores aproxima a complexidade do caso ao da recuperação judicial das Lojas Americanas, que envolveu 16.300 fornecedores e clientes, embora ainda distante do processo da Oi, com mais de 66 mil credores.
Contexto da Crise: A Tentativa de Compra do Banco Master
A crise de liquidez que levou a Fictor Holding S/A e Fictor Invest Ltda. a buscarem a proteção judicial foi diretamente ligada à sua ambiciosa proposta de compra do Banco Master. Em 17 de novembro do ano passado, na véspera da intervenção regulatória, a Fictor anunciou a oferta para adquirir o Master, em uma operação que envolveria fundos não identificados dos Emirados Árabes Unidos.
No entanto, no dia seguinte ao anúncio, o Banco Central (BC) decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, instituição ligada a Daniel Vorcaro. Este evento gerou um severo abalo de confiança no mercado em relação ao Grupo Fictor. Segundo o advogado responsável pelo processo de RJ da Fictor, Carlos Deneszczuk, a consequência imediata foi uma corrida aos saques por parte dos investidores.
Corrida de Saques e Drenagem de Liquidez
Desde a liquidação do Master, os clientes do Grupo Fictor solicitaram a retirada de uma parcela significativa de seus investimentos. O volume de resgates atingiu quase R$ 2 bilhões, representando aproximadamente 70% do total aportado na empresa até o final de janeiro. A Fictor captava recursos majoritariamente por meio de Sociedades em Conta de Participação (SCPs), estruturas que prometiam rentabilidades elevadas, por vezes próximas de 2% ao mês, para investir em negócios.
A crise de liquidez resultante afetou diretamente os pagamentos de dividendos previstos para os sócios dessas SCPs. É importante notar que esses investimentos não contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o que aumenta o risco de perda para os investidores, uma situação comparada àquela enfrentada pelos credores do próprio Banco Master.
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Detalhes do Pedido de Recuperação Judicial
O pedido de RJ, protocolado na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo, foi aceito pelo juiz, que concedeu a antecipação dos efeitos da recuperação (stay period) por 30 dias, suspendendo execuções movidas contra as empresas e visando preservar a continuidade das atividades.
A dívida total listada no pedido, que se estende por 122 páginas na documentação, soma R$ 4,2 bilhões. A empresa declarou a intenção de propor um plano de pagamento sem descontos, com um prazo máximo de até cinco anos para a quitação dos valores devidos.
Contestações na Lista de Credores
A relação inicial de credores apresentada pela Fictor já se mostrou controversa. Entre os nomes listados com valores substanciais estavam a Sefer Investimentos DTVM, com R$ 430 milhões, e a American Express, com R$ 893 milhões. Contudo, ambas as instituições negaram publicamente serem credoras da Fictor.
A Sefer, em nota, alegou atuar estritamente como gestora/administradora de clientes terceiros. A Fictor, em sua defesa, justificou a dívida com a Sefer pela aquisição de parte de um Fundo de Direitos Creditórios (FIDC) chamado Krispy, que seria administrado pela Sefer em nome da Master Holding (holding offshore de Daniel Vorcaro). A American Express também contestou a inclusão de seu nome na lista.
Diante das contestações, o juiz determinou que a Fictor apresente, em até cinco dias, a relação nominal atualizada e a classificação correta de cada crédito, buscando sanar as inconsistências.
Organização dos Credores e Impacto Social
A dimensão do impacto financeiro motivou a organização dos investidores prejudicados. Foi lançada a Associação de Credores da Fictor Invest (ACFictor), que visa coordenar a defesa dos direitos dos mais de 13 mil credores.
A associação destaca que a maior parte dos credores, 11.549 são pessoas físicas, com créditos somando aproximadamente R$ 2,54 bilhões. A ACFictor argumenta que o caso pode ter um impacto social superior ao da liquidação do Master, dado o grande número de indivíduos afetados e a ausência de proteção do FGC.
Além dos investidores individuais, a lista de credores inclui entidades notáveis, como o Palmeiras, que rescindiu o contrato de patrocínio com a empresa após o pedido de RJ. O clube estaria listado com um crédito de R$ 2,6 milhões, apesar de um acordo de patrocínio anual de R$ 25 milhões.
Próximos Passos
Com a antecipação dos efeitos da RJ, a Fictor ganha tempo para apresentar seu plano de reestruturação formal à Justiça e aos credores. A complexidade do caso, marcada pela disputa sobre a real composição da dívida e a natureza dos investimentos (SCPs), indica que as negociações e a definição do passivo serão etapas cruciais e potencialmente longas no processo judicial.
