Gigantes dos Pagamentos Disputam Trilhão na Era das Compras por IA
As gigantes globais de pagamentos Visa, Mastercard e a brasileira Elo estão em uma corrida intensa para dominar a próxima fronteira do comércio digital: as compras realizadas por agentes de Inteligência Artificial (IA). O cenário aponta para uma revolução onde assistentes inteligentes, em nome dos consumidores, pesquisarão, compararão preços e efetuarão transações de forma autônoma, configurando o que o mercado chama de comércio agêntico. Este novo modelo promete movimentar entre US$ 3 trilhões e US$ 5 trilhões globalmente até 2030, e as bandeiras buscam ser a camada invisível e indispensável por trás dessas transações.
Historicamente, os cartões de crédito levaram décadas para suplantar o dinheiro em papel, estabelecendo-se como uma ponte segura entre consumidores, bancos e comerciantes. Agora, a ascensão da IA introduz um quarto elo nessa cadeia, desafiando o modelo de negócios tradicional e impulsionando as operadoras a investir massivamente em tecnologia e parcerias estratégicas para não perderem espaço.
O Que é o Comércio Agêntico e Por Que Ele é a Próxima Fronteira?
O comércio agêntico representa uma mudança paradigmática na forma como as compras são realizadas. Em vez de o consumidor navegar por sites, comparar produtos e preencher dados de pagamento, um agente de IA assume essa função. Este assistente inteligente, programado com as preferências e limites do usuário, será capaz de pesquisar produtos ou serviços, negociar as melhores condições e finalizar a compra de maneira completamente autônoma.
A transição de pagamentos iniciados por humanos para transações conduzidas por agentes – conhecidas como agente para agente (A2A) – está gerando uma disputa global entre empresas de tecnologia e financeiras pelo controle dessa que poderá se tornar a principal porta de entrada para o comércio. A expectativa é que essa tecnologia não apenas otimize o tempo dos consumidores, mas também torne a experiência de compra mais eficiente e personalizada, reduzindo atritos operacionais.
A Corrida das Bandeiras: Estratégias e Investimentos em IA
Nos últimos meses, Visa, Mastercard e Elo têm dado passos concretos para se posicionarem na vanguarda do comércio agêntico, cada uma com suas abordagens e focos estratégicos.
Visa: Pioneirismo e Parcerias Estratégicas
A Visa, líder mundial em pagamentos digitais, tem uma longa história com a IA, sendo pioneira no uso de modelos de IA para prevenção de riscos e fraudes desde 1993. A empresa investiu mais de US$ 3 bilhões em IA e infraestrutura de dados na última década para tornar a movimentação de dinheiro mais segura e inteligente.
Entre suas iniciativas mais recentes, a Visa lançou o programa corporativo de inovação LAB AI, que visa apoiar empresas do setor de pagamentos na transformação digital por meio do uso estratégico da Inteligência Artificial. O programa oferece suporte desde a capacitação até o desenvolvimento técnico e a escalabilidade de soluções em IA. Além disso, a companhia introduziu o programa global “Agentic Ready”, já disponível na Europa e em expansão pela América Latina, que permite a bancos e empresas testarem e viabilizarem pagamentos feitos por agentes de IA em nome do cliente. No Brasil, instituições como Banco do Brasil, Bradesco, Santander, XP e Dock já aderiram à iniciativa.
Um movimento notável da Visa foi o acordo com a OpenAI, que transforma o ChatGPT em um canal direto de compras. Por meio dessa parceria, a IA poderá executar transações financeiras em nome do usuário, desde a pesquisa de produtos até o pagamento final, sem a necessidade de acessar um site ou aplicativo de loja. A Visa atua como uma camada de confiança, utilizando tokenização para proteger os dados do cartão e aplicando seus robustos filtros antifraude.
Mastercard: Segurança e Ecossistema de Comércio Inteligente
A Mastercard também tem investido pesadamente em IA, com aproximadamente US$ 11 bilhões em inovação em segurança cibernética desde 2018, utilizando a IA para combater a própria IA. A empresa foca em tornar o comércio mais inteligente, fornecendo insights baseados em IA para seus clientes, e mais pessoal, com experiências hiperpersonalizadas para os varejistas.
A companhia está trabalhando com a Microsoft e outras plataformas de IA para escalar o comércio agêntico, tendo apresentado a solução “Agent Pay”. A Mastercard também expandiu sua “Mastercard Agent Suite for Merchants” e introduziu o “Mastercard Agent Connect”, soluções que permitem que empresas construam, conectem e escalem experiências de compra impulsionadas por IA em seus próprios ambientes de e-commerce, mantendo controle sobre sua marca e relacionamento com o cliente. A empresa reconhece o desafio de adaptar seus sistemas antifraude, que foram construídos para impedir transações de bots, para agora habilitá-los a transacionar com segurança.
Elo: Inovação Brasileira e Foco em Serviços de Valor Agregado
A Elo, bandeira de pagamentos 100% brasileira controlada por Banco do Brasil, Bradesco e Caixa Econômica Federal, também está se movimentando para não ficar para trás. A empresa tem focado em expandir sua atuação para além do processamento tradicional de cartões, buscando receitas de serviços de maior valor agregado, como prevenção a fraudes, monetização de dados e identidade digital.
Um de seus projetos-piloto envolveu uma parceria com a Decolar, desenvolvendo um concierge digital baseado em IA agêntica que organiza toda a jornada de compra de uma viagem – da escolha de voos e hotéis ao pagamento – em uma única conversa, sem a necessidade de alternar entre aplicativos. Mais recentemente, a Elo adquiriu a tecnologia de inteligência artificial do Chatbank, uma plataforma que integra serviços bancários diretamente a aplicativos de mensagens como o WhatsApp. A aquisição visa ampliar a experiência dos clientes finais em diferentes jornadas financeiras, com planos futuros para o desenvolvimento de agentes autônomos de IA para compras e pagamentos.
Internamente, a Elo também colhe os frutos da IA, tendo migrado sua plataforma de processamento para uma arquitetura totalmente em nuvem, gerenciada por IA, o que resultou em uma redução de cerca de 50% nos custos de processamento. Além disso, a Elo tem se posicionado para competir no segmento de cartões ultra premium, tradicionalmente dominado por Visa e Mastercard no Brasil.
Desafios e Oportunidades no Comércio Agêntico
Apesar do vasto potencial, a transição para o comércio agêntico enfrenta desafios significativos, tanto técnicos quanto culturais e regulatórios. A principal barreira é a confiança do consumidor. Pesquisas indicam que, embora muitos brasileiros esperem usar agentes de IA para compras nos próximos dois anos (70% dos consumidores e 74% dos varejistas), a confiança na IA generativa para realizar transações em seu nome ainda é baixa. Apenas 23% dos norte-americanos confiam plenamente, embora esse número suba para 61% quando a Visa é a marca de pagamento envolvida.
A segurança e a prevenção de fraudes são preocupações centrais. Embora a IA seja uma ferramenta poderosa na detecção de anomalias e atividades fraudulentas, a própria sofisticação dos agentes de IA pode gerar novos vetores de ataque. As empresas precisam garantir a autenticidade dos agentes e evitar que a IA “alucine” ou realize compras sem a devida autorização.
A necessidade de uma infraestrutura robusta e a organização de dados por parte do varejo também são cruciais para suportar essas experiências. Apenas 15% dos estabelecimentos comerciais brasileiros se sentem preparados para operar em um ambiente de compras mediado por IA. Além disso, questões regulatórias sobre proteção de dados, transparência algorítmica e responsabilidade em caso de falhas ainda precisam ser amplamente debatidas e definidas.
Perspectivas Futuras: Um Pagamento Invisível e Inteligente
O futuro dos pagamentos aponta para um cenário onde a transação se tornará cada vez mais invisível e integrada à jornada digital. O pagamento não desaparecerá, mas se tornará parte da infraestrutura, ocorrendo sem etapas explícitas ou interação direta do usuário. As bandeiras de cartão, que antes eram o “plástico no bolso”, buscam agora ser a camada tecnológica que orquestra essas transações autônomas, garantindo segurança e fluidez.
Para os executivos do setor, a autonomia total dos agentes de IA, onde o consumidor só percebe a compra quando o produto chega, ainda levará tempo para se consolidar, principalmente devido a questões culturais e à necessidade de construir uma confiança sólida. No entanto, a velocidade de aprendizado das ferramentas de IA é acelerada, e o momento de investir e se preparar para essa revolução é agora.
A inteligência artificial está transformando não apenas a forma como pagamos, mas também quem toma as decisões de compra, prometendo redefinir a experiência do consumidor e o modelo de negócios de todo o setor de pagamentos.
