Produtividade Alta NÃO Derruba Juros: Entenda o Paradoxo

A crença popular de que um aumento significativo na produtividade da economia brasileira resultaria automaticamente em uma queda na taxa de juros básica, a Selic, é um equívoco que precisa ser desmistificado. Conforme análise de especialistas, a relação entre produtividade e juros de equilíbrio é mais complexa do que um simples inverso, podendo, em certas circunstâncias, até elevar a taxa real neutra de juros, desafiando as expectativas de um cenário de crédito mais barato.
O ponto central da discussão reside na definição do chamado juro neutro, a taxa de juros real compatível com o crescimento sustentável da economia e a manutenção da inflação na meta estabelecida. Este juro neutro é determinado pelo equilíbrio intertemporal entre a poupança agregada e o investimento na economia.
O Efeito da Produtividade no Juro Neutro
Quando a produtividade avança de forma persistente, o impacto não se restringe apenas a um maior Produto Interno Bruto (PIB). O aumento da eficiência produtiva, muitas vezes impulsionado por inovações como a Inteligência Artificial (IA), gera um efeito duplo no mercado de capitais.
Por um lado, maior produtividade pode reduzir custos de produção, o que, teoricamente, exerce uma pressão desinflacionária. Contudo, por outro lado, um salto na produtividade também significa que a economia passa a oferecer oportunidades de investimento mais rentáveis. Empresas, ao verem um potencial de retorno maior em seus projetos, aumentam a demanda por financiamento.
Este aumento na demanda por capital, em um cenário onde a poupança não acompanha na mesma velocidade, eleva o retorno esperado sobre o capital. Consequentemente, o juro real de equilíbrio tende a subir. Em outras palavras, se o aumento da produtividade estimula um volume maior de investimentos rentáveis, ele puxa a taxa de juros para cima, em vez de para baixo, pois o custo do dinheiro reflete o maior retorno oferecido pelas novas oportunidades de negócios.
O Papel da Tecnologia e da IA
A discussão recente tem focado no impacto da Inteligência Artificial. A IA é vista como um choque positivo de produtividade, capaz de reduzir custos significativamente. No entanto, se essa tecnologia for acompanhada por um forte ciclo de investimento em infraestrutura e modernização empresarial para sua plena adoção, o efeito imediato pode ser um aumento na demanda por crédito, pressionando o juro neutro para cima temporariamente, até que a oferta de bens e serviços se ajuste ao novo patamar de eficiência.
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Inflação e o Papel do Banco Central
É fundamental separar a dinâmica da produtividade da atuação da política monetária, que tem como foco principal o controle da inflação. O Banco Central (BC) utiliza instrumentos, como a taxa Selic, para garantir que a inflação converja para a meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
O BC atua de forma contracionista (elevando juros) quando a inflação está acima da meta, independentemente do nível de produtividade. A ata de reuniões recentes do Comitê de Política Monetária (Copom) indica que, mesmo com a moderação do crescimento da atividade econômica e a resiliência do mercado de trabalho, a inflação e suas expectativas permanecem acima dos níveis desejados. Manter juros restritivos é, portanto, uma necessidade para ancorar as expectativas inflacionárias, e não uma resposta direta ao crescimento da produtividade.
Mercado de Trabalho e Pressão de Custos
Outro fator que impede a queda automática dos juros, mesmo com ganhos de eficiência, é o estado do mercado de trabalho. Em um cenário onde o desemprego está baixo e os rendimentos reais médios têm crescido acima do ganho de produtividade do trabalho, há uma pressão inflacionária gerada pelos custos de mão de obra. O BC monitora atentamente essa dinâmica, pois o repasse desses custos para os preços finais pode anular os efeitos benéficos da maior produtividade na contenção da inflação geral.
Contexto Brasileiro: Juros Neutro e Reformas
No Brasil, o debate sobre o juro neutro é constante. Estimativas indicam que, em momentos de desequilíbrio, a taxa Selic precisa se manter acima desse patamar neutro para que a política monetária consiga efetivamente frear a demanda e controlar os preços. Reformas estruturais, como a Trabalhista e as que aumentaram a competição no crédito, têm sido apontadas como fatores que podem, a longo prazo, reduzir o juro neutro ao aumentar o produto potencial da economia de forma sustentável.
Entretanto, a velocidade com que esses ganhos de produtividade se traduzem em juros menores depende de como o mercado absorve esses ganhos e de como o arcabouço fiscal e o ambiente de risco-país se comportam. A política monetária, por sua vez, só terá espaço para flexibilização quando o cenário de inflação estiver consolidado dentro da meta, um patamar que ainda exige cautela e manutenção de um nível de juros restritivo, mesmo diante de avanços tecnológicos.
Em suma, a produtividade é crucial para o crescimento de longo prazo, mas sua influência sobre a taxa de juros de equilíbrio é mediada pela demanda por investimento e pelo comportamento da inflação. A queda dos juros no Brasil está mais atrelada à convergência da inflação à meta do que a um simples aumento da eficiência econômica.
