Bolívia: Novo Presidente Lança “Capitalismo para Todos” Contra Crise

O recém-empossado presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, anunciou a intenção de implementar um amplo pacote de reformas econômicas batizado de “Capitalismo para Todos”, visando reverter a profunda crise econômica que assola o país andino. A iniciativa representa uma guinada ideológica e econômica significativa após duas décadas de governos de esquerda, e busca, primordialmente, atrair investimentos externos e formalizar a economia nacional.
Rodrigo Paz, eleito pelo Partido Democrata Cristão, de centro-direita, assumiu a presidência em novembro de 2025, sucedendo o ciclo iniciado pelo Movimento ao Socialismo (MAS) de Evo Morales. Sua vitória marcou o fim de um período caracterizado pela estatização de setores chave, como o de petróleo e gás, que, segundo analistas, levou ao atual colapso econômico, marcado pela escassez de dólares e desabastecimento de combustíveis.
O Plano Econômico: “Capitalismo para Todos”
O lema “Capitalismo para Todos”, defendido durante a campanha, traduz-se em um conjunto de propostas focadas na reestruturação econômica e na abertura ao mercado global. O cerne do plano, conforme detalhado por Paz, reside em incentivar o setor privado como motor de crescimento, ao mesmo tempo em que se buscam manter programas sociais essenciais para as camadas mais vulneráveis da população boliviana.
Entre as medidas centrais do pacote de reformas, que deve ser apresentado nos próximos meses, destacam-se a redução de impostos e a eliminação de barreiras burocráticas para facilitar a atividade empresarial. Um foco específico do governo está na modernização e profissionalização do setor de mineração, especialmente na exploração de lítio, recurso estratégico no qual a Bolívia detém a quinta maior reserva mundial, mas que não se traduz em alta produção devido às restrições atuais.
Abertura no Setor de Mineração e Lítio
A legislação vigente na Bolívia, estabelecida durante os governos anteriores, restringe a exploração de commodities minerais, como o lítio, a parcerias com empresas estatais, que historicamente impuseram condições onerosas ao capital estrangeiro. O plano de Paz propõe uma nova lei para exploração de recursos naturais, visando uma divisão de riscos na proporção de 50/50 entre o Estado boliviano e as multinacionais interessadas. Nesta nova estrutura, o governo forneceria o terreno, enquanto as empresas privadas entrariam com a tecnologia e o investimento necessário para o desenvolvimento da exploração.
A abertura para o investimento estrangeiro direto, especialmente em recursos cruciais para novas tecnologias, pode ser vista como uma estratégia para reduzir a dependência externa e reposicionar a Bolívia no cenário comercial global, potencialmente beneficiando multinacionais americanas em um contexto de disputas comerciais internacionais.
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O Contexto da Crise Herdada
Rodrigo Paz assume o cargo em um cenário de severa deterioração econômica. A crise é caracterizada, em grande parte, pelo esgotamento das reservas internacionais, utilizadas para subsidiar a importação de combustíveis como gasolina e diesel. Esse desequilíbrio levou a uma inflação galopante, com picos atingindo patamares elevados, e gerou desabastecimento generalizado, forçando cidadãos a longas filas para conseguir combustível.
O antecessor, Luis Arce, havia tentado mitigar a escassez de dólares com medidas como a liberalização de exportações agrícolas e incentivos fiscais para repatriamento de lucros, além de acordos com o setor empresarial. No entanto, a situação se agravou, culminando na crise de liquidez em moeda estrangeira.
Desafios Políticos e Institucionais
A implementação das reformas propostas por Paz não será isenta de obstáculos políticos. O novo presidente, embora tenha vencido a disputa no segundo turno contra Jorge “Tuto” Quiroga, herda um cenário político tenso. A influência do ex-presidente Evo Morales, líder do MAS, ainda é significativa, e o próprio Morales criticou a eleição, não comparecendo à cerimônia de posse.
Além disso, analistas apontam o risco de impasse no Congresso, o que pode dificultar a aprovação de reformas estruturais, mesmo que sejam tecnicamente sólidas. A promessa de Paz de não solicitar novos créditos internacionais até reestruturar as finanças internas contrasta com a necessidade urgente de estabilização econômica.
Relações Internacionais e Perspectivas
No campo diplomático, o governo de Rodrigo Paz sinaliza uma aproximação com os Estados Unidos, marcando uma mudança na política externa após anos de alinhamento com governos de esquerda. Apesar disso, Paz manifestou a intenção de manter um diálogo construtivo com o Brasil, parceiro estratégico do país andino, buscando fortalecer a cooperação em infraestrutura e manter a participação boliviana em fóruns como o Mercosul.
O novo presidente tem a missão de restaurar a confiança no mercado e estabilizar a economia, prometendo uma abordagem centrista que busca a mudança sem ser radical, conectando-se com eleitores desiludidos com o modelo anterior. A eficácia do plano “Capitalismo para Todos” será crucial para definir o futuro econômico da Bolívia nos próximos anos.
