Guerra dos Chips: Onde o Brasil se encaixa na disputa EUA x China?

A disputa geopolítica e econômica pela supremacia tecnológica, centrada na produção de semicondutores, colocou os Estados Unidos e a China no centro de uma corrida trilionária. Os chips, componentes cruciais para tudo, desde smartphones e carros elétricos até sistemas de defesa e a infraestrutura de Inteligência Artificial (IA), tornaram-se o recurso estratégico central do século XXI. Diante deste cenário de alta tensão, surge a questão fundamental: qual é o papel e a posição do Brasil nesta nova configuração global de poder tecnológico?
A análise do tema, amplamente discutida a partir do livro “A Guerra dos Chips” do historiador Chris Miller, aponta que a cadeia de produção de semicondutores é altamente especializada e dominada por poucos atores, notadamente Taiwan, Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul. A China, apesar de seus vastos investimentos, enfrenta dificuldades em produzir a tecnologia mais avançada sozinha, o que gera um ponto de vulnerabilidade estratégica e um foco de tensão com os EUA.
A Estrutura da Corrida Global por Semicondutores
A guerra dos chips não se limita apenas à fabricação física dos componentes, mas abrange todo o ecossistema, incluindo o design, o fornecimento de equipamentos de ponta e os minerais críticos necessários para a produção. Os Estados Unidos têm implementado restrições rigorosas à exportação de tecnologia de chips para a China, visando frear seu avanço militar e tecnológico, o que gera incertezas no comércio internacional. Países como Holanda e Japão já cederam à pressão americana para restringir a exportação de maquinários essenciais para a fabricação de semicondutores avançados.
O epicentro dessa disputa é, em grande parte, Taiwan, lar da TSMC, a gigante de semicondutores que, segundo estimativas, deve produzir chips de IA em uma escala muito superior à da indústria chinesa. A importância estratégica de Taiwan é tamanha que o historiador Chris Miller expressa preocupação com um possível avanço militar chinês sobre a ilha, o que desestabilizaria permanentemente o fornecimento global de tecnologia de ponta.
O Foco na Inteligência Artificial
A ascensão meteórica da Inteligência Artificial, especialmente após o surgimento de ferramentas como o ChatGPT, apenas amplificou a relevância dos semicondutores, que são o motor invisível por trás de cada inovação em IA. A infraestrutura de IA tem recebido investimentos desproporcionais, aumentando a distância entre as nações que a produzem e as que dependem dela.
Para países emergentes, o acesso aos chips e até mesmo aos modelos de IA não será o principal obstáculo, visto que muitos modelos se tornam abertos e gratuitos. O verdadeiro desafio, conforme aponta Miller, reside na capacidade de reinvenção de processos. “Implantar e utilizar a IA exige mudar a forma como empresas, organizações e governos fazem negócios”, afirma o especialista. É dessa transformação operacional que surgirão os ganhos de produtividade, novos mercados e capacidades reais.
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O Posicionamento Estratégico do Brasil
O Brasil se encontra em uma posição que pode ser considerada interessante, especialmente devido à sua vasta reserva de minerais críticos, essenciais para a cadeia de suprimentos de semicondutores e baterias. O país importa cerca de 92% dos semicondutores que consome, o que evidencia uma grande vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de inserção na cadeia produtiva global.
O governo brasileiro tem demonstrado interesse em fortalecer a microeletrônica nacional, com iniciativas como o Plano Brasil de Semicondutores, que visa aumentar a participação do país no mercado global de chips. Além disso, o país tem sido visto como um potencial parceiro na estratégia norte-americana de nearshoring, que busca deslocar etapas da produção para áreas geograficamente mais próximas dos EUA.
Oportunidades e Desafios Nacionais
Embora o Brasil não deva se tornar um produtor mundial de chips avançados no curto prazo — dada a altíssima barreira de entrada e a necessidade de investimentos massivos —, existem nichos viáveis para a inserção na cadeia de valor. Especialistas apontam oportunidades em áreas como design fabless (projetar chips sem fabricá-los), OSAT/encapsulamento (etapas finais de montagem e teste) e na produção de nós maduros, como chips analógicos e sensores.
A atração de data centers, facilitada pela energia relativamente barata no país, é um ponto positivo para a infraestrutura de IA. Contudo, o desafio é transformar essa vantagem de infraestrutura em capacidade tecnológica própria. Isso exige um foco estratégico em pesquisa e desenvolvimento (P&D), formação e retenção de talentos especializados, e a atração de operações que agreguem valor além da mera hospedagem de dados.
A resiliência digital do país depende diretamente da sua capacidade de se inserir de forma inteligente nesta cadeia. A produção local, mesmo que focada em nichos, garante soberania e segurança tecnológica, sendo essencial para a expansão de tecnologias emergentes como IoT e 5G. A clareza na política de Estado, com incentivos fiscais e governança executiva bem definida, é vista como um fator determinante para que o Brasil consiga aproveitar a nova corrida trilionária dos chips, transformando minerais em valor agregado tecnológico.
