Necroética dos Drones: O Bem Matar na Era Digital

O conceito de necroética na era dos drones surge como um tema central na filosofia da ética militar contemporânea, redefinindo a moralidade da guerra e do abate unilateral. A discussão, amplamente abordada por teóricos como Grégoire Chamayou em sua obra Teoria do drone, foca em como a tecnologia das aeronaves não tripuladas (VANTs) transforma a violência, distanciando o operador do ato e estatizando a vida estrangeira.
A Inversão da Ética Militar Tradicional
A necroética, no contexto dos drones, é caracterizada como uma nova filosofia que busca legitimar o uso dessas armas como instrumentos “mais éticos” ou “humanitários”. Historicamente, a ética da guerra exigia o sacrifício e a exposição do corpo do guerreiro ao perigo, fundamentando-se na bravura e na coragem. O drone, contudo, inverte essa lógica ao permitir que o soldado nacional, o “cidadão de uniforme”, seja preservado a todo custo, elevando sua segurança a um dever supremo, mesmo que isso ocorra às custas da vida de civis estrangeiros no campo de batalha.
O filósofo Grégoire Chamayou aponta que o drone é, em sua essência, a “arma do covarde”, pois elimina a reciprocidade do risco inerente ao combate. Enquanto a ética clássica demandava “morrer se matar”, o sistema de drones permite o “matar sem nunca poder ser morto”.
O Brasão da Morte Unilateral
Um símbolo potente dessa nova realidade é o lema encontrado no brasão do drone MQ-9 Reaper: “That others may die” (“Que morram os outros”). Este lema encapsula a transição da guerra como um combate de risco mútuo para uma caçada ou abate unilateral. Defensores dessa tecnologia, inclusive grupos de extrema direita e supremacistas, tentam redefinir a virtude, substituindo a bravura pelo ato de executar o “trabalho sujo” à distância, mesmo diante da visualização gráfica do impacto.
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A Burocratização da Morte
Um dos aspectos mais perturbadores da necroética é a forma como as decisões de ataque são mediadas por algoritmos e linguagem técnica. Decisões sobre bombardeios são frequentemente baseadas em softwares que calculam taxas aceitáveis de mortes civis, tratando-as como variáveis matemáticas dentro de uma racionalidade burocrática. Termos como “dano colateral” funcionam como eufemismos que desrealizam a violência.
Chamayou critica o sofisma de que a precisão tecnológica garante a legitimidade do alvo. Ele compara isso à guilhotina: a precisão da lâmina não atesta a culpa ou inocência do condenado. Da mesma forma, a precisão do míssil não anula o risco de erro na identificação do alvo legítimo no solo, especialmente em um contexto de antiterrorismo que exclui o tratamento político do conflito.
A Experiência Desmembrada do Operador
A psicologia do operador de drone é profundamente afetada por essa distância física e emocional, um fenômeno que Chamayou denomina “experiência desmembrada”. O ato de apertar um botão em um local remoto (como um contêiner em Nevada, EUA) e observar a consequência a milhares de quilômetros (como no Irã) rompe a ligação imediata entre a ação e seu efeito destrutivo. O assassinato se transforma, metaforicamente, em “teletrabalho”.
Drones na Logística Humanitária e Desastres no Brasil
Embora o debate central da necroética se concentre no uso militar, a tecnologia dos drones (VANTs) possui aplicações civis significativas, inclusive no Brasil, onde a regulamentação avança. A Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA) e a ANATEL regulamentam o uso, que cresceu exponencialmente para fins profissionais, como mapeamento e monitoramento.
Em cenários de crise, como desastres ambientais, os drones são ferramentas cruciais que contrastam com a ética militarista:
- Busca e Resgate: Pesquisas, como as desenvolvidas na USP, utilizam drones autônomos para identificar vítimas em cenários de alto risco (terremotos, enchentes), reduzindo o perigo para as equipes de socorro.
- Mapeamento de Danos: Em desastres como o de Mariana (MG), VANTs foram empregados para obter imagens em tempo real e baixo custo, auxiliando no direcionamento de esforços de reconstrução e monitoramento de áreas críticas.
- Prevenção: O uso civil inclui o monitoramento de focos de dengue em cidades como São Paulo, demonstrando uma aplicação de vigilância focada na saúde pública e não no abate.
Desdobramentos e a Crise da Guerra Infinita
A adoção da necroética, segundo a análise de Chamayou, leva a uma “guerra sem perdas e sem derrotas, mas também sem vitória”. A ação antiterrorista, focada no indivíduo a ser aniquilado, cria uma espiral sem fim, comparada à hidra que se regenera a cada decapitação.
No âmbito da ética pública e democrática, o conceito levanta questões sobre a aceitabilidade social de uma violência mediada, onde a vida estrangeira é reduzida a uma variável estatística. O desafio para a sociedade, e para a filosofia, é resistir à linguagem jurídica e administrativa que tenta mascarar a violência inerente a essa nova forma de guerra, garantindo que a tecnologia não dissolva completamente o éthos do guerreiro em favor de um mero executor burocrático.
