Lula Avança: Mello e Cavalcanti no BC, Apesar de Mercado Resistir

O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encaminha para confirmar as indicações dos economistas Guilherme Mello e Tiago Cavalcanti para diretorias do Banco Central (BC), conforme fontes que acompanham as negociações. As nomeações, sugeridas pelo Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, enfrentam resistência e apreensão no mercado financeiro, que teme sinais ambíguos na condução da política monetária.
Guilherme Mello, que atualmente ocupa o cargo de Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, é cotado para a Diretoria de Política Econômica do BC. Tiago Cavalcanti, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e membro do Trinity College da Universidade de Cambridge, seria o indicado para a Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução.
Contexto das Indicações e Repercussão Inicial
A notícia sobre as indicações ganhou força após o próprio Ministro Haddad confirmar publicamente que havia apresentado os nomes a Lula há cerca de três meses. Haddad fez a revelação em entrevista, ressaltando o currículo de ambos os economistas, mas admitiu que o Presidente ainda estava em fase de coleta de sugestões e não havia convidado formalmente ninguém até o momento da declaração. Segundo o Ministro, o vazamento da informação para a imprensa teria atrapalhado o processo de decisão.
A reação do mercado financeiro à possível nomeação de Guilherme Mello foi particularmente negativa. Investidores demonstraram preocupação, pois Mello é visto como um economista com um perfil mais desenvolvimentista e alinhado a visões que podem favorecer um ciclo de cortes de juros mais rápidos. Essa perspectiva gerou um aumento imediato na curva longa de juros, um indicador de desconfiança em relação à manutenção da ortodoxia monetária.
Perfis dos Indicados
Os dois economistas possuem trajetórias acadêmicas e profissionais de destaque, mas suas orientações ideológicas geram debates no cenário econômico:
- Guilherme Mello: Além de Secretário de Política Econômica, Mello tem histórico de envolvimento com a elaboração do plano econômico da campanha de Lula em 2022. Embora seja considerado um economista próximo a Haddad e visto por alguns como um “independente” dentro do partido, sua ligação com o PT e sua defesa de certas teses econômicas levantam alertas no setor financeiro.
- Tiago Cavalcanti: Professor de Cambridge e da FGV, Cavalcanti também possui um histórico de envolvimento com a política, tendo participado de campanhas presidenciais anteriores, embora não diretamente ligadas ao PT. Sua indicação para a diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução também será submetida ao crivo do mercado e do Senado.
As vagas em questão foram abertas em dezembro, com o término dos mandatos de Diogo Guillen (Diretoria de Política Econômica) e Renato Gomes (Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução). Caso confirmados, Mello e Cavalcanti teriam mandatos até o final de 2029.
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A Dinâmica de Poder e a Autoridade do BC
A definição dos novos diretores é um ponto crucial na dinâmica de poder entre o Ministério da Fazenda e a cúpula do Banco Central, liderada pelo presidente Gabriel Galípolo. Relatos indicam que a indicação de Mello, em particular, gerou um novo foco de atrito entre Haddad e Galípolo. Embora Galípolo mantenha um bom relacionamento com Mello, ele teria expressado preocupação de que o momento não é adequado para enviar mensagens ambíguas ao mercado, especialmente com o BC prestes a iniciar um ciclo de cortes na taxa Selic.
O Presidente Lula, por sua vez, é descrito como zeloso na escolha de nomes com mandato, pois diretores nomeados não podem ser demitidos pelo Executivo da mesma forma que um secretário nacional. A decisão final, portanto, é de alta relevância estratégica para o governo e para a política econômica dos próximos anos.
O Ministro Haddad, que anunciou sua saída do cargo no final de fevereiro, parece estar utilizando essas indicações como parte de sua negociação política com o Presidente Lula sobre seu próprio futuro e o alinhamento da equipe econômica. A expectativa é que, antes do anúncio formal, Lula convoque reuniões para deliberar sobre as sugestões recebidas, incluindo as de outros interlocutores.
Oposição e Defesa das Escolhas
A resistência do mercado foi acompanhada por críticas de analistas, que apontaram a possível indicação de Mello como um fator de risco para a governança da política monetária. Em contrapartida, houve manifestações de apoio às escolhas. O economista Eduardo Moreira, por exemplo, criticou a reação da imprensa, classificando-a como um “ataque coordenado” e ironizando a preocupação com a interferência política, dado o histórico de outros nomes no cenário político.
Enquanto o mercado sinaliza cautela, a tendência é que o Palácio do Planalto siga com as indicações que consolidem a visão econômica defendida pela equipe da Fazenda, cabendo ao Senado Federal a etapa final de aprovação dos nomes para que Mello e Cavalcanti assumam efetivamente suas cadeiras na autoridade monetária.
