Fim da Isenção: Carro Chinês Montado no Brasil Volta a Pagar Imposto

O regime especial que concedia isenção do Imposto de Importação para veículos elétricos e híbridos importados em regime de kits desmontados (SKD e CKD) no Brasil chegou ao fim em 31 de janeiro de 2026, marcando uma vitória para as montadoras tradicionais representadas pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). A decisão do governo federal de não prorrogar o benefício resulta na retomada da tributação sobre os veículos de marcas chinesas, como a BYD, que utilizavam essa modalidade para reduzir custos de produção local.
A notícia, inicialmente reportada pela colunista Paula Gama, indica que o fim da isenção, que vigorou por seis meses a partir de agosto de 2025, significa o retorno da cobrança de impostos sobre os kits, impactando diretamente o preço final dos modelos eletrificados montados no país.
Contexto do Incentivo Fiscal e Pressão da Anfavea
O benefício tributário foi instituído pelo governo federal em 2025 como uma estratégia para atrair investimentos e acelerar a eletrificação da frota brasileira, concedendo isenção do imposto de importação para veículos eletrificados desmontados, dentro de uma cota global de US$ 463 milhões.
As principais beneficiárias foram montadoras chinesas que estavam em fase inicial de implantação de fábricas no Brasil, como a BYD, que assumiu a antiga planta da Ford em Camaçari (BA), e a GWM, em Iracemápolis (SP).
No entanto, a manutenção desse regime gerou forte reação da Anfavea, entidade que representa as montadoras já estabelecidas no país. A associação argumentava que o incentivo, ao permitir a montagem simplificada de veículos quase prontos (SKD/CKD), prejudicava a cadeia produtiva nacional, gerava baixa agregação de valor local e ameaçava empregos.
Os Argumentos da Indústria Tradicional
A Anfavea utilizou estudos para embasar sua pressão, sugerindo que a continuidade dos incentivos poderia colocar em risco até 69 mil empregos diretos no setor e gerar perdas estimadas em R$ 103 bilhões em produção e arrecadação, caso o modelo de montagem com baixa nacionalização persistisse.
O presidente da Anfavea, Igor Calvet, classificou o modelo como uma ameaça à indústria quando aplicado em alto volume sem contrapartidas robustas de industrialização local.
Veja também:
O Novo Cenário Tributário para Veículos Montados
Com o fim da isenção em 1º de fevereiro, as tarifas voltaram a ser aplicadas conforme o cronograma de recomposição tributária previamente definido pelo governo.
- Kits CKD (Completamente Desmontados): A alíquota do Imposto de Importação, que era zero, passou a ser de 16% para os kits CKD.
- Kits SKD (Semidesmontados): A alíquota para kits SKD subiu para 18%.
É importante notar que este é apenas o primeiro passo na recomposição. A previsão oficial é que a tributação sobre os veículos montados via kits continue a subir gradualmente, com a meta de atingir a alíquota plena de 35% para os veículos eletrificados desmontados até janeiro de 2027.
Reação das Montadoras Chinesas
Apesar da expectativa de algumas partes do mercado de que o benefício pudesse ser prorrogado, as empresas chinesas não formalizaram um pedido de extensão do regime. A BYD, em particular, vinha acelerando a consolidação de sua operação em Camaçari, visando a transição para um processo industrial mais completo, incluindo solda, pintura e estamparia, no segundo semestre de 2026.
O encontro do vice-presidente da BYD no Brasil, Tyler Li, com o vice-presidente Geraldo Alckmin, ocorreu dias após o fim da isenção, em meio a discussões sobre a flexibilização do regime fiscal.
Impacto no Mercado
O incentivo temporário havia estimulado as montadoras chinesas a reforçarem seus estoques no segundo semestre de 2025. Dados indicam que o Brasil importou 322,1 mil veículos da China em 2025, mas apenas 187 mil foram emplacados, segundo a Anfavea.
Apesar do aumento da carga tributária, analistas sugerem que os carros chineses podem manter sua competitividade devido a diferenciais de produto e tecnologia, embora o custo final deva ser reajustado.
A decisão do governo de manter o cronograma de tributação representa uma vitória das montadoras tradicionais, que defendem um ambiente de concorrência mais equitativo com maior valor agregado local, e sinaliza o endurecimento das regras para a entrada de veículos estrangeiros montados em regime simplificado no mercado brasileiro. O setor automotivo agora aguarda os próximos passos das empresas chinesas diante do novo custo de importação de seus kits de montagem.
