Maradona Recriado por IA em Anúncio de Apostas Gera Polêmica na Argentina

A Argentina vive um intenso debate ético e legal após a veiculação de uma propaganda da casa de apostas BetWarrior que utiliza inteligência artificial (IA) para recriar a imagem e a voz de Diego Armando Maradona. O comercial, exibido durante os intervalos dos jogos da Copa do Mundo de 2026, gerou forte rejeição entre torcedores e na imprensa argentina, levantando questionamentos sobre a dignidade do ídolo e a exploração comercial de figuras falecidas.
A controvérsia se aprofunda pela natureza do produto promovido — apostas esportivas — e pela mensagem atribuída ao ex-jogador, que em vida lutou contra vícios e frequentemente aconselhava jovens a priorizar o esporte e a saúde.
O Anúncio e a Reação Pública
No comercial da BetWarrior, patrocinadora oficial da seleção argentina, um Maradona rejuvenescido, vestindo a icônica camisa da Copa do Mundo de 1986, profere uma frase de forte conotação nacionalista e um tanto vulgar: “Se o mundo quiser vir cortar nossas pernas, vamos mostrar que aqui se joga com colhões!”. A peça publicitária busca vincular bravura, nacionalismo e masculinidade às apostas online, o que rapidamente provocou uma enxurrada de críticas nas redes sociais e na mídia.
Muitos admiradores de Maradona consideraram a propaganda uma “falta de respeito total à sua memória”, argumentando que o ex-jogador jamais promoveria apostas em vida. A frase em si foi alvo de repúdio pela sua vulgaridade e pela forma como distorce a imagem de um ícone que, apesar de sua vida controversa, era um símbolo de paixão pelo futebol e superação para milhões.
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Autorização Familiar e o Vazio Legal
Apesar da polêmica, o advogado Fernando Burlando, representante de Dalma e Gianinna Maradona, confirmou que o uso da imagem foi autorizado pela família do craque. No entanto, essa autorização não foi unânime entre os herdeiros, e a decisão foi tomada de forma democrática, embora nem todos estivessem de acordo. A família de Maradona, que faleceu em 2020, ainda mantém litígios judiciais sobre a titularidade das marcas comerciais ligadas ao ex-jogador.
O caso expõe um vácuo na legislação argentina. Atualmente, não existe uma lei específica para regular o uso de clones digitais de pessoas falecidas. O uso da imagem post mortem é regido de forma fragmentária pelo artigo 31 da Lei 11.723, que exige o consentimento de familiares para a comercialização de retratos, e pelos artigos 51, 52, 53 e 55 do Código Civil e Comercial, que tratam dos direitos personalíssimos à imagem, voz, identidade e dignidade.
Dilemas Éticos e o Direito à Identidade Digital Pós-Morte
Especialistas em direito digital e inteligência artificial destacam que, embora o consentimento familiar possa legitimar o uso patrimonial da imagem, ele não é suficiente para abarcar a dimensão ética e simbólica. Juan Gustavo Corvalán, diretor do Laboratório de Inovação e Inteligência Artificial da Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires, argumenta que Maradona não era apenas um cidadão, mas um “emblema, um símbolo afetivo, cultural e popular”. Para Corvalán, o consentimento é uma condição necessária, mas não suficiente, pois “não habilita qualquer uso” e não deveria absorver completamente a dignidade, identidade e memória da pessoa falecida.
A discussão levanta a questão de um possível “direito à identidade digital depois da morte”, algo para o qual as leis ainda precisam se adaptar diante do avanço das tecnologias de IA, que permitem recreações ultrarrealistas. O debate não se limita ao direito autoral ou de imagem, mas envolve questões de manipulação emocional e a preservação da memória coletiva de figuras públicas.
Preocupação Social: Ludopatia Juvenil
A polêmica é intensificada pelo contexto social da Argentina, onde a ludopatia juvenil é uma preocupação crescente. De acordo com relatórios recentes do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), um em cada quatro adolescentes no país já apostou online, apesar de a atividade ser proibida para menores de 18 anos. Críticos ressaltam que associar Maradona, um ídolo com grande influência sobre os jovens, a jogos de azar é particularmente perigoso e desrespeitoso com seu legado.
A aceitação pública de outras recreações digitais, como o holograma de Gustavo Cerati em espetáculos musicais, sugere que a questão central não é a tecnologia de IA em si, mas sim o propósito e a mensagem da publicidade. A promoção de apostas, especialmente com uma linguagem considerada vulgar, é o que gerou a maior parte da indignação.
Desdobramentos e o Debate Global
O caso de Maradona se insere em um debate global sobre o uso de IA para reviver figuras falecidas. No Brasil, por exemplo, o comercial da Volkswagen que recriou Elis Regina em um dueto com sua filha Maria Rita também gerou discussões éticas. Há propostas legislativas, como o PL 3.608/23 no Senado Federal, que buscam estabelecer diretrizes para o uso de imagens e áudios de pessoas falecidas por meio de IA, exigindo consentimento prévio em vida ou dos familiares mais próximos para preservar a dignidade e os direitos dos indivíduos. Ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ) já sugeriram que a autorização para o uso de IA pós-morte deveria ser concedida pela pessoa ainda em vida.
A polêmica em torno do Maradona de IA serve como um lembrete da necessidade urgente de marcos regulatórios e discussões éticas aprofundadas sobre os limites da tecnologia e o respeito à memória e identidade de personalidades após a morte, especialmente em um cenário de rápida evolução da inteligência artificial.
