Crítica Profunda: O que ‘Magnifica Humanitas’ Ignorou sobre Babel, Neemias e o Poder da IA

Em um debate teológico e ético que ressoa profundamente com os desafios da era digital, a professora assistente de Bíblia Hebraica da Universidade de Santa Clara, Cathleen Chopra-McGowan, publicou uma análise contundente sobre a encíclica papal ‘Magnifica Humanitas’. O artigo, veiculado pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU) e originalmente pela America Magazine, argumenta que o documento do Papa Leão XIV, embora crucial para a discussão sobre ética da Inteligência Artificial (IA), simplifica excessivamente as narrativas bíblicas da Torre de Babel e de Neemias, perdendo nuances essenciais para uma compreensão mais completa dos perigos da tecnologia.
A Encíclica ‘Magnifica Humanitas’ e Seu Contexto
A encíclica ‘Magnifica Humanitas: Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial’, lançada em 25 de maio de 2026, é a primeira do Papa Leão XIV e representa um marco na abordagem da Igreja Católica sobre a IA. O documento é descrito como um guia estratégico para líderes empresariais e tecnólogos, focado na dignidade humana, nos direitos dos trabalhadores, na estabilidade das instituições democráticas e no bem comum global frente ao avanço das tecnologias autônomas.
Para fundamentar seus argumentos, a encíclica recorre a duas metáforas bíblicas centrais. A Torre de Babel é apresentada como um alerta contra a arrogância tecnológica e a busca por poder sem intenção moral, que leva à fragmentação e à erosão da confiança. Em contraste, a história da reconstrução de Jerusalém sob a liderança de Neemias é oferecida como um modelo de reconstrução ética, solidariedade humana e o uso da tecnologia para servir ao bem comum, colocando Deus no centro e priorizando a comunhão e a reconstrução de relacionamentos.
O documento, composto por 245 parágrafos, aborda preocupações familiares sobre a IA, incluindo a insegurança no emprego, a manipulação de informações, violações de privacidade, vieses ideológicos e armas autônomas. No entanto, o Papa Leão XIV identifica um perigo mais profundo: a possibilidade de os seres humanos começarem a ver a si mesmos e aos outros como projetos “a serem otimizados”.
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A Análise Crítica de Cathleen Chopra-McGowan
Cathleen Chopra-McGowan, especialista em Bíblia Hebraica, desafia a interpretação binária da encíclica, argumentando que as próprias tradições bíblicas são mais complexas e resistem a tais simplificações. Em sua visão, uma compreensão mais aprofundada dessas narrativas pode enriquecer o debate ético sobre a IA, revelando perigos e nuances que a leitura superficial pode obscurecer.
A Torre de Babel: Para Além do Orgulho e da Confusão
Enquanto a encíclica ‘Magnifica Humanitas’ interpreta a Torre de Babel como um aviso contra a arrogância humana e a quebra de comunicação, Chopra-McGowan sugere uma lição mais insidiosa. Para ela, Babel é, acima de tudo, uma advertência contra a concentração do poder humano em um único sistema ou ordem tecnológica.
A professora argumenta que o verdadeiro perigo da uniformidade não reside apenas na ruptura da comunicação, mas na sua totalização. Um mundo reduzido a uma única língua ou sistema não é meramente unificado; é, na verdade, mais facilmente governável. Quando toda a informação flui pelos mesmos sistemas e estruturas, os seres humanos tornam-se mais fáceis de coordenar, monitorar, prever, manipular e controlar. Essa perspectiva ressalta que a pretensão de uma linguagem única – mesmo digital – que possa traduzir tudo, incluindo o mistério da pessoa, em dados e desempenho, é um dos perigos mais profundos da IA, algo que a encíclica reconhece, mas talvez não explore em toda a sua extensão na metáfora de Babel.
A história da Torre de Babel também pode ser vista como um relato de extraordinária cooperação humana, o que torna a advertência ainda mais potente: a capacidade de colaboração em grande escala, quando desprovida de uma base ética diversificada e plural, pode levar a formas perigosas de poder centralizado.
Neemias: Um Paradigma de Reconstrução com Contradições
Da mesma forma, Chopra-McGowan examina a figura de Neemias. A encíclica o apresenta como um modelo de reconstrução ética e solidariedade. No entanto, a professora aponta que a história de Neemias, embora seja sobre a reconstrução de Jerusalém, também envolve elementos de criação de fronteiras, coerção e controle administrativo.
A escolha de Neemias como um paradigma simples e descomplicado para a reconstrução ética da sociedade na era da IA pode, inadvertidamente, evocar o tipo de controle centralizado contra o qual a própria encíclica adverte. A visão de restauração do livro de Neemias é inseparável de sua ênfase na aplicação de fronteiras e na reorganização social, o que pode entrar em conflito com a visão de florescimento humano compartilhado que ‘Magnifica Humanitas’ busca promover. Essa tensão sugere que mesmo os esforços mais bem-intencionados de reconstrução podem carregar consigo o risco de novas formas de controle e exclusão, uma lição crucial para a governança da IA.
Implicações para a Ética da Inteligência Artificial
A crítica de Cathleen Chopra-McGowan não visa invalidar as preocupações do Papa Leão XIV sobre a inteligência artificial. Pelo contrário, ela argumenta que o reconhecimento dessas complexidades bíblicas pode aprofundar e enriquecer a discussão ética. Ao ir além de dicotomias simplistas, é possível confrontar não apenas os perigos morais da IA, mas também as formas políticas de poder que ela torna possíveis.
A verdadeira advertência, segundo Chopra-McGowan, é contra a fantasia da concentração do poder humano em um único sistema, seja ele tecnológico ou administrativo. A IA, com sua capacidade de processar e centralizar informações em uma escala sem precedentes, representa um terreno fértil para essa concentração de poder. Uma leitura mais matizada das escrituras pode nos ajudar a discernir e a resistir a essas tendências, promovendo um desenvolvimento da IA que seja verdadeiramente a serviço de uma humanidade plural e livre, e não de um controle totalizante.
Conclusão
O artigo de Cathleen Chopra-McGowan, mediado pelo Instituto Humanitas Unisinos, oferece uma perspectiva vital para o diálogo contínuo sobre a IA e a ética. Ao questionar as interpretações bíblicas da encíclica ‘Magnifica Humanitas’, ela convida a uma reflexão mais profunda sobre as complexidades intrínsecas às narrativas humanas e divinas. Essa abordagem mais rica pode nos equipar melhor para navegar os desafios da Inteligência Artificial, garantindo que o seu desenvolvimento e aplicação respeitem a dignidade humana em todas as suas dimensões, evitando a construção de uma nova ‘Torre de Babel’ digital e buscando uma verdadeira ‘Magnífica Humanidade’ em um mundo cada vez mais interconectado e tecnologicamente avançado.
