Lucro do Santander em Linha, Mas Ações Caem com Alerta na Qualidade de Ativos

O Santander Brasil (SANB11) divulgou os resultados do quarto trimestre de 2025 (4T25), registrando um lucro líquido gerencial de R$ 4,086 bilhões. Este valor ficou em linha com as expectativas do mercado, representando um crescimento de 6,0% em relação ao mesmo período do ano anterior, superando ligeiramente as projeções compiladas pela LSEG, que apontavam para R$ 4,03 bilhões. Contudo, apesar do resultado positivo, o mercado reagiu negativamente à deterioração percebida na qualidade dos ativos do banco, o que levou as ações SANB11 a caírem 2,70% na abertura do pregão, atingindo R$ 34,97.
Análise do Resultado Financeiro do 4T25
O lucro anunciado representa o maior lucro trimestral do Santander Brasil nos últimos quatro anos, um sinal de resiliência em um cenário macroeconômico classificado pelo próprio banco como desafiador. O retorno sobre o patrimônio médio (ROAE) atingiu 17,6% no trimestre, embora tenha apresentado uma leve queda de 0,1 ponto percentual em comparação com o 4T24 e permanecido estável em relação ao 3T25.
A Margem Financeira Bruta (NII) com clientes demonstrou força, com um crescimento sequencial de 5% em relação ao trimestre anterior, superando a expansão da carteira de crédito. Por outro lado, a NII com o mercado sofreu um revés significativo, caindo 39% sequencialmente, um movimento atribuído ao impacto do aumento da taxa Selic e à redução nos ganhos de tesouraria.
Fatores que Sustentaram o Lucro
Analistas apontaram que o resultado positivo foi parcialmente sustentado por fatores não recorrentes ou pontuais, como a baixa alíquota de imposto efetiva, que ficou em 2,5%, consideravelmente abaixo da alíquota de 7% esperada por algumas casas de análise. Apesar disso, o lucro antes dos impostos ficou 3% abaixo das expectativas do JPMorgan.
A carteira de crédito ampliada do Santander Brasil alcançou R$ 708 bilhões ao final do trimestre. Houve uma expansão de 3,7% no acumulado do ano e de 2,8% no trimestre, apoiada pela disciplina na alocação de capital e foco em negócios estratégicos, segundo o banco.
Veja também:
A Preocupação com a Qualidade dos Ativos
O principal ponto de atrito entre o resultado financeiro e a reação do mercado reside na qualidade da carteira de crédito. O índice de inadimplência acima de 90 dias subiu 30 pontos-base em relação ao trimestre anterior, atingindo um patamar que acendeu um sinal de alerta entre os investidores e analistas.
Essa deterioração foi impulsionada, em grande parte, por segmentos específicos. O CEO do banco, Mario Leão, indicou que a pressão se concentrou em:
- Pequenas e Médias Empresas (PMEs).
- Setor de Agronegócio.
- Pessoa Física, especialmente na carteira de baixa renda.
Em trimestres anteriores (como no 4T23, que foi impactado por provisões específicas de grandes clientes), o banco havia fortalecido seu balanço com provisões, mas a persistência da deterioração no final de 2025 gerou ceticismo sobre a sustentabilidade da qualidade de crédito no curto prazo.
Estratégia de Crédito para 2026
Em resposta aos desafios na qualidade dos ativos, o Santander sinalizou uma mudança estratégica no foco de crescimento da carteira de crédito para 2026. O banco planeja uma expansão mais seletiva e técnica, com crescimento “desproporcional” em segmentos considerados mais seguros e rentáveis, como o de alta renda. Por outro lado, a carteira de baixa renda pode ser otimizada, podendo até mesmo apresentar uma queda nominal, refletindo uma postura mais cautelosa do banco diante do cenário de juros ainda elevados.
O CEO Mario Leão indicou que a perspectiva para a dinâmica de vários portfólios pode ser melhor em 2026 do que em 2025, mas reconheceu que a taxa Selic, mesmo com projeções de queda, deve permanecer em dois dígitos por um período, o que continua a pressionar o custo do crédito para os tomadores.
Contexto de Mercado e Repercussão
O Santander Brasil foi o primeiro dos grandes bancos a divulgar seus resultados do 4T25, iniciando a temporada de balanços do setor. A reação negativa das ações contrasta com o desempenho de outros pares em trimestres anteriores, onde resultados robustos garantiram valorização. A queda de 2,5% nas ações SANB11 no meio do pregão, por exemplo, foi notada em comparação com a alta de concorrentes como BBDC4 e ITUB4 em períodos de resultados menos favoráveis, evidenciando que o mercado penalizou a preocupação com a inadimplência.
Apesar da queda imediata, analistas mantiveram uma visão mista ou neutra, reconhecendo o lucro em linha, mas ponderando o risco de crédito. A antecipação de resultados globais pela controladora espanhola já havia indicado um desempenho mais fraco no Brasil, com queda no lucro por ação em relação ao trimestre anterior, o que pode ter influenciado a precificação prévia das ações.
