PF Investiga Fictor: O Emaranhado de Fraudes Ligado ao Banco Master

Uma complexa teia de operações financeiras, que se estendeu do Banco Master (anteriormente Banco Máxima) até o Grupo Fictor, está sob investigação intensa da Polícia Federal (PF), revelando um emaranhado de negócios que, segundo as apurações, cresceu fora do radar regulatório do Estado. A investigação aponta para possíveis crimes contra o sistema financeiro nacional, envolvendo gestão fraudulenta, apropriação indébita e emissão de títulos sem lastro, com ramificações que já impactaram fundos de previdência e milhares de investidores individuais.
O Eixo Master-Fictor e a Investigação da Polícia Federal
O cerne da nova fase da investigação concentra-se no Grupo Fictor, que protocolou um pedido de recuperação judicial com dívidas estimadas em R$ 4,2 bilhões logo após a liquidação do Banco Master. A PF abriu um inquérito formal para apurar o grupo por suspeitas de gestão fraudulenta, apropriação indébita financeira, emissão de títulos sem lastro e operar como instituição financeira sem a devida autorização.
A conexão entre as entidades se tornou explícita quando a Fictor ensaiou a compra do Banco Master no final de 2025, na véspera da intervenção do Banco Central (BC). Essa tentativa de aquisição, que envolveria um aporte de R$ 3 bilhões, levantou sérias suspeitas no mercado e nas autoridades, sendo classificada pelo BC como uma possível “cortina de fumaça” para desviar o foco da crise do Master.
Estrutura Societária Obscura da Fictor
Um dos pontos mais críticos sob o microscópio regulatório é a estrutura operacional da Fictor. A holding utilizava Sociedades em Conta de Participação (SCPs) para estruturar seus negócios, um modelo que permite a entrada de investidores (sócios participantes) de forma oculta, enquanto o gestor (sócio ostensivo) assume a responsabilidade legal. Especialistas apontam que este formato pode ser um “terreno fértil para riscos”, favorecendo a ocultação de sócios, a triangulação de recursos e aumentando a vulnerabilidade a fraudes e lavagem de dinheiro.
Apesar de a Fictor alegar atuar em setores como alimentos, infraestrutura e serviços financeiros, seus dados públicos demonstravam fragilidade. O braço Fictor Alimentos S.A., por exemplo, apresentava um patrimônio líquido negativo, o que contrastava com a promessa de solidez feita durante a negociação pelo controle do Master.
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Impacto nos Investidores e Fundos de Previdência
A crise gerada pela tentativa de aquisição arrastou a Fictor, que alega ter sofrido uma fuga de investimentos após a liquidação do Master. A instituição afirma que, de R$ 3 bilhões aportados pelos sócios participantes até 17 de novembro, cerca de 71% foram retirados até o final do mês, o que teria provocado a crise de liquidez que culminou no pedido de recuperação judicial.
A Associação de Credores e o Rombo da Fictor
O impacto social do colapso da Fictor é apontado como potencialmente superior ao do Banco Master. Um grupo de investidores individuais e empresas lesadas organizou a Associação de Credores da Fictor Invest (ACFictor) para cobrar os R$ 4 bilhões devidos. Este grupo é composto por mais de 13 mil credores, a maioria composta por pessoas físicas (cerca de 11.549), que não são cobertas pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), tornando a perda de seus recursos uma ameaça real.
Conexões com o Escândalo Master
O caso Fictor está intrinsecamente ligado ao escândalo do Banco Master, cuja liquidação decretada pelo BC em novembro de 2025 revelou um rombo de R$ 83,2 bilhões. As investigações anteriores sobre o Master já apontavam para:
- Operações de Câmbio Suspeitas: O antigo Banco Máxima teria realizado cerca de R$ 2,8 bilhões em operações de câmbio para uma empresa investigada por suspeita de lavagem de dinheiro ligada ao PCC e ao Hezbollah, enviando US$ 531 milhões para a One World Services (OWS).
- Envolvimento de Fundos Públicos: Operações como a da Rioprevidência, fundo de servidores fluminenses, que investiu irregularmente R$ 970 milhões em títulos do Master, resultando em um prejuízo potencial de quase R$ 1 bilhão, estão sendo investigadas em desdobramentos como a Operação Barco de Papel.
- Relações Políticas: O dono do Master, Daniel Vorcaro, foi preso e as investigações subsequentes envolveram figuras políticas e até mesmo o escritório da esposa de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) foi contratado para defender executivos do grupo.
O Estado e a Falha na Supervisão
O título da reportagem original sugere que este “emaranhado” se desenvolveu “fora do radar do Estado”. Isso implica uma falha na supervisão e regulação, permitindo que estruturas complexas e de alto risco, como as utilizadas pela Fictor e as operações do Master, ganhassem escala significativa antes de serem detectadas pelas autoridades competentes. A investigação atual, que une os desdobramentos do Master e da Fictor, busca justamente mapear a extensão dessa atuação paralela ao sistema financeiro formal e regulado.
Enquanto a Fictor busca se reorganizar judicialmente, os credores se mobilizam para maximizar a recuperação de seus valores. O desfecho dessas investigações promete trazer à tona mais detalhes sobre como o ecossistema financeiro do Master e Fictor conseguiu operar com tamanha opacidade no cenário nacional.
