Viagem a Brasília e Mudança de Fundo: O Plano Secreto de Vorcaro na Véspera da Prisão

O banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, protagonizou uma série de movimentações estratégicas no domingo, 16 de novembro, dia que antecedeu sua prisão pela Polícia Federal (PF) no âmbito da Operação Compliance Zero. Entre os atos notáveis, destacam-se uma viagem relâmpago a Brasília, a reformulação do regulamento de um fundo ligado a ele e a antecipação de um anúncio crucial sobre a venda do Master.
Essas ações, registradas em planos de voo e documentos societários, indicam uma tentativa de reorganização ou resposta a eventos iminentes, ocorrendo poucas horas antes de a Justiça autorizar mandados de busca e apreensão contra os principais envolvidos no esquema de fraudes financeiras investigado.
A Viagem Relâmpago a Brasília
Documentos de voo revelaram que um jatinho particular, registrado em nome da holding patrimonial de Vorcaro, a Viking, partiu de Belo Horizonte com destino a Brasília no domingo 16 de novembro. A aeronave aterrissou no Distrito Federal por volta das 17h30. A passagem pela capital federal foi breve, com a decolagem ocorrendo apenas três horas depois, às 20h30, com destino a São Paulo.
Os motivos exatos dessa visita de poucas horas à capital federal permanecem sem confirmação oficial, uma vez que os advogados de defesa de Vorcaro se recusaram a comentar o voo. No entanto, o contexto sugere uma ligação com as tratativas ou desdobramentos do inquérito que culminaria em sua prisão na segunda-feira seguinte, dia 17, enquanto ele tentava embarcar para o exterior no Aeroporto de Guarulhos.
Contexto da Operação e Prisão
A prisão de Daniel Vorcaro ocorreu no bojo da Operação Compliance Zero, conduzida pela PF, que investiga a concessão de créditos falsos pelo Banco Master. As investigações apontam para esquemas complexos de fraude no Sistema Financeiro Nacional, incluindo a controversa tentativa de compra de ativos do Master pelo Banco Regional de Brasília (BRB), banco público ligado ao governo do Distrito Federal.
A Justiça Federal em Brasília, ao decidir pela manutenção da prisão, destacou a necessidade de preservar a ordem pública e desarticular uma organização criminosa com notável estrutura e poderio econômico, envolvida na prática reiterada de delitos financeiros. As fraudes investigadas envolvem a cessão irregular de carteiras de crédito, com potencial prejuízo estimado em R$ 17 bilhões ao BRB.
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Alterações no Cronograma de Venda do Banco Master
Além da viagem, o domingo agitado foi marcado pela decisão de Vorcaro de antecipar o anúncio público sobre a venda do Banco Master. Originalmente, a divulgação da parceria entre a Fictor Holding Financeira e investidores internacionais para a aquisição do banco estava programada para a sexta-feira, dia 21 de novembro. Contudo, o cronograma foi adiantado, e a notícia foi veiculada na tarde de segunda-feira, dia 17.
Integrantes do grupo envolvido na operação de venda atribuíram a mudança de planos a um vazamento da negociação. Na manhã daquele mesmo domingo, o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, publicou uma nota informando que Vorcaro apresentaria propostas de venda de ativos ao Banco Central (BC) até a quarta-feira seguinte (dia 19). A antecipação da venda e, inclusive, de uma viagem internacional de Vorcaro, que passaria de quarta para segunda-feira, sinalizaram uma reação a essa exposição midiática.
Reformulação de Fundo Próximo ao Banqueiro
Outro movimento significativo registrado no dia 16 de novembro foi a alteração no regulamento do fundo Termópilas, ligado a Daniel Vorcaro e ao Banco Master. Uma assembleia de cotistas, que na ocasião contava com apenas um cotista, ocorreu às 15h para reformular as regras do fundo, especificamente sobre amortização e resgate de recursos.
A movimentação em um veículo financeiro próximo ao controlador do Master, horas antes de sua prisão e em meio a um cenário de vazamentos e reestruturações, levanta questionamentos sobre a intenção por trás da modificação das regras de resgate de ativos. Embora a assessoria de imprensa de Vorcaro tenha afirmado anteriormente que ele não participa da gestão operacional de fundos, a coincidência temporal dos eventos chama a atenção das autoridades investigativas.
Desdobramentos e Conexões Políticas
O caso do Banco Master e Daniel Vorcaro se desdobra em múltiplas frentes, envolvendo investigações sobre fraudes no SFN e as relações entre o banco e o BRB. As investigações da Polícia Federal buscam rastrear a rede de contatos da organização criminosa, que, segundo reportagens, teria conexões que se estendem do meio político petista ao bolsonarismo.
A complexidade do esquema, que envolveu a utilização de empresas de prateleira para simular a origem de créditos, e as contradições surgidas em acareações, como a realizada entre Vorcaro e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, indicam a profundidade da apuração em curso. A antecipação de movimentos na véspera da prisão sugere uma tentativa de blindagem ou preparação para o cenário de crise que se instalou com a ação policial.
