Investigação Privada BRB: Como Funciona a Auditoria que Encontrou ‘Achados Relevantes’

O Banco de Brasília (BRB) contratou uma investigação privada para apurar supostas irregularidades relacionadas à compra de carteiras de crédito do Banco Master. Este tipo de apuração, conduzida por escritórios especializados como o Machado & Meyer, com suporte técnico de empresas como a Kroll, visa fornecer subsídios para autoridades como a Polícia Federal (PF) em investigações criminais e regulatórias.
A matéria jornalística que motivou este artigo, publicada originalmente no Valor Econômico, buscou explicar o funcionamento dessas investigações independentes no contexto de grandes fraudes financeiras, como a que envolve o Banco Master. Especialistas em Compliance indicam que o processo não se resume à entrega de um relatório final com surpresas, mas sim a um consolidador do que foi sendo apontado em etapas parciais.
O Contexto da Investigação: O Caso Banco Master e o BRB
A investigação privada do BRB está diretamente ligada ao escândalo envolvendo o Banco Master, acusado de orquestrar uma possível fraude bancária massiva. O BRB, banco estatal controlado pelo Governo do Distrito Federal, se envolveu na trama ao adquirir carteiras de crédito do Master.
As investigações da Polícia Federal, que foram ampliadas com a autorização do STF, apontam que o Banco Master teria vendido ao BRB cerca de R$ 12 bilhões em carteiras de crédito que, segundo as apurações, eram inexistentes ou não possuíam as devidas garantias. O prejuízo potencial estimado para o BRB nessas operações pode chegar a R$ 5 bilhões.
O BRB confirmou ter encontrado “achados relevantes” durante a primeira etapa do relatório preliminar entregue pela investigação independente, e essas informações foram comunicadas às autoridades, incluindo a PF e o Banco Central.
Objetivos da Auditoria Privada do BRB
A contratação de uma investigação privada por uma instituição financeira como o BRB, em um cenário de suspeita de fraude, possui objetivos claros e estratégicos:
- Resguardo de Interesses: Proteger os interesses do banco diante dos prejuízos causados pelas transações questionadas.
- Recuperação de Ativos: Mapear e auxiliar na tentativa de recuperar créditos e ativos adquiridos de forma irregular.
- Subsídio para Autoridades: Coletar evidências e consolidar um dossiê técnico que possa ser utilizado em investigações conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público.
- Análise Interna: Verificar falhas nos mecanismos internos de governança, análise de risco e aprovação de negócios que permitiram a concretização das operações bilionárias.
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Como Funciona uma Investigação Privada de Grande Porte
Uma investigação privada de natureza corporativa ou financeira, como a realizada no caso do BRB, difere da atuação de um detetive particular em casos pessoais, mas compartilha a necessidade de discrição e rigor técnico.
Etapas e Metodologia
O processo geralmente segue uma metodologia rigorosa, focada na coleta e análise de dados financeiros e documentais, e não apenas na vigilância de pessoas. As etapas cruciais incluem:
- Coleta de Informações e Due Diligence Reversa: Reunião minuciosa de todos os documentos relacionados à transação, como contratos, registros de ativos, garantias e comunicações internas. No caso do BRB, a investigação buscou a documentação dos devedores das carteiras compradas do Master, registros que, segundo as apurações, não foram apresentados.
- Planejamento Estratégico: Definição das estratégias de auditoria e dos recursos técnicos necessários para rastrear o fluxo de capital e a titularidade dos ativos. Empresas de suporte técnico, como a Kroll, entram com expertise forense digital e financeira.
- Análise de Dados e Compliance: Análise aprofundada dos dados coletados para identificar padrões, desvios contábeis e violações de normas de compliance. O foco é determinar se houve, de fato, gestão fraudulenta ou negligência.
- Elaboração de Relatórios Parciais e Finais: A entrega de relatórios não é um evento único. O escritório de advocacia (como o Machado & Meyer) consolida os achados em documentos que são apresentados periodicamente às partes interessadas (o cliente BRB) e, subsequentemente, às autoridades competentes.
Diferenças Cruciais em Relação à Polícia
Enquanto a Polícia Federal conduz a investigação criminal, a investigação privada atua em paralelo, com foco na perspectiva do cliente (o BRB) e com maior liberdade operacional em certas áreas. O profissional privado não está sujeito às burocracias judiciais exigidas para as autoridades policiais, podendo focar na recuperação de provas e na análise de documentos internos com agilidade.
Contudo, é fundamental que a investigação privada se mantenha dentro dos limites legais, respeitando o direito à privacidade e a legalidade dos procedimentos adotados, utilizando fontes éticas e legais.
Repercussões e Desdobramentos no BRB
A investigação privada é um reflexo das consequências da tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB, operação que foi vetada pelo Banco Central em 2025. A crise deflagrada levou ao afastamento e posterior demissão do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, em novembro de 2025, evidenciando a gravidade das falhas de governança identificadas.
O BRB, ao contratar a auditoria, busca não apenas entender o que aconteceu, mas também justificar as medidas administrativas e judiciais que está tomando para reaver os valores perdidos e resguardar o banco, que afirmou estar “estável financeiramente”, embora aguardando um aporte do Governo do Distrito Federal para cobrir os prejuízos.
A atuação da investigação privada, ao fornecer os “achados relevantes”, é crucial para o desdobramento do caso no âmbito federal, servindo como base técnica para a continuidade das apurações da PF sobre a suspeita de gestão fraudulenta no Banco de Brasília.
