Indicado ao BC, Guilherme Mello defende regulação de capitais e nova meta de inflação

O economista Guilherme Mello, indicado pelo Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para uma das vagas na diretoria do Banco Central (BC), teve propostas defendidas em um documento do Partido dos Trabalhadores (PT) que sugerem mudanças significativas na atuação da autoridade monetária. O texto, que serviu de base para o programa de governo federal de 2022, coordenado por Mello em conjunto com Aloizio Mercadante, propõe a ampliação das atribuições do BC para além do controle de preços, visando também o monitoramento do nível de emprego e da estabilidade econômica geral, além de incluir preocupações sociais como a redução de desigualdades de raça, gênero e renda.
Propostas Heterodoxas para o Banco Central
As ideias defendidas por Mello, que é Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, apontam para uma visão econômica mais heterodoxa, gerando reações de preocupação no mercado financeiro. O documento coordenado pelo indicado sugere que o Banco Central não pode se manter alheio aos graves problemas de desigualdade que o Brasil enfrenta.
Mudança no Regime de Metas de Inflação
Uma das propostas mais debatidas é a alteração no regime de metas de inflação vigente no país. O plano petista sugere dar maior prioridade ao chamado “núcleo” do índice de inflação, que exclui itens com alta volatilidade de preços, como os combustíveis. Essa abordagem, embora utilizada por diversos países, representa um afastamento do foco atual que considera o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) integralmente.
O documento pede que seja construído um novo indicador para guiar a definição da taxa Selic, sem especificar qual seria esse índice exato, mas focando em uma meta que seja mais compatível com o crescimento econômico, a geração de empregos de qualidade, o fomento ao investimento público e a ampliação das políticas sociais. Essa visão contrasta com a percepção de parte do mercado de que as propostas de Mello podem indicar uma maior tolerância com a inflação.
Regulação do Fluxo de Capitais
Outro ponto levantado no texto coordenado por Guilherme Mello é a necessidade de o Banco Central possuir instrumentos adequados para a regulação do fluxo de capitais. A ideia é que a autoridade monetária tenha maior poder de intervenção sobre os fluxos financeiros internacionais, algo que se alinha a um desejo de maior controle sobre a estabilidade monetária e econômica do país, em vez de se restringir estritamente ao controle de preços.
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Contexto da Indicação e Reações
A possível indicação de Guilherme Mello para a diretoria do BC, que ainda depende da decisão final do Presidente Lula e de sabatina no Senado Federal, intensificou o debate sobre a autonomia e o mandato da instituição. Mello, que também é cotado para comandar a área de Política Econômica, tem um histórico de proximidade com o PT, tendo coordenado o documento que serviu de base para o programa de governo.
Em contraste, o ministro Haddad também sugeriu ao presidente Lula o nome do economista Tiago Cavalcanti para outra vaga na diretoria. Cavalcanti, apesar de não ter histórico ligado ao PT, defendeu em 2014 que a meta de inflação deveria ser cadente ao longo do tempo e criticou a “nova matriz econômica” do governo Dilma Rousseff, além de defender a autonomia do BC.
A notícia sobre as propostas heterodoxas de Mello gerou um alerta em agentes de mercado, que veem nas sugestões um possível enfraquecimento do atual arcabouço de política monetária, focado na meta de inflação rígida. O próprio PT, em resolução política recente, criticou a política monetária atual, afirmando que ela vai contra o projeto eleito nas urnas e sugeriu a revisão da meta de inflação para compatibilizá-la com o crescimento e o emprego.
O Regime Atual do Banco Central
Atualmente, o Brasil opera sob o regime de metas para a inflação desde 1999, onde o BC atua para manter a inflação dentro de uma meta pré-estabelecida, definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), tendo como referência o IPCA. Desde janeiro de 2025, a meta passou a ser contínua, referindo-se à inflação acumulada em doze meses, apurada mês a mês, com uma meta fixada em 3,00% e um intervalo de tolerância. As diretrizes e os mandatos dos diretores do BC incluem a política monetária, regulação, fiscalização e organização do sistema financeiro.
A discussão sobre as indicações e as propostas associadas a Guilherme Mello sublinha o tensionamento entre a manutenção da estabilidade macroeconômica, defendida por parte do mercado, e a busca por maior foco em desenvolvimento social e emprego, prioridades defendidas pela ala econômica do governo federal.
