Crise de chips impulsionada por IA ameaça modems e TV Boxes no Brasil

A crescente demanda por chips de memória de alta performance, impulsionada pelo avanço da Inteligência Artificial (IA), está gerando uma crise global de componentes que já impacta diretamente o Brasil. Operadoras de telecomunicações alertam para a possibilidade de escassez e aumento de preços em equipamentos essenciais como modems de internet e TV Boxes, vitais para a conectividade doméstica.
A Demanda da IA e o Gargalo na Produção de Chips
O cenário atual é caracterizado por um “superciclo de investimentos em inteligência artificial”, que tem direcionado grande parte da produção mundial de semicondutores para atender às necessidades de data centers e servidores de IA. Chips de memória, como DRAM (Dynamic Random-Access Memory) e HBM (High Bandwidth Memory), são cruciais para o funcionamento dessas infraestruturas e têm sua fabricação priorizada devido à alta rentabilidade.
Essa realocação de capacidade produtiva, conforme analistas, retira do mercado convencional uma quantidade significativa de componentes. Estima-se que cada bit de HBM produzido pode subtrair três bits de memória DRAM convencional disponível, criando um desequilíbrio entre oferta e demanda. A indústria de semicondutores, concentrada em poucas regiões e fabricantes, torna-se vulnerável a choques geopolíticos e comerciais, agravando a instabilidade da cadeia de suprimentos.
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Impacto Direto em Modems e TV Boxes no Brasil
No Brasil, a situação é motivo de alerta para as operadoras de telecomunicações. Rodrigo Marques, CEO da Claro Brasil, afirmou que a crise global já pressiona as empresas brasileiras e pode levar à falta de peças para modems de banda larga e set-top boxes (TV Boxes). Esses equipamentos são fundamentais para a conexão à internet e o acesso a canais e serviços de streaming, e seu funcionamento depende diretamente de chips de memória RAM e armazenamento.
A antecipação de compras por empresas em todo o mundo para garantir o fornecimento de componentes tem gerado dificuldades logísticas e o risco de desabastecimento para o mercado nacional. O Brasil, por ser um grande importador de semicondutores, é particularmente suscetível a essas disrupções na cadeia global.
Aumento de Preços e Absorção de Custos
Além da ameaça de escassez, a crise de chips tem provocado uma escalada nos preços dos equipamentos. Rodrigo Marques revelou que os valores dos set-top boxes, por exemplo, já registraram aumentos superiores a 30%.
A Claro, por sua vez, tem absorvido esses custos adicionais para evitar o repasse imediato aos consumidores e manter os preços dos planos de assinatura. No entanto, o executivo alertou que, dependendo do percentual de alta contínua, pode se tornar “impossível” sustentar os valores atuais. Um levantamento da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) já indicava um possível aumento de até 30% no preço final de outros eletrônicos, como celulares, notebooks e televisores, no mercado brasileiro.
Globalmente, os preços dos chips de memória tiveram um salto significativo, com projeções de aumento entre 40% e 50% no primeiro trimestre de 2026, e mais 20% no segundo trimestre, segundo a Counterpoint Research. Essa elevação afeta diretamente a memória DRAM, impactando custos em celulares de entrada, intermediários e premium.
Desdobramentos e Perspectivas Futuras
A duração da crise de chips é incerta e as projeções variam. Enquanto o CEO da Claro estima que o problema persistirá por “pelo menos mais dois anos”, outras fabricantes de memória e analistas apontam para uma estabilização do fornecimento e dos preços somente entre 2027 e 2030.
A crise não afeta apenas modems e TV Boxes, mas todo o setor de eletrônicos de consumo. Relatórios da IDC (International Data Corporation) preveem uma queda recorde nas vendas globais de smartphones em 2026, de aproximadamente 12,9%, e um aumento nos preços médios de venda. Fabricantes menores, especialmente os que utilizam o sistema Android, podem enfrentar maiores dificuldades.
A indústria de semicondutores, embora otimista com o crescimento impulsionado pela IA, reconhece a necessidade de mitigar riscos e investir em resiliência da cadeia de suprimentos. Grandes investimentos em novas fábricas, como o de US$ 100 bilhões da Micron em Nova York, indicam um esforço para expandir a capacidade, mas esses projetos levam anos para entrar em operação e só devem auxiliar no equilíbrio do fornecimento global a partir de 2027 ou 2028.
Para o Brasil, a dependência externa de semicondutores destaca a importância de buscar alternativas e, a longo prazo, considerar investimentos em pesquisa, desenvolvimento e produção local de componentes em nichos específicos para reduzir a vulnerabilidade.
