Rede de Lojas Abandona 6×1; Brasília Discute Fim da Escala

Enquanto o debate sobre o fim da jornada de trabalho em escala 6×1 avança no Congresso Nacional, algumas redes do setor de varejo e comércio já estão implementando mudanças em suas operações, substituindo o modelo de seis dias consecutivos de trabalho por um dia de folga pelo formato 5×2, que garante dois dias seguidos de descanso semanal. Essa movimentação no mercado, que busca atender à demanda por melhor qualidade de vida e retenção de talentos, ocorre em paralelo às discussões legislativas que visam alterar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e até a Constituição Federal para formalizar o fim do regime 6×1 no país.
Ação do Varejo: Empresas Substituem a Escala 6×1
Grandes redes de supermercados e outros estabelecimentos comerciais iniciaram a transição do regime de trabalho 6×1 para o 5×2 em suas unidades, muitas vezes como projetos piloto que se expandiram após resultados positivos. O Grupo Savegnago, por exemplo, implementou a nova escala em suas mais de 60 lojas de supermercado e em unidades do Paulistão Atacadista, com a alteração prevista para se consolidar a partir de fevereiro de 2026.
A principal característica dessa mudança prática é a reorganização da jornada semanal, que, na maioria dos casos, mantém a carga horária total exigida pela lei (geralmente 44 horas semanais), mas a distribui de forma diferente. Para compensar os dois dias de folga, a jornada diária é estendida. Em vez das 7 horas e 20 minutos comuns na escala 6×1, os funcionários passam a trabalhar cerca de 8 horas e 48 minutos por dia, durante cinco dias.
Benefícios Percebidos pelas Empresas
De acordo com representantes dessas redes varejistas, a adoção do modelo 5×2 tem trazido benefícios tangíveis, como a melhoria do bem-estar dos colaboradores e, consequentemente, a maior energia das equipes ao retornar ao trabalho. A previsibilidade de ter dois dias consecutivos de descanso é vista como um fator crucial para o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, ajudando na atração e retenção de funcionários, especialmente entre as gerações mais jovens que rejeitam jornadas de trabalho mais desgastantes.
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O Debate Legislativo em Brasília
Simultaneamente à iniciativa privada, o poder legislativo federal trata o fim da escala 6×1 como uma pauta prioritária. O tema envolve a discussão sobre a redução da jornada de trabalho semanal, que atualmente é de 44 horas, para 40 ou até 36 horas semanais, dependendo da proposta em análise.
Propostas em Tramitação e o Papel do Governo
Diversas proposições estão em trâmite no Congresso Nacional. Uma das mais avançadas é a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 148/2015, que já foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. Esta PEC prevê a redução gradual da jornada máxima de 44 para 36 horas semanais e o aumento do descanso mínimo de um para dois dias por semana.
O governo federal, por meio de declarações de ministros como Guilherme Boulos, tem demonstrado apoio irrestrito à causa, prometendo enviar um projeto de lei em regime de urgência constitucional após o Carnaval para acelerar a mudança. A expectativa é que a alteração beneficie dezenas de milhões de trabalhadores contratados sob o regime da CLT.
Para que a mudança na jornada de trabalho seja efetivada por meio de PEC, é necessária uma alteração na Constituição Federal, que estabelece a jornada de 8 horas diárias e 44 semanais. O processo exige votações favoráveis em dois turnos no Plenário do Senado (mínimo de 49 votos) e na Câmara dos Deputados (mínimo de 308 votos).
Impactos Econômicos e Reações do Setor Produtivo
A perspectiva do fim da escala 6×1 e a redução da jornada provocam reações distintas entre empresários e economistas. Entidades setoriais, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio), alertam para os potenciais impactos negativos se a redução de horas não for acompanhada de ganhos de produtividade.
O principal temor levantado é o aumento imediato do custo da hora trabalhada, o que pode levar ao repasse de custos para os preços finais ao consumidor ou à compressão das margens de lucro.
Estimativas de Impacto
Um estudo do Centro de Liderança Pública (CLP) projetou que a extinção da escala 6×1, se não absorvida por reorganização ou ganhos de eficiência, poderia levar à perda de cerca de 600 mil empregos formais no país, com os setores de comércio, agropecuária e construção sendo os mais afetados. O impacto macroeconômico estimado seria uma queda de 0,7% no Produto Interno Bruto (PIB).
Representantes do comércio argumentam que a produtividade brasileira ainda é considerada baixa em comparação com outros países, e que uma redução de jornada sem o avanço concomitante em tecnologia e qualificação da mão de obra pode ser “devastadora” para a capacidade de produção dos setores de comércio e serviços.
Conclusão
O cenário atual é de convergência entre a demanda dos trabalhadores por melhores condições de descanso e a ação de empresas que buscam se modernizar, ao mesmo tempo em que o Legislativo se prepara para um debate constitucional e legal complexo. Enquanto redes de supermercados já colhem os frutos da escala 5×2, o futuro da jornada de trabalho no Brasil depende da aprovação de emendas constitucionais, equilibrando os direitos trabalhistas com a sustentabilidade econômica dos negócios.
