MPF: Família Vorcaro Lesa Previdência Pública Desde 2018

O Ministério Público Federal (MPF) acusa a família do empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, de lesar fundos de previdência de estados e municípios por meio de operações financeiras irregulares que se estenderiam desde 2018.
As investigações, que ganharam destaque após reportagens da colunista Daniela Lima no UOL, apontam que recursos destinados ao pagamento de aposentadorias e pensões de servidores públicos foram direcionados para aplicações de alto risco e inadequadas, resultando em um prejuízo mínimo já identificado de R$ 5,8 milhões.
O MPF sustenta que empresas ligadas ao núcleo familiar de Vorcaro consumiram esses recursos, com os prejuízos se materializando quando os ativos perderam valor ou liquidez, expondo os caixas previdenciários a perdas significativas.
O Esquema e o Período Investigado
A representação do MPF entregue à Justiça detalha que a engrenagem de aplicação dos recursos públicos em negócios questionáveis começou a ser montada por volta de 2018. Técnicos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já monitoravam operações estimuladas pelos Vorcaro desde aquele ano, mas suspeitas formais não teriam avançado na época devido a acordos firmados entre os empresários e o órgão regulador.
Entre 2018 e 2020, balanços financeiros analisados pelos investigadores indicaram que fundos de previdência, abastecidos com dinheiro de aposentadorias de entes públicos, figuravam como investidores finais de operações malsucedidas conduzidas por empresas do grupo familiar.
Dependência Agravada do Banco Master
O cenário de dependência dos recursos previdenciários se agravou a partir de 2024, segundo o MPF. Nesse período, o Banco Master teria passado a depender diretamente desses fundos para manter suas operações. Para atrair esses investimentos, o banco teria oferecido rentabilidades acima do padrão de mercado para títulos considerados de risco elevado.
Os procuradores federais avaliam que, de maneira involuntária, os servidores públicos passaram a sustentar a sobrevivência da instituição financeira. Um dos instrumentos citados na investigação são as letras financeiras subordinadas, papéis que ficam em último lugar na fila de pagamento em caso de falência ou insolvência da instituição emissora.
Veja também:
A Descoberta e a Repercussão Institucional
A desmontagem do esquema foi acelerada após a CVM ser pressionada a reexaminar negócios realizados entre 2018 e 2020 por empresas do grupo Vorcaro. O pente-fino subsequente revelou a ponta final da cadeia de investimentos, onde os fundos públicos absorviam as perdas.
A gravidade do cenário se materializou em desdobramentos recentes, incluindo prisões e o envolvimento de órgãos de fiscalização, como o Banco Central (BC). O BC, ao fiscalizar uma tentativa de aquisição do Master pelo BRB (Banco de Brasília) em 2025, encontrou fraudes grosseiras em documentos usadas para justificar aportes bilionários, o que levou o órgão a enviar notificações criminais.
A investigação da Polícia Federal (PF) apura um esquema de fraudes que atingiria o sistema financeiro de forma mais ampla, com suspeitas de que o negócio se baseava na circulação de ativos sem lastro real, forjando artificialmente os resultados financeiros do banco.
O caso, que já envolveu a prisão de um ex-presidente da Rioprevidência, também mira o Congresso Nacional, com indícios de que os recursos poderiam ter sido usados para blindagem jurídica e compra de apoio parlamentar, transformando a questão da previdência em um escândalo político-financeiro mais amplo.
Defesa e Próximos Passos
A defesa de Daniel Vorcaro foi procurada pelas reportagens que noticiaram os fatos, mas, até o momento da divulgação das informações mais recentes, não havia se manifestado oficialmente sobre as conclusões do MPF.
Os próprios investigadores admitem que o prejuízo identificado de R$ 5,8 milhões é apenas um valor mínimo e que a conta final das perdas para os regimes próprios de previdência de estados e municípios tende a crescer à medida que as análises progridem. O MPF solicitou medidas judiciais, como a suspensão de registros de fundos e gestores, para garantir a eficácia das apurações.
