Fictor em RJ: Vorcaro Confirma Ser Credor por Venda de Precatórios

O empresário Daniel Vorcaro, controlador do extinto Banco Master, confirmou ser credor do Grupo Fictor, que recentemente entrou com pedido de recuperação judicial (RJ), em decorrência de uma negociação envolvendo a venda de precatórios. A informação surge em meio ao turbilhão jurídico e financeiro que envolve tanto a Fictor, com dívidas declaradas de cerca de R$ 4 bilhões, quanto o próprio Master, que foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central (BC).
A complexa relação entre as entidades ganhou maior visibilidade após a Operação Compliance Zero da Polícia Federal e a subsequente crise de liquidez que atingiu a Fictor, a qual havia anunciado a intenção de comprar o Banco Master dias antes de sua liquidação.
O Contexto da Crise e a Recuperação Judicial da Fictor
O Grupo Fictor protocolou seu pedido de recuperação judicial em São Paulo, alegando que a liquidação do Banco Master, decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, um dia após o anúncio da aquisição, atingiu severamente sua reputação e liquidez. A holding afirmou que especulações de mercado geraram um volume massivo de notícias negativas, resultando em uma corrida de investidores para sacar recursos.
Segundo a própria Fictor, os saques após o anúncio da crise do Master foram expressivos, com investidores retirando cerca de 70% dos valores aplicados na empresa até o final de janeiro. Com um passivo que ultrapassa os R$ 4 bilhões, a Fictor busca uma solução coletiva para seus débitos, propondo o pagamento das dívidas sem descontos, com prazos de reembolso que podem chegar a cinco anos.
Para proteger seus ativos durante o processo, o grupo solicitou a antecipação dos efeitos da recuperação judicial, visando impedir execuções e bloqueios de bens por um período inicial de 180 dias, enquanto a Justiça analisa a viabilidade do plano.
A Conexão com Precatórios e a Titan Capital Holding
O ponto central da notícia, que liga Vorcaro à Fictor como credor, reside em transações anteriores, notadamente a mencionada venda de precatórios. Precatórios são ordens judiciais de pagamento de quantias devidas pelo poder público após condenação definitiva.
Ainda no contexto da crise, investigações apontaram que o Grupo Fictor transferiu R$ 30 milhões para a offshore Titan Capital Holding, empresa de Daniel Vorcaro sediada nas Ilhas Cayman, menos de um mês antes de anunciar a compra do Banco Master. A Titan Holding é descrita no mercado como uma “holding ostentação” e abriga investimentos pessoais de Vorcaro.
A transação de R$ 30 milhões é vista com suspeita pelas autoridades, dada a proximidade com a crise do Master e o fato de que a Sefer Investimentos, segunda maior credora da Fictor no pedido de RJ (com R$ 430 milhões a receber), possui conexões com a Titan Holding nos registros da Receita Federal.
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A Versão de Daniel Vorcaro
Em depoimento à Polícia Federal, Daniel Vorcaro afirmou que os termos para a venda do Banco Master para o Grupo Fictor, em conjunto com investidores estrangeiros, já estavam acertados e faltavam apenas as assinaturas. Ele descreveu o desfecho como um “final feliz” para o sistema financeiro, que teria sido interrompido pela deflagração da Operação Compliance Zero e sua prisão em dezembro de 2025, quando tentava embarcar para os Emirados Árabes Unidos.
Vorcaro negou a tese de fuga, alegando que estava em Dubai tratando dos termos da compra do WillBank (parte do seu grupo) pelo fundo árabe Mubadala, que seria concretizada no mesmo dia da sua prisão. A defesa do empresário sustenta que a estruturação da Titan no exterior fazia parte de um projeto de reorganização societária legal para atrair capital internacional.
O Passado do Master e a Venda de Ativos
A crise do Master e as subsequentes vendas de ativos por Vorcaro antecedem a situação atual. O Banco Master, conhecido por oferecer CDBs a taxas muito acima do mercado, acumulou um grande volume de ativos, incluindo carteiras de precatórios, que foram objeto de diversas movimentações financeiras.
Em agosto de 2025, antes da crise explodir, Vorcaro já havia colocado à venda um novo conjunto de ativos, que incluía precatórios, a seguradora Kovr e ações de empresas, com a venda já em execução, segundo fontes da época. Um negócio anterior, fechado em maio de 2025 com o BTG Pactual, envolveu ativos no valor de cerca de R$ 1,5 bilhão, incluindo participações em Light e Méliuz.
A complexidade do caso se aprofunda nas investigações que buscam entender a origem dos recursos e a gestão do Master, que teria recebido 18 ofícios de alerta do Banco Central sobre suas práticas de gestão antes da liquidação. A conexão entre a Fictor, a venda de precatórios e a Titan Holding de Vorcaro sugere que a dívida da Fictor pode incluir obrigações decorrentes dessas transações de crédito, estabelecendo Vorcaro como um dos credores a serem endereçados no processo de recuperação judicial.
