IA impulsiona ganhos milionários em elétricas brasileiras

Grandes companhias elétricas no Brasil estão intensificando o uso da Inteligência Artificial (IA) em suas operações e já reportam ganhos anuais que alcançam a casa das centenas de milhões de reais. A tecnologia é aplicada desde a gestão de infraestruturas complexas até processos administrativos, visando maior eficiência, resiliência dos sistemas e combate a perdas.
Empresas como a Axia (antiga Eletrobras) e a Equatorial lideram essa transformação, implementando soluções inovadoras que otimizam a geração, transmissão e distribuição de energia. No entanto, especialistas alertam que, embora a adoção seja crescente, o setor ainda explora um potencial “muito imaturo” da IA, indicando um vasto campo para futuras otimizações.
Aplicações da IA na Operação e Gestão
A Inteligência Artificial no setor elétrico brasileiro abrange diversas frentes estratégicas, transformando a maneira como as companhias operam. Um dos usos mais significativos é na manutenção preditiva, onde sensores coletam dados contínuos de equipamentos em linhas de transmissão, subestações e usinas. Algoritmos de IA analisam essas informações para identificar padrões e prever falhas antes que ocorram, permitindo intervenções antecipadas, reduzindo o risco de desligamentos e prolongando a vida útil dos ativos.
Outra aplicação crucial é na detecção e combate a perdas comerciais, como furtos de energia, que representam prejuízos bilionários para as concessionárias. A Equatorial, por exemplo, utiliza visão computacional e imagens de satélite para automatizar fiscalizações e identificar irregularidades, tendo já detectado mais de 415 mil casos de fraude em suas áreas de concessão por meio de uma única iniciativa. Métodos tradicionais de detecção de fraudes possuem eficiência de 10% a 30%, enquanto a IA pode atingir até 95% de precisão.
A IA também é empregada na otimização da distribuição de energia, ajudando a gerenciar recursos de forma mais eficiente e a integrar fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica, de maneira mais eficaz ao sistema. Além disso, modelos climáticos baseados em IA avaliam riscos associados a eventos extremos, como queimadas e ventos fortes, permitindo ações preventivas para evitar interrupções no fornecimento.
Ganhos Financeiros e Casos de Sucesso
Os investimentos em IA já se traduzem em retornos financeiros expressivos para as elétricas. A Axia, maior companhia de energia da América Latina, reportou um impacto positivo anual de R$ 100 milhões, resultado de novas receitas, custos menores ou evitados, e aumento da resiliência de sua vasta base de ativos, que inclui hidrelétricas e 74 mil km de linhas de transmissão.
No caso da Equatorial, as iniciativas de inovação, incluindo o uso de IA, contribuíram para mais de R$ 185 milhões em benefícios financeiros diretos nos últimos dois anos, por meio de aumento de receita e redução de custos. As principais frentes estratégicas da companhia estão ligadas à gestão de ativos e à melhoria da interação com os clientes.
Outras aplicações com impacto financeiro incluem:
- Previsão de demanda: Algoritmos analisam dados de consumo, clima e histórico para otimizar a compra e venda de energia no mercado, reduzindo custos e maximizando lucros.
- Eficiência energética: Maximização do output energético de hidrelétricas, solares e eólicas, com insights sobre melhores intervalos de atuação e consumo.
- Funções administrativas: Uso em auditoria de contratos e cálculos de passivos judiciais, gerando eficiência em processos internos.
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Desafios e Perspectivas Futuras
Apesar dos avanços, o setor elétrico brasileiro enfrenta desafios na plena adoção da IA. Especialistas da Falconi, por exemplo, apontam que grande parte das empresas ainda faz uma utilização “muito imatura” da tecnologia, com ganhos de eficiência aquém do potencial real. A menor especialização de profissionais do setor de energia para atuar com as novas ferramentas é um fator limitante.
A demanda crescente por energia, impulsionada em parte pelo avanço dos data centers necessários para a própria IA, também representa um desafio. O Brasil, com sua matriz energética predominantemente renovável (88,2% em 2024), possui uma vantagem estratégica para atrair investimentos em infraestrutura de IA, desde que promova adaptações em seu setor elétrico.
A Axia já deu um passo nesse sentido com a inauguração de uma “neocloud” ou “fábrica de IA” no Rio de Janeiro, uma infraestrutura em nuvem com 96 GPUs, que pode ser acessada por terceiros, incluindo startups. A possibilidade de comercialização dessas soluções desenvolvidas internamente é uma perspectiva futura.
Relatórios da Deloitte indicam que 2026 será um ano crucial para as empresas de energia no Brasil, com a IA sendo uma prioridade para agilidade operacional, digitalização intensiva de processos e fortalecimento da resiliência das cadeias de suprimento. A convergência entre IA e energia promete um futuro com sistemas mais inteligentes, eficientes e sustentáveis, redefinindo a competição no setor.
