IA e Fraudes Digitais: UERJ Alerta para Desafio Judicial na Prova

O avanço das fraudes digitais, impulsionado pela Inteligência Artificial (IA), impõe desafios significativos ao Judiciário brasileiro na análise e valoração de provas. A avaliação foi feita por Marco Antonio Rodrigues, procurador do Estado do Rio de Janeiro e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), destacando a urgência de novas abordagens jurídicas e técnicas para lidar com a complexidade dos crimes cibernéticos na era da IA.
A Nova Natureza da Fraude Digital
A natureza das fraudes transformou-se radicalmente. Enquanto antes as discussões judiciais frequentemente envolviam assinaturas e contratos físicos, exigindo perícias grafotécnicas, o cenário atual é dominado por documentos sintéticos, clonagem de voz e face, vídeos falsos (deepfakes) e engenharia social potencializada por IA. Essa mudança gera um dilema para magistrados, que podem se deparar com provas digitais apresentando diferentes probabilidades de terem sido geradas por inteligência artificial, como no exemplo de um documento com 73% de chance de ser IA-gerado segundo uma parte, e 41% segundo outra.
A IA generativa, ao democratizar a criação de conteúdo sintético de alta verossimilhança, reduziu drasticamente a barreira de entrada para fraudes processuais sofisticadas, fragilizando a estabilidade epistemológica do “fato processual digital”. A questão central reside na confiabilidade da prova digital gerada por sistemas de aprendizado de máquina, que constroem respostas baseadas em padrões estatísticos, diferentemente das provas documentais tradicionais que representam fatos pretéritos de forma estática.
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O ‘Delay Jurídico’ e a Necessidade de Adaptação
Marco Antonio Rodrigues aponta para um “delay jurídico”, onde o Direito Processual não acompanhou integralmente a transformação tecnológica. O Código de Processo Civil (CPC), por exemplo, carece de regulamentação específica sobre prova digital. Embora haja projetos de lei em tramitação, a velocidade da tecnologia faz com que parte das propostas já comece a se mostrar defasada. Para o professor, uma eventual regulação deveria ter um caráter mais principiológico, permitindo que setores técnicos e reguladores atualizem as recomendações de forma mais ágil.
O combate às fraudes digitais exige uma atuação coordenada entre setor público, instituições financeiras, empresas de tecnologia, plataformas digitais, órgãos reguladores, polícias e Judiciário, uma vez que os golpes se tornaram um fenômeno sistêmico. A IA pode ser usada para emular identidades, produzir vídeos e vozes falsas, tornando os golpes mais convincentes e dificultando a distinção entre interações legítimas e tentativas de fraude.
A Importância da Perícia Forense Digital
Diante da complexidade das provas digitais manipuladas por IA, a perícia forense digital emerge como um mecanismo crucial para restaurar a confiança no sistema de prova. Essa perícia envolve a análise de metadados, hashes, logs de sistema e a auditoria de assinaturas eletrônicas, garantindo a autenticidade e a integridade da prova.
A cadeia de custódia, que permite acompanhar toda a trajetória da prova desde sua produção até a apresentação em juízo, torna-se ainda mais vital. A Resolução 615/25 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) já disciplina o uso da IA, exigindo supervisão humana, auditabilidade e transparência, especialmente para sistemas de “alto risco” que podem impactar direitos fundamentais.
Desdobramentos e Reações do Judiciário
O Judiciário brasileiro já enfrenta casos concretos relacionados aos desafios da IA na prova digital:
- STJ e Laudos de IA: A 5ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) suspendeu uma ação penal por crime de racismo cuja denúncia havia sido fundamentada em “laudo técnico” produzido por plataformas de IA (Gemini e Perplexity). A decisão do ministro Reynaldo Soares da Fonseca ressaltou que o output de um sistema de IA generativa não pode substituir integralmente a perícia humana, que exige perito oficial, metodologia verificável, possibilidade de contraditório e responsabilidade jurídica.
- Prompt Injection: Casos de prompt injection – comandos ocultos inseridos em petições para tentar manipular sistemas de IA do tribunal ou influenciar a parte contrária – foram identificados no Judiciário. O STJ, em maio de 2026, proferiu decisão registrando a identificação desses comandos, que visavam interferir na análise recursal. Tribunais como o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2) já desenvolvem ferramentas com proteção em três camadas contra fraudes digitais, e o STJ determinou a abertura de investigação e a aplicação de sanções administrativas e criminais para advogados que tentaram burlar o sistema.
Esses desdobramentos reforçam a necessidade de o Judiciário lidar cada vez mais com modelos de detecção de IA, logs de sistema e perícias algorítmicas, exigindo um investimento em expertise forense e o desenvolvimento de um ceticismo técnico por parte dos operadores do Direito para garantir a equidade e a imparcialidade do processo.
