Quem é Tiago Cavalcanti, o nome de Cambridge na mira do BC

O economista Tiago Cavalcanti, professor titular na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, emergiu como um dos nomes cotados pelo Ministério da Fazenda para ocupar uma das vagas na diretoria do Banco Central (BC) do Brasil. A indicação foi revelada pelo Ministro Fernando Haddad, que afirmou ter sugerido o nome do acadêmico ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva há cerca de três meses, juntamente com o do atual Secretário de Política Econômica da Fazenda, Guilherme Mello.
Cavalcanti, caso confirmado, teria um mandato na autarquia até o final de 2029. A expectativa do mercado e as especulações apontam que ele poderia ser alocado nas diretorias de Política Econômica ou de Organização do Sistema Financeiro e Resolução, áreas que se alinham com seu perfil técnico e produção acadêmica.
Trajetória Acadêmica de Prestígio
A carreira de Tiago Cavalcanti é marcada por uma sólida formação internacional e um reconhecimento notável no meio acadêmico. Ele é o primeiro brasileiro a alcançar o posto de catedrático em economia na Universidade de Cambridge, uma instituição histórica no pensamento econômico, berço de nomes como John Maynard Keynes.
Sua formação inclui uma graduação em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Posteriormente, ele aprofundou seus estudos nos Estados Unidos, obtendo os títulos de mestre e doutor pela Universidade de Illinois. Essa mesma instituição é onde Paulo Picchetti, atual diretor de Assuntos Internacionais do BC, concluiu seu doutorado, estabelecendo um elo acadêmico entre Cavalcanti e quadros técnicos já presentes na autoridade monetária.
Desde 2007, Cavalcanti é professor na Faculdade de Economia de Cambridge. Adicionalmente, ele detém o título de fellow do Trinity College, uma das mais prestigiadas faculdades da universidade, e mantém um vínculo parcial como professor na Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV EESP).
Áreas de Pesquisa e Publicações
A expertise de Cavalcanti está concentrada em Macroeconomia, Crescimento Econômico e Desenvolvimento. Sua pesquisa acadêmica foi publicada em veículos de destaque, como o Journal of Monetary Economics, Review of Economic Statistics, European Economic Review e o Journal of the European Economic Association.
Além de sua atuação em Cambridge, ele é pesquisador no The Center for Economic and Policy Research (CEPR) e conselheiro do URBEM (Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole). Sua produção recente inclui a colaboração em um working paper do Banco Central, do Banco Central Europeu e outras universidades, focado no potencial das reformas financeiras para mitigar desigualdades no mercado de crédito.
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Posicionamentos Político-Econômicos e Histórico
Embora sua trajetória acadêmica seja proeminente, Cavalcanti possui um histórico de envolvimento em discussões políticas, notadamente em campanhas presidenciais fora do espectro do Partido dos Trabalhadores (PT).
- Campanhas de 2014: O economista participou das discussões econômicas nas campanhas de Eduardo Campos e Marina Silva. Registros indicam que ele atuou como “assessor econômico” de Marina Silva durante o pleito.
- Defesa da Autonomia do BC: Naquele período, Cavalcanti defendeu publicamente a autonomia formal do Banco Central, uma das bandeiras da candidatura de Marina, e criticou a política econômica do governo da época, que envolvia juros artificialmente baixos e expansão dos gastos fiscais. Ele chegou a comparar a resistência à independência do BC com o ceticismo inicial em relação à Lei de Responsabilidade Fiscal.
Em suas colunas como articulista no jornal Valor Econômico, Cavalcanti tem analisado avanços institucionais recentes no Brasil, como a implementação do Pix e o aumento da concorrência no setor de meios de pagamento. Em artigos mais recentes, ele tem alertado sobre a importância de os bancos centrais manterem o foco no controle da inflação e na estabilidade financeira, defendendo que a instituição deve resistir a pressões de grupos de interesse setoriais ou privados para não comprometer a confiança pública e o equilíbrio macroeconômico.
Contexto da Indicação e Próximos Passos
A revelação de Haddad sobre a indicação ocorreu em entrevista, na qual ele também expressou descontentamento com o vazamento prévio dos nomes, ressaltando que a decisão final sobre as nomeações para cargos com mandato, como as diretorias do BC, cabe exclusivamente ao Presidente Lula. Embora os nomes tenham sido sugeridos, o processo ainda depende da formalização e posterior sabatina no Senado Federal.
A possível nomeação de Tiago Cavalcanti para a diretoria do BC indica uma tendência de reforço do corpo técnico da autarquia com profissionais de forte lastro internacional e conhecimento aprofundado em temas de estabilidade financeira e organização do sistema, alinhando-se com a necessidade de credibilidade institucional defendida por ele em anos anteriores.
